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Full text of "Revista de sciencias naturaes e sociaes"

/\ 



IIARVARD UNIVERSITY 




LIBRARY 



OFTHE 



Museum of Comparative Zoòlogy 




REVISTA 



DE 



Sciencias Naíuraes e Sociae 






--.■-■-- 



REVISTA 



DE 





I?iil>liea<?ã,o trimestral 

DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director da Eschola Medico-Cirurgica do Porto 



RICARDO SEVERO 

Engenheiro civil 



ROCHA PEIXOTO 

Naturalista adjuncto ao Gabinete de Geologia 
da Academia Polytechnica 



VOLUME III 




PORTO 

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON 

CASA EDITORA 

M. LUGAN, SUCCESSOR 
l8 9 5 



.vVfc 



PORTO — Typ. Occidental 



ÍNDICE 



HISTORIA DA SCIENCIA 

Pag. 

BALTHAZAR OSÓRIO.— Zoologia portugueza antiga . qj 

MEMORIAS O.RIGINAES 

PALEOETHNOLOGIA 

FONSECA CARDOSO.— Nota sobre uma estação chel- 

leana no valle de Alcântara, ...... 10 

MARTINS SARMENTO.— Materiaes para a archeologia 

da comarca de Barcellos 62 e 186 

SANTOS ROCHA — A profanação das antas na epocha 

romana . 5 

ARCHEOLOG1A 
ALBERTO SAMPAIO. -As villas do norte de Portugal . .10 

ETHNOGRAPHIA 
ALOLPIIO COELHO. O Quebranto 1246169 

PALEOPHYTOLOG1A 

WENCESLAU DE LIMA.— Sobre uma espécie critica do 

Rothliegendes. . ■ í 



\l ÍNDICE 



VARIA 



Pag 



MELLO OK MATTOS.— Laboratório marítimo de Aveiro 22, 74 e r-25 
Os trabalhos recentes acerca da piscicultura cm 

Portuga] 100 

PAI L CHOFFAT. — Nouvel.les données sur le jurassique 

de FAfrique Orientale 70 

Sur quelques fossiles crétaciques du Gabon . . j3 



BIBLIOGRAPHIA 

FONSECA CARDOSO.— Antiguidades prehistoricas do 

concelho da Figueira, de Santos Rocha ... 8(j 
La lai lie du silex au XIX siècle, de Vieira Na- 
tividade 2-1 3 

Lusitanos, ligures e cellas, de Martins Sarmento 214 

PALL CHOFFAT. — Lcs lerrains permique, triasique et 
jurassique à Timor et à Rolti, dans larchi- 

pel indien 166 

ROCFIA PEIXOTO. — Descripção d' uma forma nova de 
hilvbile, «Lichas (Uralichas) Ribeiroi», de J. F. 

N. Delgado 43 

Note sur le crélacique des euvirons de Torres 
Vedras, de 'Peniche et de Cercal, de Paul Cheffat 4.S 

Exemplo frisante da importância da útil isação 
dos dados geológicos na escolha dos traçados 
dos caminhos de ferro, de P. Choffat e P. Vieira o5 

Noticia de alguns fosseis terciários do ar chi pé- 
lago da Madeira, de Berkeley Cotter. ... <j5 
Noticia de alguns fosseis terciários da ilha de 
Santa [Maria, no archipelago dos Açores, de 

Berkeley Cotter q5 

' Catalogue des insecles du Portugal, de Paulino 

de Oliveira 167 

Descriplion de la faune jurassique du Portu- 
gal. Cephalopodes, de Paul Choffat. .... 168 
Idem. Lameliibranches, de Paul Choffat. . 168 
cAppendice ao catalogo dos crustáceos de Por- 



N D I C 



P ... 

iugal existentes no fMnseit V^acional de ÍÀs- 

boa, de Balthasar Osório 21 5 

Estudos ichlyologicos acerca da fauna das do- 
mínios poi-liignezes na Africa, de B. Osório . 21 5 
Methodos usados na Estação zoológica de Ná- 
poles, de S. Bianco 216 

y\£otice sur les cephalopodes des coles de l'Es- 

pagne, de Albert Girard, . 216 

Les cephalopodes des lies Açores et de Vile de 

HM adere, de A Girard 216 



NOTICIAS 

ROCHA PEIXOTO. — Comissão central permanente de 

piscicultura 46 

Museu ethnographico portuguez 96 



OS MORTOS 

ROCHA PEIXOTO.— Ferreira Lapa 4^ 

Ricardo da Cunha 48 



ESTAMPAS 

l— Instrumento chelleano do valle de Alcântara (Cam- 
polide) 21 

II — Instrumentos paleolithicos do valle de Alcântara . 21 

III— Laboratório maritimo de Aveiro (Planta e alçado) . 160 



REVISTA 



Dl-: 





Publicação trimestral 

DIRECTORES 

WENCESLAU 'DE LIMA 

Lente da -Academia Pojytechrjica do Porto 



RICARDO SEVERO 

Engenheiro civil 



ROCHA PEIXOTO 

Naturalisía adjunUo ao Gabinete de Gcoic 
da Academia Polytechnica. 



Yolume terceiro — 1.° 9 

(l] SE1UE — N.° i) 




PORTO 

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON 

CASA EDITORA 

M. LUGAN, SUCCESSOR 



1894 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

Sobre uma espécie critica do L^othliegendes, por Wences- 

lau de Lima . . . . . ' . . '. . . . . . . pag. i 

c4. profanação das antas na epocha romana, por Santos 

Rocha . . ...... . . . ' . . . . pag. 5 

US^ota sobre tuna estação chelleana no valle d' Alcântara, 

por Fonseca Cardoso . P a g- lG 

VARIA 

Laboratório marítimo em cAveiro, por J. M. de Mello de 

Mattos . . . ... . . . pag. 22 

BIBLIOGRAPHIA 

Descripção de uma forma nova- de trilobite, Lichas (Urali- 

chas) L^ibeiroi, de J. F. N. Delgado, por R. P. • .* pag. ' 45- 

Note sw le crétacique des environs de Torres Vedras, de 

Peniche et de Cercal, de Paul Choffat por R. P. . . pag. 45 

NOTICIAS 

Commissão central permanente de piscicultura, por T{: P. pag. 46 

OS MORTOS 

Ferreira Lapa, por R P. . . ... . . .- . . . pag. 4S 

Ricardo. da Cunha, por R. P. . ...... . . pag. 48 

ESTAMPAS 

I — ■ Instrumento chelleano do valle de Alcântara (Campo- 

lide). pag, 21 

II — - Instrumento paleolithico do valle de Alcântara (Cam- 

polide) . . ... . . . ... . . . . pag. 21 



REVISTA 



DE 



SCIENCIAS NATURAES E SOCIAES 



SOBRE 



UMA ESPÉCIE CRITICA DO ROTHLÍEGENDES 




a Fossile Flora der Termischen Formation Gõp- 
pert descreve e figura um vegetal proveniente 
das camadas médias da formação permica de 
Schwarzkosteletz na Bohemia, que elle identifica 
com o Nevropleris cordata, Brongniart, baseado principal- 
mente na descripção e figura d^sta espécie dada por Lin- 
dley e Hutton na sua Fóssil flora of Great Britain. 

Nós encontramos o mesmo typo vegetal nas camadas 
do Rothliegendes portuguez, no Bussaco. E' abundante n'es- 
ta região e é espécie tam bem definida e característica que 
por isso se torna importante não só sob o ponto de vista 
paleontologico mas ainda em relação á estratigraphia. 

A abundância dos exemplares permitte-nos uma resti- 
tuição, do typo mais feliz do que a tentada por Góppert em 
face do exemplar de Reuss. Podemos apreciar os limites de 
variação na grandeza das pinnulas, composição provável da 
fronde e sua terminação, nervação, escapando-nos, como tem 

VOL. Ill 



REVISTA DE SC1ENCIAS , 



acontecido em toda a parte com os Nevropteris, a sua fru- 
ctificação. A identificação com o typo de Gòppert não soílre 
duvida. Essa planta não é, porém, o N. cordata, Brongt. 
Bastaria para apartal-a d'este typo a nervação extrema- 
mente apertada, contrastando com a nervação laxa caracte- 
rística da espécie de Brongniart, conforme a vimos nos exem- 
plares typicos, e tam nitidamente reproduzem as estampas 
de Zeiller nas suas Floras de Commentry, Autun, etc. A vi- 
sinha-se eífectivamente um pouco mais do typo figurado por 
Lindley e Hutton, que não é outro senão o N. Scheií^eri, 
como já o fez notar Robert Kidston na sua meticulosa revi- 
são da Fóssil flora of Great c Brilain. D'esta espécie se 
distingue, para não citar outras differenças, pela ausência de 
pêlos no limbo foliar, e de foliolos na base das pinnulas 
— os quaes nunca possue. 

A planta do Bussaco, idêntica á de Schwarzkosteletz 
é pois uma espécie distincta das duas que citamos, e distin- 
cta das suas limitrophes, até hoje descriptas. Por isso lhe 
demos novo nome aproveitando o ensejo para tributarmos 
a nossa homenagem de respeito ao grande paleophytologista 
francez René Zeiller. 

Apparece a nossa planta nas camadas de Callipteris 
conferia, de Walchia pini formes, de Schi^opteris irichoma- 
tioides e de Pecopteris leptophylla. E 1 portanto uma planta 
francamente permeana. Não tendo sido até hoje reconhecida 
íóra das localidades citadas da Bohemia e de Portugal, e 
andando confundida com o N. cordata de Brongniart para 
ella chamamos a attenção dos paleophytologistas, convenci- 
dos de que não deixará de ser encontrada n^outros jazigos 
do Rothliegendes. 

Para a descripção que vamos dar, e emquanto de novo 
a não figuramos mais completamente, referimo-nós á repro- 
ducção de Gòppert nas figuras i e 2 da Taf. XI da Flora 
der Permischeu Formation. 



NATURAES E SOCIAES 



Nevropteris Zeilleri. 

Descripção da Frondes grandes provavelmente bipinnadas, 
espécie. com os rachis finamente estriados longitu- 
dinalmente. Pinnulas curtamente peciola- 
das, patentes-erectas, contiguas ou cobrin- 
do-se ligeiramente nos bordos, raras vezes 
afastadas, muito pouco, umas das outras. 
Sempre inteiras, de forma constante oval 
lanceolada alongada, de bordos convergen- 
tes na extremidade, que é obtusamente ar- 
redondada e quasi sempre ligeiramente fal- 
cada. Base mais ou menos cordiforme. Con- 
forme a grandeza das pinnulas, e ampiexi- 
rachis nas de maiores dimensões. Limbo pla- 
no e delicado. Grandeza normal 6 centíme- 
tros de comprimento por 2 centímetros de 
largura, chegando as pinnulas maiores a di- 
mensões de 9 centímetros por 3 centíme- 
tros e superiores ainda. Pinnula terminal 
grande. Nervação nítida. Nervura média 
larga no nascimento, mas não forte, tenue- 
mente sulcada, estreitando para a extremi- 
dade da pinnula, que não attinge. Nervuras 

secundarias muito finas, muito numerosas e 
muito juntas, emergindo sob ângulos muito 
- agudos, quasi parallelamente á nervura prin- 
cipal, dichotomisando-se por differentes ve- 
zes 4 a 5 vezes normalmente e incurvan- 
do-se mais ou menos segundo a região da 
pinnula até encontrarem o bordo do limbo 
onde se podem contar 36 a 40 por centíme- 
tro corrente. A nervação tem caracter um 
tanto odontopteroide, isto é algumas nervu- 
ras secundarias nascem directamente do ra- 

* 



REVISTA DE SC1ENC1AS 



chis : são numerosas as que n'estas condi- 
ções percorrem as pinnulas terminaes e vêm- 
se também na nervação da base das d^al- 
gumas outras grandes pinnulas. 



Leça da Palmeira, 30 cToutubro de 1893. 



W. de Lima. 



A PROFANAÇÃO 

DAS ANTAS NA EPOCHA ROMANA 



Desde o principio das nossas explorações archeologicas 
na Serra do Gabo Mondego tínhamos notado nas antas dois 
factos que bastante nos impressionaram. O primeiro era 
que uma parte do entulho se achava fortemente concrecio- 
nado, embora os objectos prehistoricos que continha se en- 
contrassem despedaçados e na maior desordem; emquanto 
que a outra parte, a mais superficial, era incoherente, isto 
é, não se achava senão ligeiramente cimentada. O segundo 
era o apparecimento de alguns fragmentos de cerâmica, que 
parecia antiga, feita de barro bastante puro e bem cosido e 
com as espessuras e estriação próprias da roda do oleiro; 
ao passo que se encontraram também na camada superior 
ou mais incoherente restos de cerâmica manifestamente mo- 
derna. 

Estes factos faziam lembrar que os monumentos ha- 
viam sido profanados em duas epochas diversas e prova- 
velmente muito distantes entre si. A mais recente era para 
nós pouco interessante, sem duvida, e fixava-se bem quanto 
ao megalitho do Cabeço dos Moinhos e ainda quanto ao da 
Serra de Brenha; mas da outra não podia dizer-se o mesmo; 
enós aguardamos pacientemente que novas descobertas vies- 
sem esclarecer o mysterio, sobretudo explicando esses res- 
tos cerâmicos que então nos era impossivel classificar. 



A» 
f 



REVISTA DE SCIENCIAS 



O primeiro raio de luz sobre este assumpto provém do 
descobrimento das ruinas de Porto Saboroso, onde a cerâ- 
mica era abundante e manifestamente antiga. Analysados e 
agrupados os diversos fragmentos, notámos alguns de barro 
cinzento escuro, com mistura de mica branca muito brilhan- 
te, que nos fizeram lembrar um dos exemplares recolhidos 
na grande anta das Carniçosas. 

Comparados entre si, pareceu-nos que effectivamente 
eram semelhantes na pureza da pasta, grau de cosedura, ca- 
racteres provenientes da roda do oleiro, cor e emprego da 
mica. Assim, ficámos suspeitando que os habitantes da 
Serra, na epocha d'aquellas ruinas, seriam os primeiros 
profanadores do tumulo neolithico. Esta hypothese confir- 
mava-se pela circumstancia de a casa do Porto Saboroso 
ter sido construída sobre as ruinas de um megalitho, como 
mostravam os fragmentos das respectivas paredes, e o mo- 
biliário prehistorico encontrado abaixo do nivel do pavimen- 
to da mesma casa; porque d 'este modo ficava fora de du- 
vida que os constructores conheciam esses monumentos fu- 
nerários, envolvidos nos seus cones de terra, e por con- 
seguinte bem podiam tel-os explorado com um fim qual- 
quer. 

Mas restavam ainda dois pontos a resolver: era se 
nos outros megalithos, que se fossem descobrindo, também 
existiriam restos cerâmicos eguaes aos das ruinas de Porto 
Saboroso, e a que povo ou civilisaçáo estas pertenciam. A 
fortuna favoreceu as longas e trabalhosas pesquizas que a 
este respeito fizemos por toda a Serra até ao Gabo Mon- 
dego: próximo d'este, no sitio da Espadaneira, entre o valle 
d'este nome e o Valle d'Anta, pelo sul das Pedras da Ban- 
deira, demos nas ruinas de um pequeno povoado, perfeita- 
mente semelhantes ás de Porto Saboroso; ao passo que 
novas explorações no Cabeço dos Moinhos e a descoberta 
dos megalithos da Mama do Furo e de Santo Amaro, a 
oeste do Casal da Serra, nas immediações da capellinha 



NATURAKS E SOCIAES 



d'aquelle santo, nos denunciaram a presença dos restos de 
cerâmica que nós procurávamos. 

Como a de Porto Saboroso, as casas da Espadaneira 
são mui pequenas, de forma rectangular, feitas d'alvenaria 
secca; a cerâmica de uma e outras são em tudo eguaes, até 
no estado de decomposição dalguns barros e no desbaste das 
arestas das fracturas. Não pôde, pois, haver duvida que 
todas são da mesma epocha e pertenceram ao mesmo povo. 

As explorações do Cabeço dos Moinhos, na parte mais 
dura do entulho, fornecera-nos um fragmento de vaso de 
barro pardo, coberto nas superfícies por uma camada cin- 
zenta, com mistura de mica branca, egual a outros desco- 
bertos em Porto Saboroso e na Espadaneira, e alguns va- 
sos de um barro vermelho mais ou menos descorado, apre- 
sentando nas superfícies interiores uma estriação profun- 
da e ás vezes bastante larga, precisamente como muitos 
d^aquellas duas estações, sobretudo da Espadaneira, onde o 
interesse de uma observação methodica nos levou a reco- 
lher todos os exemplares descobertos. A estruetura e a for- 
ma indicada pelos fragmentos também não deixam duvidas 
sobre a sua semelhança. 

O megalitho da Mama do Furo forneceu-nos outros 
fragmentos de vasos de barro avermelhado também eguaes 
aos do Cabeço dos Moinhos e aos da Espadaneira : alguns 
dir-se-iam pertencentes ao mesmo vaso; o que prova que 
os mesmos barros intervieram na estruetura de todos elles, 
que todos tiveram o mesmo grau de cosedura, e foram ma- 
nipulados pelos mesmos fabricantes. 

No megalitho de Santo Amaro encontramos apenas 
um fragmento de cerâmica; e esse, de barro vermelho des- 
corado, apresenta a mesma pasta, a mesma estriação inte- 
rior, larga e profunda, a mesma mistura da mica branca e 
o mesmo desbaste nas arestas da fractura que os já descri- 
ptos : também não nos parece offerecer duvida a sua per- 
feita semelhança.- 



8 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Por isso nós podemos hoje affirmar que na verdade o 
povo de Porto Saboroso e da Espadaneira explorou as an- 
tas da Serra. 

Ora, entre os objectos encontrados nas ruinas da Es- 
padaneira, tornam-se notáveis os seguintes : um pedaço 
do rebordo d'uma telha rectilínea, fragmentos de telhas cur- 
vas, um trado e um prego de ferro, uma fivella de cinturão, 
de bronze, a que falta o fuzilão. 

Estamos, pois, em face da civilisação romana: ahi te- 
mos a tegula, o imbrex, a terebra, o clavus e zjibula. 

Alguns fragmentos das extremidades das telhas curvas 
apresentam estrias transversaes feitas com os dedos, pre- 
cisamente como as das sepulturas da Granja do Oliveira e 
das ruinas romanas de Montemór-o- Velho ; muitos restos 
de vasos apresentam a estructura e até a forma de outros 
encontrados n'estas ruinas. 

Considerada ainda em geral, toda a cerâmica tem o 
cunho familiar da cerâmica romana, e sobretudo da que já 
descobrimos em Montemór-o-Velho. Alguns objectos pare- 
cem ter sahido da mesma officina, porque, além das seme- 
lhanças notadas, a pureza e a cor da pasta são as mesmas, 
e é egual o grau da cosedura. Em ambas as estações ha o 
barro vermelho muito intenso, o mais descorado, o cinzen- 
to e o alvadio; em ambas se encontra desde a pasta purís- 
sima até á mais grosseira. 

Nem pôde haver duvida que os romanos estacionaram 
pela Serra : dois kilometros aproximadamente para leste 
do Porto Saboroso, encontram-se, pelas immediações da 
Asseiceira, abundantes restos de telhas e tijolos que lhes 
pertenceram \ e nas visinhanças da Maiorca acontece o 
mesmo. 

Seriam effectivamente romanos os da Espadaneira, ou 
indígenas romanisados? A duvida só pôde provir do systema 
da construcção das casas. Mas, se não eram romanos, fica 
pelo menos fora de duvida que viviam á maneira dos ro- 



NATURAES E SOC1AES 



manos, e que assim a profanação das antas teria logar na 
epocha romana. 

O fim não se descobre facilmente; mas podemos arris- 
car algumas conjecturas. Note-se que a grande anta das 
Carniçosas só continha um machado ; que nenhum encon- 
tramos em Porto Saboroso, na Mama do Furo e no mega- 
litho de Santo Amaro; que na necropole do Cabeço dos 
Moinhos só recolhemos uma hachasinha polida e uma lasca 
que podia servir ao mesmo destino; e que foi precisamente 
n'estas estações que nós registamos a presença da cerâmi- 
ca da Espadaneira. 

. Note-se também que a raridade ou falta das hachas 
nos túmulos neolithicos é um facto anormal, porque o uso 
era sepultar os mortos com as suas armas e utensílios. Bem 
pequeno era o da Serra de Brenha e todavia tinha dois 
machados. 

Por outro lado é sabido que os romanos olhavam os 
machados de pedra com muita superstição. O seu nome era 
ceraunias; e eis como Plinio (Hist. Nat., liv. 3'/, § 5i.°) se 
exprime acerca das suas qualidades e virtudes: 

« Sotacus distingue duas outras variedades de cerau- 
nias, uma negra e outra vermelha. Elle diz que se asseme- 
lham a hachas; que entre estas pedras as que são negras e 
redondas (os machados cónicos de basalto?) são sagradas; 
que por meio d'ellas se tomam as cidades e as frotas, e que 
as denominam bétulas ; mas que se chamam ceraunias as 
que são longas. Também se pretende que ha outra espécie 
de cerâmica muito rara, e procurada pelos magos para as 
suas operações, attendendo a que só se encontra em logar 
ferido pelo raio. » 

Assim, não repugna admittir que os romanos ou povos 
romanisados, tendo conhecido que as antas encerravam ce- 
raunias, explorassem esses monumentos para procurarem 
tão preciosos objectos. 

Santos Rocha. 



NOTA 



SOBRE UMA ESTAÇÃO CHELLEANA 

NO VALLE d'AlCANTARA 



Foi em 1 863, quatro annos depois da confirmação da 

celebre descoberta de Boucher de Perthes, que pela primei- 
ra vez se assignalou, com o encontro de sílices lascados 

nas alluviões quaternárias de S. Isidro, próximo de Madrid, 
a existência da primeira epocha paleolithica áquem dos Py- 
rineos. 

Annos depois, o illustre geólogo snr. Nery Delgado, 
ao realisar a exploração da gruta da Furninha, em Peniche, 
descobriu, no 3.° nivel archeologico, um instrumento chellea* 
;/o, o que fez estender o habitat do homem quaternário até 
á extremidade Occidental do nosso paiz, sendo esta desco- 
berta duplicada, mais tarde, com um outro instrumento em 
quartzite, recolhido á superfície do solo, nos arredores de 
Leiria (*). E era quanto sabíamos sobre o chelleano da nos- 
sa península. 

Hoje augmentarei esse numero, accrescentando uma pa- 
gina á Paleoethnologia portugueza, com a apresentação 
d\ima nova estação chelleana, reconhecida no flanco es- 
querdo do valle d'Alcantara a três kilometros a NO de 
Lisboa. 



(*) Cartailhac — Les ages préhistoriqaes de lEspctgne et da 
'Portugal, pag. 3o. 



NATURÀES E S0C1AES i i 



Os trabalhos da abertura do tunnel do Rocio, no sitio 
da Rabicha, junto a Campolide, pozeram a descoberto duas 
antigas galerias subterrâneas para a exploração do silex, 
semelhantes ás minas neolithicas de Spiennes na Bélgica, de 
Cissbury na Inglaterra e de Bas-Meudan, Petit-Morin e 
Mur-de-Barrez em França. A descripção d'essas galerias 
neolithicas forma um dos capítulos mais interessantes da 
excellente memoria do snr. Paulo Choffat — Études géologi- 
ques du tunnel du Rocio. 

Desgraçadamente, d'esse monumento da civilisação da 
pedra polida único, por emquanto no nosso paiz, apenas 
restava, em 1890, quando o visitei, o fundo da galeria su- 
perior, embutido na trincheira norte da via férrea. A trin- 
cheira opposta, porém, chamou a minha attenção pela na- 
tureza geológica do terreno que a coroava. 

Este terreno, assentando sobre o cenomaniano calcareo 
que constitue o corpo do talude, é formado por uma massa 
de cascalho ligada por uma argilla fina de cor vermelho- 
ferruginosa. A sua espessura máxima era de um metro, e 
formava um terraço no flanco esquerdo do valle d^Alcanta- 
ra a 3o metros acima da ribeira que lhe determina o thalweg. 

Os caracteres doeste terreno são evidentemente os das 
alluvióes quaternárias ou dos altos níveis (Belgrand) que, 
enchendo os valles na primeira epocha quaternária, soífre- 
ram mais tarde uma forte ablação que as desmantellou. 

« Le chelléen ne se trouve plus que par lambeaux pla- 
ques á diverses hauteurs le long des vallées...» define de 
Mortillet. O 

( 1 ) Le Préhislorique, pag. 3í5. 



I 2 REVISTA DE SClENClAS 



É r^estas alluviões que se recolhem os instrumentos 
chelleanos mais característicos, e são elles cTuma importân- 
cia capital para o estudo do homem paleolithico em relação 
com as condições mesologicas em que viveu. Assim se obti- 
veram as interessantes conclusões a que teem chegado os 
paleoethnologistas francezes, inglezes, allemães e america- 
nos, acerca dos tempos quaternários. 

As alluviões de cascalho da Rabicha, não merecem, 
pois, a classificação de Remblais dada pelo snr. Choffat. (*) 

Dois instrumentos chelleanos que encontrei entre o bur- 
gau do terraço, vieram, além d'isso, confirmar plenamente 
as minhas observações e mostrar também que o homem 
estacionara nas margens da ribeira d'Alcantara no decorrer 
da primeira epocha paleolithica. 

Passando a descrever esses instrumentos, notarei que 
elles são de rochas differentes, mas existindo na localidade : 
um é de calcareo silicioso, o outro de quartzite. O primeiro 
é um bello specimen, bem talhado. A sua forma é amyg- 
daloide-alongada, apresentando uma face mais fortemente 
arqueada do que a outra. Este instrumento entra na cathe- 
goria dos grandes specimens, sendo, por emquanto, o 
maior da Península Ibérica. Com effeito, comparando-o nas 
suas dimensões com o silex lascado da gruta da Furninha 
e com outro de S. Isidro, reputado o maior d'esta esta- 
ção hespanhola e achado pelo snr. Quiroga y Gonzales ( 2 ) 
temos : 

VALLE d'AlCANTARA (Campolide) 

Comprimento Largura Espessura 

o m ,235 o m ,ii4 0,068 



(*) Etnde géologique du tunnel du Rocio. 

( 2 ) Cartailhac — Les ages firéhistoriques de VEspagne et du Por-' 
tugal, pag. 28. 



NATURAES E SOCIAES I l 



S. Isidro 

Comprimento Largura Espessura 

o m ,2i7 o m ,o95 o"', 045 

Gruta da Furninha 

Comprimento Largura Espessura 

o m ,i68 o m ,o8i o ,n ,o52 

O maior instrumento chelleano do museu de Saint-Ger- 
main tem de comprimento o m ,265, de largura o ,n ,i3o e de 
pezo 1^640. (*) O nosso peza i k ,66o. 

O segundo instrumento é do typo representado x\o Mu- 
sêe Prêhistorique de Mortillet, com o n.° 42, estampa VIII. 
E' um specimen de pequenas dimensões : o ra ,o77 de com- 
primento e o in ,o65 de largura. De talhe grosseiro, devido á 
qualidade da rocha, torna-se, no entanto, interessante por 
ser de talão, isto é, por apresentar na base a superfície arre- 
dondada do seixo em que foi talhado. 

Advertirei que os dois specimens não apresentam ves- 
tígios de terem sido rolados, o que mostra que elles foram 
abandonados no próprio cascalho, conservando ainda o pri- 
meiro, adherente ás faces, restos da argilla vermelha da ca- 
mada onde estivera incrustado e que a lavagem não conse- 
guiu fazer desapparecer. 

Quanto ao modo como os dois instrumentos chelleanos, 
deveriam ser manejados, o seu talhe e a sua espessura de- 
monstram bem que elles eram seguros directamente com 
a mão, confirmando assim a opinião de Mortillet, ( 2 j que 
denominou o único utensílio da primeira epocha paleoíithica, 

í 1 ) De Mortillet — Le prêhistorique, /(9^7,pag. 137. 
( 2 ) Le pj-éhistorique, pag. 142. 



H REVISTA DE SCIENCIAS 



conp de poing, para indicar assim que elle se manejava sem 
cabo. Com elíeito, o grande specimen, apresenta o lado di- 
reito da base mais retrahido onde se adapta commoda- 
mente a palma da mão direita, ficando o dedo polegar alo- 
jado rTum conchoide formado pela bifurcação da aresta mé- 
dia da face mais saliente (vid. estampa). Assim, o instru- 
mento empunha-se perfeitamente; o contrario se dá quando 
se applica a mão esquerda. O pequeno specimen basta ser 
de talão, para não se ficar em duvida acerca da maneira de 
o uúlisar. 

Muitos mais coups de poing se devem colher não só 
nas alluviões quaternárias, como também á superfície do 
solo, nos arredores de Campolide e pelas encostas do valle 
decantara. A estação chelleana de Campolide (') deveria 
ter sido rica d'esses instrumentos paleolithicos, se se atten- 
der a que eu recolhi dois e dirferentes lascas ( 2 ) n'um talude 
de alluviões de i m de espessura. No jazigo clássico de Saint- 

( r ) Para se não confundir com a estação neolithica da Rabicha que 
lhe fica fronteira, eu dou á quaternária o nome da localidade mais 
próxima. 

( 2 ) Estas lascas, que eu julgava perdidas, foram afinal encontra- 
das entre uns mineraes que ultimamente desencaixotei e quando a pre- 
sente Nota já se achava impressa. 

Como se vê na Est. II estas lascas não são mais do que trez ins- 
trumentos paleolithicos, os quaes vêem precisar melhor a epocha in- 
dustrial do jazigo quaternário de Campolide. Assim o n.° i da estam- 
pa, representa um instrumento chelleano muito semelhante ao n.° 40, 
pi. VIII do íMusée -Préhistorique de Mortillet, que o denomina cou- 
fieret, por causa da disposição em bisel da extremidade superior. Foi 
um' instrumento d'este género, que, recolhido nas alluviões quaterná- 
rias do S. Isidro, por L. Lartet, denunciou a existência da primeira 
epocha paleolithica na nossa península. O n.° 2 é do typo Levallois, 
antes mousteriano do que chelleano, e o n.° 3 será uma ponta mouste- 
nana. Todas sã.) de calcareo silicioso, tendo ainda adherentes restos da 
argilla vermelha como o seu companheiro da estampa I. 

O nosso jazigo paleolithico pertence, pois, ao fim do chelleano, a 
uma epocha industrial transitória, chelleo-mou?teriana, ou á acheulea- 



NATURAES E S0C1AES 1^ 



Acheul cavavam-se 2 mc de terreno quaternário para se en- 
contrar um coup de poing. (De Mortillet). 

Quantos se não perderam, pois, com o alargamento da 
entrada do tunnel do Rocio, na Rabicha, cujo espaço era 
superiormente coberto pelas alluviões chelleanas ! 

Infelizmente, vendo-me obrigado a partir para o norte 
do pàiz, não pude continuar as minhas pesquizas sobre o 

período paleolithico dos arredores de Lisboa. 



Que lugar occupa a epocha chelleana na série dos tem- 
pos quaternários ? 

De Mortillet, advogando a existência d^um periodo gla- 
ciario durante o quaternário, classifica essa epocha de pré- 
glaciaria. (*) Porém, á medida que os terrenos post-plioce- 

na,f tão bem estudada por d'Ault du Mesnil (Classification ftalèoetho- 
logique de G. de Mortillet, in T^evite de 1'E'cole ctanthropologie — 
1891, pag. 47). Tem muita analogia, industrialmente, com os jazigos 
paleolithicos'dos arredores de Rouen, pesquizados ultimamente por 
d'Ault du Mesnil e Capitan (Bulletins de la Société d'cA}tthroftolooie de 
'Paris, n.° 6, i5 de julho de 1893, pag. 304 — sessão de 18 de maio). 
N'uma communicação, feita este anno na mesma Sociedade, (Idem, 
pag. 274 — sessão de 4 de maio,) sobre o paleolithico de S. Isidro, o 
barão de Baye apresenta bem caracterisada a epocha mousteriana e a 
sua transição da chelleana, n'aquella estação hespanhola. Ao apreciar 
essa communicação, G. de Mortillet fez sobresahir a importância dos 
instrumentos ckelleanos, talhados em seixos de quartzite que etle iden- 
tificou com os do valle do Garonna, nos Pyrineus(pag. 285) e dos quaes 
encontrei também um specimen em Campolide, como acima ficou 
descripto. 

Portanto houve na civilisação paleolithica da Península Ibérica as 
três epochas — chelleana, acheulleana e mousteriana — o que a liga com 
o resto da Europa quaternária. 

( 1 ) Le ftrúhislorique, pag. i3o. 



IO REVISTA DE SCIENC1AS 



nos vão sendo melhor estudados, tanto na Europa como 
na America, a theoria de vários períodos glaciarios a cada 
um dos quaes se succederia um clima próprio para o desen- 
volvimento d'uma phase civilisadora da humanidade, tem 
ganho campo na Geologia e na Prehistoria. O illustre pa- 
leoethnologista francez Marcellin Boule, modificando, segun- 
do o estado actual da Prehistoria, a classificação de Mor- 
tillet, apresenta no seu Quadro do synchronismo dos terre- 
nos quaternários, (/) a epocha chelleana como inter-glaciaria. 

Em Portugal o estudo do quaternário está por fazer, 
tornando-se por consequência difficil qualquer conclusão que 
se queira tirar sobre as condições mesologicas em que exis- 
tiu o nosso homem paleolithico. 

Não deixam, entretanto, de ter bastante interesse al- 
gumas observações feitas pelo snr. Choffat, ao estudar o 
solo de Lisboa ; ( 2 j e talvez que dando-lhes uma outra orien- 
tação ellas concorram para o conhecimento dos phenome- 
nos physicos que caracterisaram o período post-plioceno 
do nosso paiz. 

O snr. Choffat notou nas diversas pedreiras abertas na 
parte meridional da abobada de Lisboa, numerosas falhas 
abertas no cenomaniano calcareo. Estas falhas estão cheias 
de calhaus polidos e estriados, ligados por um cimento cal- 
careo, em geral pouco consistente, dorigem mechanica, por 
vezes muito solido e proveniente de depósitos calcareos. ( s ) 
Esses calhaus são angulosos, não tendo as arestas e as 
faces soffrido qualquer alteração. A superfície destas bre- 
chas e das paredes das falhas mostra-se polida, estriada e 
canelada. Tanto as caneluras como as estrias são geralmente 
horizontaes, formando uma linha recta, algumas vezes ligeira- 



( i ) Essai de paléontologie stratigraphique de Vhómme, in Mate' 
rianx -ponr l historie de Vhomme, 1888. 

( 2 ) Etude géologique du tiinnel du Rocio. 

( 3 ) Ob. cit. } pag. 78. 



Revista de Sciencias Naluraes e Sociaes 



/, ./. I 







INSTRUMENTO CHELLEANO 

DO VALLE DE Al. CANTARA (CAMPOLIDE) 



Revista cíc Sciencicts Ncituraes e Sociaes 



E i. II 



vV 









INSTRUMENTOS PALEOLITHICOS 

DO VALLE DE AeCANTARA (C AMPOEIDe) 

2/ : . da gr. nat. 



NATURAES E SOCIAES I 7 



mente arqueada. A meio, porém, (Testas estrias veem-sc 
alguns feixes de estrias obliquas. 

«Les stries obliques sont en general três courtes ; les 
stries horizontales sont beaucoup plus longues, mais il est 
difficile de les mesurer car elles passent souvent de Tune 
à 1'autre. . . 

«Les sillons ne diffèrent des stries que par les dimen- 
sions; leur largeur est généralment celle du doigt, mais fen 
ai observe un qui mésurait 8 centimètres.» 

Quanto á origem das estrias e dos sulcos, o snr. Chof- 
fat nota mais abaixo : 

«II est souvent facile d'observer V origine et la dêsi- 
nense des stries et des sillons. L'origine est marquée par une 
dépression profonde, souvent un point, paraissant provenir 
de 1'introduction d'un corps dur, probablement de fragments 
de silex que Pon rencontre fréquemment encastrés dans la 
roche.» 

Considerando sobre estas observações, o snr. Choffat 
diz-nos, com o critério d'um excellente observador que sem- 
pre revela em todos os seus trabalhos: 

«La direction horizontal ou faiblement inclinée des 
stries et des sillons est un fait bien remarquable et qui mé- 
rite quelques moments d'attention. 

«Une explication qui se presente tout d'abord à 1'esprit 
est de Tattribuer à une érosion par des eaux acidulées qui 
auraient en même temps produit le poli de la surface, li suf- 
fit d'observer les stries dans la nature pour être persua- 
de que cette hypothèse doit être éliminée.» 

O illustre geólogo, no emtanto, fez uma experiência n'esse 
sentido com um pedaço de calcareo crystallino contendo es- 
trias. O resultado da experiência, havendo corroborado a fal- 
sidade d'essa hypothèse, levou o snr. Choffat á seguinte con- 
clusão : 

«La production des stries et des cannelures horizonta- 
les ne peut donc être expliquée que par des mouvements 

VOL. Ill 2 



l8 REVISTA DE SC1ENC1AS 



horizontaux acompagnés cTune forte pression. La longueur 
d'un mètre que j 'ai constatée pour quelques stries ne dé- 
montre nullement que le mouvement ait eu cette amplitu- 
de, car ces grandes stries peuvent être composées de plu- 
sieurs stries se succedant les unes aux autres. 

«La pression ayant accompagné ces mouvements hori- 
zontaux était tellement forte quVlie a fait entrer des fra- 
gments de silex dans le calcaire crystallin, et que la surface 
des brèches de friction conserve parfois le poli et les stries 
après plusieures années d'exposition aux agents atmosphé- 
riques. 

«L^ge des cassures postérieures à la formation basal- 
tique ne peut pas encore être fixée. EUes sont certaine- 
ment contemporaines de la formation de la vôute, c'est-à- 
dire, postérieures au Miocène qu'elles traversent, et que 
prend du reste part aux ploiements de la vôute.» 

Acima da estação chelleana de Campolide, existe a im- 
portante pedreira do Fernandinho, apresentando uma talha 
com brecha de calhaus polidos e estriados, tendo a super- 
fície canelada e sulcada. 

Estes factos observados pelo snr. Choffat, teem relação 
com um outro por mim notado n'uma propriedade margi- 
nante á estrada de circumvallação, entre a Penitenciaria e 
o Jardim Zoológico. Ahi, mostra-se um terreno arenaceo, 
contendo grande quantidade de burgau. Este burgau é uma 
mistura de calhaus rolados e outros angulosos, apresentan- 
do estes nas faces um bello polido e algumas vezes estrias, 
e mostrando aqueíles a superfície rolada, fortemente crava- 
da de grãos de areia do deposito aonde jaziam. 

Este terreno forma um montículo cuja cota é superior 
á do ponto que determina a pedreira do Fernandinho. (*) 

(*) Na impossibilidade de apresentar perfis e cortes dos diffe- 
rentes terrenos em questão, indico ao leitor as estampas da obra 
precitada do snr. Choffat onde elles se acham, em parte, representados. 



NATURAES E SOC1AHS 



l f ) 



Os seus caracteres mostram que elle foi carreado até ao 
ponto onde hoje assenta, debaixo d'uma pressão tal que 
poliu e riscou o burgau e formou a areia de que elle é com- 
posto. Qual seria pois o vehiculo que o transportaria? Ape- 
nas vejo um : o geleiro. 

Esse terreno representa os restos d'uma moraine, des- 
mantelada pela denudação. 

Foi, pois, a potencia d'um geleiro que formou as allu- 
viões da Penitenciaria e que sulcou, canelou e estriou a su- 
perfície das paredes das falhas e das brechas com calhaus 
polidos e estriados, observados pelo mesmo snr. ÇhofFat. É 
por meio da acção glaciaria que se responde á interrogação 
formulada pelo mesmo senhor acerca do valle d' Alcântara — 
um verdadeiro fjord : — «Como se ha-de explicar este anti- 
go leito de um valle, mais profundo do que o nivei actual 
do mar? (*) 

Essa resposta coaduna-se com a theoria seguida por 
Geikie, Penck, Wrigt e outros glaciaristas, sobre a origem 
glaciaria dos fjords. 

A existência de extensões glaciarias no nosso solo du- 
rante os tempos post-pliocenos não nos deve surprehender. 
Assignalaram-se geleiros em Hespanha, nos Pyreneos, nas 
Astúrias e em Andaluzia. No nosso paiz o mallogrado geó- 
logo Frederico de Vasconcellos, constatara a acção glaciaria 
na Serra da Estrella, n'uma epocha geológica a que elle deu 
o nome de plio-pleistocenica — « voulant par cette désignation 
embrasser la période pliocénique et la période suivante.» (*) 

Partindo do circo do Covão dos Cântaros, F. de Vas- 
concellos seguiu os vestígios do antigo geleiro pelo valle do 
Zêzere, n'uma extensão de 17 kilometros. 

Pelos fins do Plioceno, um geleiro cobria, pois, a abo- 

(*) Passeio geológico de Lisboa a Leiria, pag. 3o. 

( 2 ) Traces d'acl,ions glaciaires dans la Serra a^Eshella, ia. 
Communi cações da Commissão dos trabalhos geológicos de Portugal-— 
Tomo i.°Fasc. 2.% 1887. 



20 REVISTA DE SC1ENC1AS 



bada de Lisboa — no mesmo paralello em que, por essa epo- 
cha, os geleiros da Sierra Nevada e Cascade Range inva- 
diam o solo norte-americano. 

A direcção das estrias notadas pelo snr. Choffat, indi- 
ca a proveniência NNE d'esse geleiro, o que é interes- 
sante por esta direcção ir dar á serra da Estrella e por con- 
cordar com as observações de F. de Vasconcellos sobre o 
geleiro que descia pelo valle do Zêzere para SSO. 

Mais tarde, a extensão glaciaria diminuindo, des- 
obstruiu o valle d'Alcantara, o qual foi percorrido por um 
forte curso d'agua, alimentado pelas aguas provenientes da 
fusão do geb. Nas margens d'esse rio veio depois estabele- 
cer-se a população paleolithica na necessidade talvez de es- 
tender o seu habitat. 

A estação chelleana assente, como disse, no flanco es- 
querdo do valle, tem superiormente a pedreira do Fernan- 
dinho com vestigios da acção glaciaria ; o que mostra que 
esse flanco fora occupado por um geleiro que exercia a sua 
acção erosiva no valle d' Alcântara, anteriormente á forma- 
ção do terraço chelleano de Campolide. Esta conclusão vem 
corroborar a seguinte aífirmativa de Penck: (*) 

« Dans tous les dépôts en connexion stratigraphique 
avec les formations glaciaires, 1'homme n'a été trouvé que 
dans ceux situes au-dessus de celles-ci. D^près la strati- 
graphie, donc, 1'homme serait post-glaciaire.* 

Concluindo, direi também que o homem paleolithico do 
valle d'Alcantara é post-glaciario." 

Mas após essa extensão glaciaria, ter-se-hiam dado 
outras no nosso paiz como se tem verificado na Inglaterra, 
em França, na Allemanha e na America ? Eis o que falta 
provar. 

Esperemos pois que futuros estudos sobre o nosso 



C 1 ) L 'homme à Vépoque glaciaire, in íMatériaux ftonr V histoire 
de 1'homme, 1887, pag. 246. 



NATURAES E SOCIAES 2 1 



quaternário, vindo confirmar o que se acaba de expor n'esta 
simples Nota, nos mostrem também se sim ou não a epo- 
cha chelleana em Portugal é inter-gtaciaria. 



Vianna do Castello. Março de 1892. 



Fonseca Cardoso. 



VARIA 



LABORATÓRIO MARÍTIMO EM AVEIRO 



E' tão vasta a superfície occupada p^las 
aguas em toda a ria d'Aveiro apresentando 
uma profundidade média tão regular, fundo 
d'areia e lodoso e uma velocidade de corrente 
tão fraca, que as condições naturaes d 'este re- 
ceptáculo hydrogaphico, sob o ponto de vista 
das pescas, não se podem exceder, não só pela 
facilidade do emprego dos apparelhos mais effi- 
cazes, como também pela largueza, abrigo e 
comedouro que aqui encontram as espécies que 
entram com a maré e as que derivam da agua 
doce. 

Snr. A. A. Baldaque da Silva — Estado 
actual das pescas em Portugal. 



Se em artigos publicados em outro jornal (*) o auctor d'este trabalho 
tentou demonstrar a importância que, economicamente, merecem os la- 
boratórios de zoologia marítima, e muito de propósito apenas ao de leve 
apontou as vantagens scientificas d'estes estabelecimentos para assim 
fugir ás phrases feitas que andam na bocca de todos, para caracterisar 
a nossa precária situação financeira, não pôde agora hesitar em com- 
pletar o que promettia no seu ultimo trabalho, isto é, estudar o que cus- 
taria a installação de uma Estação d'aquicultura em Aveiro. ( 2 ) 

Com effeito, se se mascara a preguiça no estudo de qualquer assum- 
pto de que se perceba que resulta despeza na execução d'elle com 
phrases como ás más circumstancias do lhesouro ou a inaddiavel ne- 

(i) Vid. Engenheria e Architectura, 1.° anno, n. 0s 2, 3, 4 e 5 ; 2.° 
anno, n. ' 37 a 43. 

( 2 ) Vid. Engenheria e Architectura, 2.° anno, n.° 43, pag. 339, col. l. a 



NATURAES E SOCIAES 2 ] 



cessidade d'accudir ás finanças nacionacs, devem semelhantes phrascs 
e ainda outras ideias que não sejam as inconfessáveis da preguiça, indille- 
rença ou má vontade ser postas de parte em presença do que acima se 
transcreve e que escreveu o snr. Baldaque da Silva n'uma «obra que re- 
presenta, tanto nos traços geraes, como nos mais minuciosos detalhes o 
produeto da observação e estudo directo... durante dez annos em toda a 
costa, portos, rias, rios, lagoas do continente do reino sobre os cetáceos, 
peixes, crustáceos, molluscos e algas que vivem n'estas aguas e os ap- 
parelhos, embarcações e processos de exploração empregados na pes- 
ca.» (*) 

Demais não seria Portugal que daria o exemplo de se abalançar 
á creação dum laboratório de zoologia marítima durante uma crise 
afflictiva na vida da nação, pois que «foi em seguida aos nossos desastres, 
escreve o snr. de Lacaze-Duthiers, que se creou a primeira das duas 
estações (Roscoff e Banyuls) e com tanta modéstia que hoje, quem se 
refira aos primeiros tempos de Roscoff, admira-se justificadamente que 
tão pouco bastasse para satisfazer».. ( 2 ) 

Quando, porém, a construcção da Estação d'aquicultura d'Aveiro 
fosse susceptível de eífectuar-se apenas com recursos tirados da região 
que mais immediatamente lucraria com este estabelecimento, não deve- 
ria hesitar-se em estudar, sob tal ponto de vista, um estabelecimento 
modesto, mas com as installaçóes indispensáveis para que não só a pis- 
cicultura e a zoologia entrassem num caminho experimental, como ain- 
da se chamasse a attenção dos naturalistas para as questões de chimica, 
physica, geologia e botânica cuja resultante é favorável ao desenvolvi- 
mento de certas espécies piscicolas e não só contraria mas ainda fatal 
ás tentativas de acelimação d'outras. 

Demais o snr. Rocha Peixoto, primeiramente, e depois o snr. Augus- 
to Nobre também vieram tomar parte n'este assumpto e o primeiro con- 
cluiu pela edificação de uma Estação aquicola em Aveiro ( 3 ; vindo assim 
mostrar ao auetor d'este trabalho que não se illudiu quando em 1891 es- 
creveu nã'Engenheria e zArchitectura uma série d'artigos em que con- 
cluía propondo para Aveiro um estabelecimento d'aquella natureza. ( 4 ) 
O segundo, embora reconheça que a ria d'Aveiro tem uma importan- 



(i) Vid. Baldaque da Silva — Estado actual das pescas em Portugal 
pag. xxr. 

(2) Vid. H. de Lacaze-Duthiers — Archives de zoologie expérimentale 
et générah. 2. mc série, T. IX, 1891. Les Laboratoires Maritimes de Roscoff et 
de Banyuls en 4891, pag. 256. 

( 3 ) Vid. Rocha Peixoto — Estações d' aquicultura, pag. 12. 

( 4 ) Vid. Engenheria e Architeclura, 1.° anno, pag. 17. 



24 REVISTA DE SC1ENC1AS 



cia aquicola que oííerece vantagens excepcionaes (*) propõe o rio Leça, 
nas proximidades da povoação d'aquelle nome para sede de uma estação 
d'aquicultura. ( 2 j Em principio não infirma pois o snr. Nobre a Estação 
ou laboratório daquicultura d 1 Aveiro; mas, por mais gratas que sejam 
ao auctor d'este trabalho as recordações que tem do rio Leça e suas 
margens, onde passou não poucas horas descuidosas e felizes da sua mo- 
cidade, não pôde deixar de concordar com o que o snr. Baldaque da Silva 
escreveu acerca d'este rio que classifica entre os de «importância secun- 
daria que se prestam em pequena escala á pesca profissional em deter- 
minadas occasiões e que são procurados pelos amadores para passatem- 
po recreativo e hygienico». ( 3 ) 

De facto, o snr. Baldaque da Silva affirma que o leito do Leça 
«está muito obstruido» ( 4 ) e que as aguas d'elle possuem algumas es- 
pécies d'agua doce muito procuradas pelos amadores da pesca á 
canna». ( 5 ) 

Ainda o snr. Baldaque da Silva vem confirmar a pouca impor- 
tância, sob o ponto de vista das pescarias, do Leça, declarando que os 
pescadores do porto de Leça e Mathosinhos sobem o rio Douro na epo- 
cha da pesca fluvial para se dedicarem a esta exploração» ( 6 ) e no pri- 
meiro mappa que dá para este porto conta-se uma lancha para a pesca 
do alto e 3y barcos para a pesca costeira, tudo tripulado por 171 pes- 
soas. ( 7 ) 

Para a pesca maritima na região d' Aveiro, o snr. Baldaque da Silva, 
além dos 12 barcos que conta na Torreira, servidos por 45o pessoas ; 
( 8 ) dos 4 barcos com i5o pessoas da costa de S. Jacintho ; ( 9 ) das 600 
pessoas que também em i885 e 1886 contou para os 16 barcos da Costa 
Nova do Prado, ( 10 ) dos 200 indivíduos empregados nas 2 companhas 
da Gosta do Arião ( 41 ) e das 35o pessoas que compõem as 5 companhas 
da Costa de Mira ( 42 ) onde em todas estas localidades se exerce a pesca 

(i) Vid. Augusto Nobre— Contribuições para a aquicultura no norte 
âe Portugal, pag. 5. 

(2) Vid. Augusto Nobre — Ob. cit. pag. 22. 

( 3 ) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 14. 

( 4 ) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 15. 
(*) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 15. 
(6) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 106. 
<7) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 106. 
(8) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. llá. 

♦ *{9j Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 115. 
(10) vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 118. 
(ii) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 118. 
{42j Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 118. 



NATURAES E S0C1AES 



25 



costeira ainda diz o seguinte com relação á ria : «Em toda esta extensa 
ria, que comprehende a bacia littoral do Vouga, é muito importante a 
pesca das espécies que n'ella entram, provenientes do mar e das que 
nascem e se desenvolvem n'este receptáculo salgado. 

«Durante o inverno é que a pesca na ria d'Aveiro attinge o máxi- 
mo interesse ainda que ella também se exerça durante o resto do anno 
em menor escala»». (*) 

Posto que o rendimento da pesca fluvial seja nullo no rio Leça e 
attinja, em média, mais de 45 contos de réis annuaes na ria d' Aveiro, como 
adeante se demonstrará, poderemos ainda, collocando-nos n'uma po- 
sição desfavorável, comparar a pesca costeira no porto de Leça e Ma- 
thosinhos com a pesca da ria, pesca essencialmente fluvial, portanto. 
Lançando mão, para esse effeito, dos valores contidos no livro do snr. 
Baldaque da Silva para o porto de Leça e Mathosinhos e obtidos «com 
alguma approximação dos mappas alfandegários da cobrança do im- 
posto nos postos fiscaes d'Aveiro, Ílhavo, Ovar e Pardelhas») forma-se 
o quadro seguinte : 



ANNOS 



i885 
1886 



VALOR DO PESCADO ENTRADO EM 

Porto de Leça e Mathosinhos Praças da ria dÀToirj 

(Pesca costeira e do alto) (Pesca fluvial) 



42:304^980 
42:65o^o8o 



35:o25#68o 
33:764^060 



DIFFERENÇAS 



7:279^300 

8:886^020 



PERCENTAGENS 



20,78 
26,3l 



Se se deduzir porém ao valor apontado para o pescado de Leça 
e Mathosinhos as quantias de 1 39$38o e 3:846 #420 ( 2 ) que renderam res- 
pectivamente em i885 e 1886 os mexoalhos, por isso que não se entra 
em linha de conta para a ria d'Aveiro com as quantias provenientes da 
venda de moliços e escassos, cujas praças mais importantes são Ovar, 
Estarreja, Boco e Arião, reduzem-se as differenças e percentagens a 
7:1391920 e 20,38 para i885 e a 5:o39#6oo e 14,92 para 1886. 

O snr. tenente da armada Francisco Augusto da Fonseca Regalia 



(*) Vid. Baldaque da Silva— Ob. êit. pag. 115. 

( 2 ) Tanto as quantias que compõem os valores do quadro como as do 
valor do mexoalho são extrahidas de pags. 106 e 116 da obra do snr. Baldaque 
da Silva. 



REVISTA DE SC1ENCIAS 



calculou, pela média dos valores de 3o annos dos impostos cobrados nas 
praças de Pardeihas, Aveiro e Ílhavo, e suppostos para a praça d'Ovar, 
o valor annual do peixe da ria, exposto á venda, em 35:049^402 reis, 
o que se approxima da importância dada pelo snr. Baldaque da Silva 
para iS85; mas, accrescenta o snr. Regalia: 

«Esta quantia representa o valor do peixe exposto á venda, segun- 
do os documentos officiaes, que andam muito longe da verdade. Por 
um lado representam apenas o rendimento coilectavel nos mercados 
em que ha fiscalisação e que não são os únicos logares de venda. 
Ha praças, ainda, em Pardilhó e Vagos, de alguma importância e 
vende-se peixe em todas as povoações ribeirinhas das vinte e cinco fre- 
guezias marginaes. Ha a tolerância de um terço a titulo das caldeira- 
das, mas é preciso notar que o peixe que o pescador destina para esse 
fim não vem ao mercado e portanto a tolerância verdadeira é pelo me- 
nos o dobro da official. 

«Por outro lado devemos contar com o peixe que nos próprios 
logares aonde ha fiscalisação escapa ao imposto. Todos sabem que a 
cobrança melhorou, o que não quer dizer que seja perfeita nem que a to- 
talidade das quantias cobradas entre nos cofres do estado. Assim, se ao 
valor do peixe exposto á venda, acima indicado, accrescentarmos mais 
um terço, teremos a quantia de 46:732 $536 réis, que representará appro- 
ximadamente o valor do peixe pescado na ria em cada anno». ( i ) 

Do que fica exposto facilmente se conclue, portanto que, além 
da pesca costeira, exercida desde a Torreira até a Costa de Mira que 
segundo o snr. Baldaque da Silva rendeu 1 5:447^900 réis em i885 e 
98: 5 10$ 180 em 1886, ária d' Aveiro, em média, rende tanto em peixe como 
o porto de Leça e Mathosinhos, accrescendo também que o mesmo snr. 
Baldaque da Silva falia na pesca que se exerce nas lagoas conhecidas pe- 
los nomes de pateiras de Fermentellos e Frossos e não allude á pesca no 
rio Vouga e seus affluentes que constituem uma bacia hydrographica 
de mais de 3:535 kilometros quadrados, emquanto que o Leça conta 35 
kilometros de extensão, isto é, menos de um terço de comprimento do 
Vouga, em que 42 kilometros são navegáveis. (2) 

Pôde concluir-se portanto que, sob o ponto de vista económico no 
norte do paiz, é Aveiro que se impõe na creação de uma Estação aqui- 
cola. De facto o snr. Rocha Peixoto abertamente se pronuncia a favor 
d'ella ; o snr. Fonseca Regalia, como já houve occasião de demonstrar- 
se ( 3 ) e o snr. J. G. Correia, distincto professor na Escola Naval, mos- 

(i) Vid. Fonseca Regalia — A ria d 1 Aveiro e as suas industrias, pag. 42 
(2) Vid- Baldaque da Silva — Ob. cit. pags. 105, 118, 117, 15 e 10. 
( 3 j Vid. Engenlieria e A>'chiteclura — vol. I. Dag. 27. 



NATURAES E S0C1AES 27 



tram, aquelle a necessidade de crear uma piscina ou viveiro modelo 
em Aveiro ( 4 ) e este de se fazerem em Portugal estudos idênticos aos de 
Yarrell, Buckland, Sauvage, Marion e outros sábios estrangeiros. (2j O 
snr. Baldaque da Silva, como acima se viu, põe em evidencia as 
condições de primeira ordem d'esta bacia hydrographica e o snr. Nobre 
reconhece a importância piscícola d'esta região. 

Não pôde, conseguintemente, haver a menor duvida de que, ao 
crearem-se estabelecimentos aquicolas no paiz, deve em Aveiro fundar- 
se o primeiro. Ora a necessidade dos laboratórios marítimos impõe- 
se ( á ) como em publicação recente, muito bem o affirma o snr. Alberto 
Velloso d'Araujo, distincto alumno do Instituto d' Agronomia e Vete- 
rinária, que justifica o seu dito indicando rapidamente o muito que se 
deve a taes estabelecimentos. 

Ainda com risco de se evidenciar immodestamente, chamando a 
attenção do publico para o livro do snr. Velloso d 'Araújo, não pôde o 
auctor d'este trabalho deixar de transcrever alguns trechos do que se lê 
n'aquella obra. 

«Todos sabem que houve tempo em que se julgava o mar deshabi- 
tado nas grandes profundidades. Faltavam explorações e apparelhos pró- 
prios para se firmar uma opinião segura. Foi em 1826 que Audouin e 
H. Milne-Edwards emprehenderam as primeiras pesquizas methodi- 
cas sobre a fauna maritima. Em i83i, Mr. de Quatrefages continuou 
esse trabalho. Em 1844. MM. Milne-Edwards, de Quatrefages e Emile 
Blanchard, em missão á Suissa, dotaram a sciencia de uma messe fera- 
cissima de factos novos. Ahi Milne-Edwards fez uso pela primeira 
vez do escaphandro. Ha mais de 35 annos que Mr. de Lacaze-Duthiers 
explora o littoral do Oceano e do Mediterrâneo, visitando as costas de 
França, Hespanha, das ilhas Baleares, da Algéria e da Tunísia, enri- 
quecendo a sciencia com importantes memorias. 

Este notável naturalista concentrou os seus esforços no laborató- 
rio marítimo de Roscoff, nas costas da Bretanha. Depois creou a esta- 
ção maritima de Banyuls, no Mediterrâneo. Em 1R78, a cidade de Mar- 
selha reconheceu a importância capital dos laboratórios de zoologia ma- 
ritima; d'ahi a amplificação do estabelecimento d'este género da Facul- 
dade de Sciencias, transferindo-o para Endoume. O seu director é Mr. 
Marion, distincto professor da Faculdade de Sciencias e membro do 
Instituto. O programma traçado por este eminente homem de sciencia, 
relativamente a esta installação,;divide-se em três partes : i.° O pro- 

(*) Vid. Fonseca Repalla — Ob. cit. pag. 66. 

( 2 ) Vid. J. C. Carreia — Policia da exploração das aguas, pag. 187. 

( 3 ) Vid. A. Vellozo d'Araujo — ttsbóços agrícolas, pag. 146. 



28 REVISTA DE SCIENCIAS 



gresso do ensino, fornecendo o estabelecimento os materiaes indispen- 
sáveis á instrucção dos académicos, conferencias elementares de histo- 
ria natural aos professores de Marselha admittindo se o publico á gran- 
de sala dos aquários; 2. Dotar a sciencia franceza e a cidade de Mar- 
selha d'um importante laboratório maritimo, para a solução das nume- 
rosas questões que tanto enriquecem a sciencia pura ; 3.° Aproveitar as 
pesquizas da sciencia pura aos multíplices trabalhos de zoologia appli- 
cada. 

Na sessão da Academia das sciencias de Pariz, de 20 d' abril de 1891, 
Mr. de Lacaze-Duthiers referiu a excursão zoológica, realisada pelo cur- 
so da Sorbonne, ao laboratório de Banyuls. Os discípulos, em numero de 
quarenta e cinco, tomaram parte nas pescas ao chalut e com os engenhos 
dos pescadores de coraes, nas costas da França, da Allemanha e da 
Hespanha. Recolheram preciosos exemplares de coral, de amphio- 
xus, de brachyopodes e de comatulas. Assistiram no laboratório á pos- 
tura das sibas, ao nascimento das pentacrinas e a uma multidão dou- 
tros phenomenos que muitos encanecidos na sciencia nunca viram. 

Ao terminar a sua communicação, o eminente professor emittiu o 
voto que o laboratório Arago fosse em breve dotado de uma chalupa a 
vapor munida de dragas. N'este laboratório é notável a vastidão e a mul- 
tiplicação de aquários ; devido a um jacto de agua de três metros em que 
ella se aerifica muito bem, o meio é absolutamente favorável á conser- 
vação e reproducção dos mais diversos animaes. Mr. de Lacaze-Duthiers 
pretende fazer d'este estabelecimento uma eschola prática de piscicul- 
tura e de ostreicultura. N'estas palavras fica bem expresso o valor dos 
laboratórios marítimos. Nós não temos nada d'isto; temos, sim, o estu- 
do theorico, improfícuo, aborrecido das sciencias naturaes. E o vicio 
da instrucção portugueza começa bem cedo, jános.lyceusonde se fatiga 
extraordinária e esterilmente a memoria do estudante, sem se curar do 
desenvolvimento da intelligencia. (*) 



«Em Coimbra ha alguns aquários; vemos alli representantes de 
numerosas classes de animaes ; infelizmente as diffículdades na sua con- 
servação e manutenção são numerosas. Os laboratórios de zoologia ma- 
rítima vinham assim preencher uma grande lacuna. Desenvolveriam o 
gosto pelas sciencias naturaes, educariam o espirito de observação e 
aperfeiçoariam o ensino, dando-lhe um caracter verdadeiramente prá- 
tico. ( s ) 

(») Vid. A. Vellozo d'Araujo— Ob. ciL, 146. 

( 2 ) Vid. A. Vellozo d'Araujo — Ob. cif., pag. 149. 



NATURAES E SOC1AES 2Q 



«Se é certo, porém, que «nunca se inutilisa almasso por confirmar 
as verdades adquiridas» (*), como diz José Sampaio n'um seu recente 
livro, opportuno será consignar aqui mais alguns factos do que os que 
n'outra parte se expenderam com relação a este assumpto e portanto 
ainda do trabalho do snr. Velloso d'Araujo se transcreverá o que em 
sessão de 8 de janeiro de 1878 disse o fallecido deputado Pires de Lima, 
ao apresentar um projecto de lei para regulamentar a pesca na ria d'Avei- 
ro: «Em meu parecer é necessário que na ria d'Aveiro haja um homem 
de conhecimentos especiaes de piscicultura que com a palavra e com os 
factos ensine os pescadores.» ( 2 ) 

Ainda o mesmo deputado, no artigo 8.° do referido projecto de lei, 
demonstra a necessidade dos estudos da piscicultura experimental, por 
quanto o mencionado artigo é do theor seguinte : «Ao commissario in- 
cumbe também promover a melhor exploração da riqueza da ria, esta- 
belecendo nos pontos d'ella, que julgar mais adequados, uma ou mais 
piscinas modelos, novos bancos d'ostras e parques d'engorda e procu- 
rando introduzir e vulgarisar os mais aperfeiçoados systemas d'esta im- 
portante industria.» ( 3 ) 

Em 4 de abril d'aquelle anno era presente á Gamara o parecer 
elaborado em 25 do mez anterior pela commissão encarregada de es- 
tudar o projecto Pires de Lima. N' esse documento, além de se eviden- 
ciar a necessidade de proseguir nos ainda não acabados trabalhos topo. 
graphicos da ria e na nomeação dum commissionado do governo para 
os estudos da piscicultura no estrangeiro e na urgência de policiar a ria 
escreve-se o seguinte : «E' fora de duvida que a ria d'Aveiro está em 
condições notavelmente excepcionaes para poder ser, não só um grande 
centro de producção piscatória, abastecer de peixe os nossos mercados 
e exportar mesmo para o estrangeiro alguns dos seus saborosos e tão 
apreciados produetos, mas ainda parece destinada pela natureza variada 
das suas aguas, do seu fundo e das suas margens a ser, escola prática de 
piscicultura no nosso paiz que tem n'este género tantas riquezas aban- 
donadas. A sua grande massa d'agua, que se estende desde Ovar até ás 
proximidades de Mira, forma uma lagoa de cerca de quarenta e cinco 
kilometros de comprimento, na qual se vão lançar os rios Vouga e 
Águeda, além d'outros ribeiros ; esta circumstancia determina necessa- 
riamente uma grande diversidade de profundidades na ria e de mistura 
d'agua doce com agua do mar, o que a torna particularmente própria 



(*) Vid. Bruno — Notas do exílio, pag. 197. 

( 2 ) Vid. A. Vellozo dAraujo — Ob. cit., pag. 121. 

( 3 j Vid. A. Vellozo d'Ara'ijo — Ob. cit., pag. 124. 



30 REVISTA DE SCIENCIAS 



para a acclimaçao e producção de grande numero de espécies de peixes 
e mariscos.» (') 

Como prova ainda de que já de ha muito se devia fazer piscicul- 
tura em Portugal e cumpriria que estivesse regulado este importante 
ramo da actividade humana conhecido pelo nome de industria de pesca, 
ainda no livro do snr. Vellozo se encontram duas interessantes noticias 
extrahidas do zArchivo 'Rural. A primeira refere-se a uma carta do snr. 
dr. Gaspar Gomes., que foi inserta no tomo referente ao anno de 1859 e 
onde se relatam experiências por aquelle professor effectuadase empre- 
hendidas na Quinta de Bemposta. «Para demonstração da creação e fe- 
cundação dos peixes, escreve o snr. dr. Gomes, espero os apparelhos do 
Collegio de França de Mr. Goste que o nosso amigo e collega dr. Bo- 
cage se encarregou de me remetter de Paris.» ( 2 ) A outra é extrahida 
do tomo de i858 em que o fallecido agrónomo Moraes Soares, expoz 
um projecto de lei que justifica em artigos relativos a pescarias e pisci- 
cultura. No § 1 .° do artigo 3.° d'aquelle projecto cria dois logares de 
engenheiros ichtyologicos, cujas attribuições não determina, mas que de- 
viam certamente realisar os encargos que, pelo artigo 12. d'aquelle pro- 
jecto, ficavam sendo da competência do Governo para que se conseguis- 
sem os fins designados no mesmo artigo que, infelizmente, passados mais 
de trinta e quatro annos, ainda na sua maior parte são lettra morta no 
nosso paiz, como se poderá verificar comparando o que existe com o 
que então se escreveu. De facto Moraes Soares tinha em vista: 

«i.° Collocar a industria da pesca debaixo da tutela de uma aucto- 
ridade protectora e benéfica, libertando-a da enorme usura que a oppri- 
me, instruindo-a, moralisandc-a e soccorrendo-a nas suas frequentes e 
variadas necessidades. 

2. Melhorar as condições das pescarias estudando os portos, le- 
vantando as cartas hydrogaphicas da costa, aperfeiçoando os instrumen- 
tos de pesca e ensinando os mais convenientes processos de preparação 
do peixe. 

3.° Introduzir e vulgarisar os melhores methodos de piscicultura, 
afim de povoar os nossos lagos e rios das mais estimadas espécies de 
peixes. 

4. Preparar os elementos para a organisação do quadro descriptivo 
e scientifico de todas as espécies ichtyologicas da nossa costa maritima, 
lagos e rios. 

5.° Estudar as condições naturaes e económicas das salinas do 



(*) Vid. A. Vellozo d'Araujo — Ob. cit., pag. 126. 
( 2 ) Vid. A. Vellozo d'Araujo — Ob. cit., pag. 206. 



NATURAES E S0C1AES 31 



paiz e de todas as industrias extractivas, que immediatamente se deri- 
vem da industria da pesca. 

6.° Codificar as disposições da nossa legislação e subsidiariamente 
a dos paizes estrangeiros mais civilisados, tendentes a regular o direito 
de pesca no mar, nas aguas dormentes e nos rios e a reprimir os abusos 
que se praticam pelo envenenamento das aguas e pelo emprego das re- 
des, apparelhos e instrumentos que destroem a creação dos peixes. 

7. Publicar, finalmente, todos os annos os documentos necessários 
para se reconhecer o estado das nossas pescarias, dos seus progressos e 
das suas necessidades.» 

De boa fé ninguém poderá dizer que até hoje se tenha satisfacto- 
riamente realisado qualquer das obrigações que o projecto impunha ao 
Governo pois que, a não ser o «Estado actual das pescas em 'Portugal» 
do snr. Baldaque da Silva, a cuja elaboração não presidiu, decerto, se- 
não o intento de dar a conhecer, de um modo bem documentado, o que 
o titulo do livro, de sobra, evidencia, exceptuando ainda a exposição do 
estado da ria d' Aveiro, no relatório elaborado pelo snr. Fonseca Re- 
galia, em cuja leitura muito ha que aproveitar, embora muitas das con- 
sequências d'aquelle trabalho não se amoldem aos factos apontados, con- 
tando ainda com o livro do distincto professor snr. J. C. Correia «Poli~ 
cia da exploração das aguas» que constitue um trabalho de primeira 
ordem e indicando o «Curso de piscicultura prática» do jornalista F. 
de Vilhena que deixou incompleta uma publicação de incontestada 
utilidade, nada de prático tem officiaimente apparecido no nosso paiz, 
quer para melhorar economicamente a industria da pesca, quer para a 
estudar scientificamente e d'ahi deduzir as condições legaes em que ella 
pôde e deve ser exercida. 

Como prova da carência de elementos scientificos para regular a 
industria da pesca em Portugal bastará citar, entre outros, o relatório 
do snr. official d'armada Andrade de Souza em que se lê o- seguinte: «A 
maior difficuldade com que luctei na confecção d'este trabalho foi a 
ignorância dos pescadores quanto á vida de certas espécies de peixes, 
especialmente no tocante á epocha e local da desova» (*) e mais adean- 
te «em geral as informações (com respeito aos instinctos, vida e habito 
dos peixes) eram deficientes e por vezes contradictorias.» ( 2 ) Ainda em 
apoio das dificuldades nos estudos da industria da pesca em Portugal 
escreveu o snr. J. da Cnnha Lima, quando capitão do porto de Cami- 
nha : «de difficil tarefa foi encarregado pois, em virtude dos conheci- 

(i) Relatórios sobre pesca marilima — Relatório da Capitania do por- 
to de Vianna do Castdlo, de 22 d'agosto de 1889, pag. 22. 

(2) Vid. Relatórios sobre pesca marítima — Relatório cit., pag. 38. 



32 REVISTA DE SCIENC1AS 



mentos que eu tinha sobre o assumpto de que vou tractar e sem nenhu- 
ma ajuda dos pescadores, vi-me obrigado a procurar em tratados espe- 
ciaes, principalmente inglezes, esses conhecimentos que me faltavam, e 
visitando este rio, estudando-o e comparando-o com os seus congéne- 
res da Inglaterra, habilitar-me, por este meio, a responder o melhor 
que me fosse possivel aos quesitos apresentados por v. ex. a » (*) Também 
o snr. Accacio Soares Couceiro, delegado maritimo na Povoa de Var- 
zim se queixava, em 24 d'agosto de 1889, da falta de dados scientificos 
para responder a um questionário relativo á industria da pesca. ( 2 ) No 
relatório intitulado c/l ria d'oAveiro e as suas industrias, escreveu o 
snr. Fonseca Regalia. «Ao intentarmos este trabalho (o estudo da fauna 
da ria) não julgamos encontrar uma tal ignorância. Debalde, porém, pro- 
curámos os dados precisos. Só de uma ou d'outra espécie obtivemos 
informações e essas geralmente muito confusas e deficientes. Consulta, 
mos os pescadores d' Aveiro, os d^lhavo, os da Murtosa, mas nem mes- 
mo com relação ao numero de espécies e aos nomes dalgumas eram 
claros e concordes.» Como complemento, porque constitue um pro- 
gramma quasi completo das investigações scientificas, é indispensável 
trancrever-se o que publicou o snr. J. Cândido Correia, já acima refe- 
rido. «Para tratar entre nós, scientificamente, a questão, faltam-nos in- 
vestigações necessárias que lancem luz sobre as condições e necessidade 
da pesca. Estas observações deveriam dirigir-se sobre : 

«A direcção do vento 

«O estado do tempo 

«A temperatura 

«O nome da paragem da pesca 

« A profundidade da agua 

«A natureza do fundo 

«A direcção da maré 

«A qualidade do peixe, etc. 

«As analyses devem dirigir-se sobre os estômagos, ovas, ovos etc. 

«Debaixo d'este ponto as informações dadas peios pescadores não 
teem valor algum. N'elles só domina o desejo de capturar as espécies; 
as condições da sua conservação e procreação são pontos muito secun- 
dários a que não attendem.» ( 3 j 



(1) Vid. Relatórios cit.— - Relatório da Capitania do porto de Caminha 
de 26 de setembro de 1889, pag. 5. 

( 2 ) Vid. RdoLlorios cit.— Relitorio da Delegação marítima na Povoa 
de Varzim, pag. 57. 

(3) Vid. J. C. Correia — Policia, da exploração das aguas. Piologo, 
pag. VI. 



NATURAES E SOCÍAES 33 



Se, porem, o governo não tomou a seu cargo resolver as questões 
de piscicultura e industria da pesca, que, desde i858, lhe eram indicadas, 
não suecedeu o mesmo com a iniciativa particular. 

É certo que apenas uma isolada tentativa individual se deu entre nós, 
mas tão profícuos foram os resultados delia retirados que por si conta 
mais do que muitas das grandes emprezas do nosso paiz. Foi devida ao 
medico snr. Abel da Silva Ribeiro que em 1 885 escrevia o seguinte a tal 
respeito : «Foram os primeiros ensaios feitos em Portugal e talvez na 
Europa em espécies d'agua salgada, muito imperfeitos e sem luz algu- 
ma que me guiasse, porque os trabalhos especiaes apenas tractam de pis- 
cicultura das espécies d'agua doce; mas, apezar de ser uma coisa intei- 
ramente nova para mim e de adoptar um methodo muito imperfeito, o 
resultado excedeu a minha expectativa. Apenas houve uma perda de ovos 
de 4 a 5 p. c. que não fecundaram. Decorridas algumas semanas estive- 
ram dois homens deitando ao mar baldes e baldes não d'agua mas litte- 
ralmente de peixes, durante dois dias. Já a esse tempo os pequeninos 
peixes podiam fugir á voracidade dos maiores; e tanta foi a abundância 
d'elles que, passados mais de oito annos, ainda hoje n'aquelle sitio se 
encontra prodigiosa quantidade de peixe, pois sendo de espécies esta- 
cionarias se tem conservado alli. (*) 

«Ha dois annos mandei eu faz?r uma pescaria cercando uma pe- 
quena bahia ou recanto do rio junto ao mar; isto na cecasião da maré 
cheia e na vasante colhemos mais de quarenta arrobas de peixe. 

«Fiz mais dois ensaios com a mesma felicidade... Empreguei altas 
diligencias para que fosse convertido em lei o projecto que o meu mal- 
logrado amigo dr. Pires de Lima apresentou sobre o assumpto na Ca- 
mará dos deputados. Desejava eu ir para Aveiro ensaiar em grande o meu 
methodo. . . 

«Era uma industria nova no aperfeiçomento da qual eu empenha- 
ria o meu pouco saber mais toda a actividade e a exuberância de vida 
com que a natureza me dotou. Nada, porém, consegui e num excesso de 
indignação lancei ao fogo todos os manuscriptos, que já tinha org&nisa- 
do sobre piscicultura e que me custaram dias e dias de grande trabalho, 
fadigas do corpo, zangas, motejos da multidão ignara e por fim o des- 
prezo de quem tinha obrigação de olhar mais seriamente pelo futuro de 
Portugal.» (2) 

Com incontestada auetoridade de quem aos piscicultores que o ba- 

(i) snr. dr. Ribeiro eflectuou os seus ensaios piscicoias com as 
espécies conhecidas Milgarmente pelos nomes de roballo, tainha, dourada 
e linguado. (Vid. Esboços Aancolis, já cit. pag. 111). 

[*) Vid. A. Veilozo (Í-Araujo— Ob. cit. pag. 114 e seg. 
vol. 111 



34 REVISTA DE SClENClAS 



fejo official agora creasse poderia dizer nosfuimus in Garlandia como 
outr'ora o faziam aquelles que «ao fim d'annos em Roma, em Jerusa- 
lém, nos tribunaes como magistrados, nas cortes e até nos campos da 
batalha» (*) recordavam os tempos saudosos da frequência na Sorbon- 
ne, com o incontroverso valor de quem estudou por si e aprendeu á 
sua custa, em summa «com um saber só d'expcriencias feito» o snr. dr. 
Abel da Silva Ribeiro veio evidenciar também a importância piscícola 
da ria d'Aveiro e portanto demonstrar ao auctor d'este trabalho que é 
justificada a ideia que advoga perante o publico desde 1891 e de que, de 
resto, não tem que envaidecer-se, por isso que é a ria d'Aveiro que no 
paiz não só dá maior pezo, mas ainda o maior resultado monetário na 
pesca interior. De facto a ria d'Aveiro, segundo o snr. Baldaque da Silva, 
em 1886, produziu 556:700 kilogrammas de peixe, emquanto que todo o 
departamento maritimo do centro, comprehendendo portanto as lagoas 
de Óbidos, Melides e Santo André e rios Tejo, Sado e Mira deu 512*090 
kilogrammas de peixe. No departamento do sul em que se contam as 
rias de Tavira, Faro e Olhão e os rios Guadiana, Portimão e Alvor pes- 
caram-se 178:800 kilos de peixe avaliados em i2:56o$ooo reis. O valor 
do pescado, em 1886, na ria d'Aveiro é calculado pelo snr. Baldaque da 
Silva em 38:969^420 reis e para o departamento maritimo do centro em 
40:957^000 reis. ( 2 ) 



(*) Vid. Theophilo Braga— Ai modernas ideias na litteratura portu- 
gueza, vol. 11, pag. 96. 

( 2 ) Vid. Baldaque da Silva— Ob. cit. pag. 421. 



Felizmente que as explicações áoi homens 
ainda os mais eminentes se mostram impo- 
tentes quando se encontram em opposiçào com 
a voz, isempta de preconceitos das experiên- 
cias solidamente estabelecidas. 

J. Moleschott— J. circulação da vida, 18. *• 
carta. 



II 



Longe vae o tempo em que o antigo commissario da marinha 
franceza J. B. A. Rimbaud se pronunciava contra a piscicultura, come- 
çando por escrever em tom que não admittia réplica : «a sciencia mallo- 
grou-se na difficuldade de apoderar-se e dominar o que chamarei a cli- 
matologia do mar» ( x ) e terminando, por este libello acusatório, «a aqui- 
cultura éuma frivola invenção que ameaça tornar-se n'um infortúnio.» ( 2 ) 

Nem uma só oçcasião perdeu aquelle auctor nas 337 paginas do 
in-8.° que dedicou á industria das aguas salgadas para atacar a sciencia 
que então dava os primeiros passos e portanto a cada instante defron- 
tava com dificuldades novas, novos problemas que se lhe antolhavam 
insolúveis, e, na viveza dos seus ataques, perdendo a frieza que é o ca- 
racterístico de todo o problema scientificamente tractado, chega a es- 
crever: «quanto ás causas de mortalidade que destroem os nove déci- 
mos da população de certas aguas sabe-se quem as provoca '? São os pis- 

C 1 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— 1'industrie des eaux salées. (1869) pag. 67. 
( 2 j Vid. J. B. A. Rímbaud-0&. cit., pag. 337. 



36 REVISTA DE SCIENC1AS 



cicultores e não a natureza» ( l ) ou ainda (*a aquicultura não passa de 
uma hypothese» ( 2 ) «d'uma esperança vã, senão d'uma illusão» ( 3 ) que 
«fez até hoje mais barulho do que beneficio» ( 4 ) com experiências re- 
provadas pelo bom senso (?) e que não poderiam ter logar senão a des- 
peito do interesse publico.» ( 5 ) 

Mudando de tom e pondo de parte phrases dogmáticas, como 
as que acabam de ler- se, escreve «não gostamos d'ella (da piscicul- 
tura) porque, nascida basofienta, compara a sua importância á da 
agricultura» ( 6 ) ; «em aquicultura não ha uma só operação que não 
tenha o aspecto de um rapto» ( 7 ) e num tom faceto dum gosto 
duvidoso e impróprio d'um problema scientifico : «quanto aos chine- 
zes o que d'elles chega ao nosso conhecimento atravessando os ma- 
res, bem poderia não ser mais veridico do que o que nos vem dos ro- 
manos, atravez das obscuridades da historia dos tempos antigos. Na 
verdade, porém, não nos admirariamos se n'essas regiões dAsia, em que 
tudo se faz ás avessas do que se pratica nas outras partes do mundo, 
a aquicultura desse resultados só pelo facto de não vingar na Europa,, 
principalmente se os chinezes tiverem á sua disposição espécies parti- 
culares de peixes do mar susceptíveis de cultura.» ( 8 ) Outras vezes cal- 
cula que praticando- se a piscicultura ao longo de toda a costa de Fran- 
ça só se produziria annualmente um peixe por habitante. ( 9 ) 

Como, porém, já no tempo em que escreveu não podia negar os re- 
sultados obtidos pela mytilicultura, ostreicultura e ainda estabulação d'al- 
gumas espécies escreveu «a mytilicultura... mas valerá realmente a 
pena que fallemos d'ella. ( 10 ) Com effeito este mollusco (o mexilhão) 
que algures apellidamos a grama do mar (pag. 63 e 278) propaga-se com 
uma expansão não detida por coisa alguma •> { u ) «porque a sua semente 
fixa-se a tudo, até ás madeiras fluetuantes, até ao cobre da querena dos 
navios.» ('*) 



(i) Vid. J. R. A. Rimbaucl— Oh. cit. pag. 219. 

( 2 j Vid. J. B. A. Rimbaud-06. cit. pag. 82. 

( 3 j Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 202. 

( 4 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 210. 

(6) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pa?. 211. 

(6) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 228. 

( 7 ) Vid. J. R. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 252. 

(8) Vid. J. B. A. Rimbaud- Ob, cit. pag. 292 

(9) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 30!. 

(10) Vid. J. R. A Rimbaud— Ob. cit. pig. 239. 

(11) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 239. 

( 12 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob: cit. pag. 278. 



NATURAES E SÒC1AÊS r jJ 



A mytilicultara, porem, já adquiriu importância bastante para que 
n'um livro de vulgarisação, vinte e dois annos depois, se escrevesse : 

«D'Orbigny pae publicou em 1847 uma memoria interessantíssima 
acerca de mytilicultura. N'aquella epocha tinham os parques quatro fi- 
leiras d'estacas, o máximo. Em i852 de Quatrefages já viu em cada par- 
que sete fileiras e em vez de simples estacas collocavam-se madeiros 
enormes, cujo conjuncto formava uma palissada continua de quatro ki- 
lometros de largo por dez de comprimento. 

«Pelas informações adquiridas por d'Orbigny apura-se que antes 
de 1834 havia 340 parques que custavam 700:000 francos em números 
redondos (i26:ooo$ooo reis) e que exigiam annualmente para gastos de 
conservação 400:000 francos (72 contos de reis), contando o juro do ca- 
pital gasto e dando 124:000 francos de rendimento liquido (22:320^000 
reis ou mais de 17 por cento) e determinando um movimento de carros, 
cavallos e barcos representando uma somma annual de 5oo:ooo francos 
(90 contos). Em nossos dias porém tudo se desenvolve depressa e em 
vez de 340 parques ha mais de quinhentos, constituídos por mil palissa- 
das. Cada parque representa um comprimento médio de 45o metros., 
d'onde se segue que o conjuncto representa uma estacada de 225 kilo- 
tnetros de comprimento. 

«E' portanto a mytilicultura um dos ramos mais fecundos da cul- 
tura do mar» (*) acerescentando que em 1860 só os bouchots cVzAiguil- 
lon, perto da Rochella, produziram 37 milhões de kilos de mexilhões no 
valor de 1.200:000 francos, t 2 ) 

Com respeito á ostreicultura, de cuja existência duvida, ( 3 ) affirma 
que «é um processo que nos priva do gosto de comer ostras á vontade» ( 4 ), 
que faz subir, de uma maneira incrível, o preço da ostra ( 5 ) «esse mollus- 
co tio procurado e comtudo banido das refeições do artista, desde que 
em França existe a ostreicultura». ( 6 ) 

E para reforço das suas aflirmativas prosegue. «Não se faz caso da 
acção destruidora do regimen das aguas quando se escreve : «A ostrei- 
cultura progride em Oléron. Tiram-se alii resultados excellentes dos col- 
lectores de telhas.» (Estatística das pescas marítimas, i865-66. Oléron). 

«Soffreram-se e reconheceram-se as consequências inevitáveis do 
regimen das aguas quando se escreveu : 

(1) Vid. Aranda y Panjuan— Los mistérios dei mar, pag. 300. 

( 2 ) Vid. E. Réclus — Nuuvdle Géographie Universelle. Tom. 2/ La 
France, pag. 522. 

(3) Vid. J. B. A Rimbaud— 0b. cit. pag. 215. 

(4) Vid. J. B. A. Rimbaud— 0b. cit. pag. 240. 

( 5 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 245. 
C°J Vid. J. B. A. Rimbaud-06. cit. pag. 278. 



38 REVISTA DE SC1ENC1AS 



«A ostreicultura, por meio dos parques, já não rende os lucros que 
deu no principio. Os lodos invadíramos e em muitos pontos os arren- 
datários já não collocam os collectores, com receio de fazerem uma 
despeza inútil.» {Estatística das pescas. Ilha de Ré). 

«Percebe-se que o trabalho artificial não passa d'uma espoliação 
ao trabalho natural quando, depois de ter dito: Tiram-se alli resulta- 
dos excellentes de telhas» se accrescentá «mas é para temer que, se não 
se dirigir a attenção para os bancos do largo, venham a diminuir conside- 
ravelmente as pequenas ostras colhidas» . (Estatística das pescas. 01éron) # 

«Mas o que não passava d'uma persuasão a este respeito transfors 
ma-se em certeza quando lemos : Estão arruinadas as ostreiras do Mor- 
bihan; não deram resultado as experiências de reproducçãG tentadas 
nos bancos, outr'ora importantes, de Kervoyer, de Penbock e de Bé- 
luré.. Ha 494 parques d'ostras no Morbihan que podem dar resultados 
insignificantes porque se comprometteu a nascente da producção. (Es- 
tatistica das pescas. Vannes), 

«Tão remuneradora no principio a industria ostreicola ja não for- 
nece senão poucos productos. Crearam-se seis parques de fixação no 
cabo de Chatellaillon. A semente de cada vez é alli mais rara, attribuin- 
do-se esta situação ao despovoamento dos focos de producção. (Esta- 
tistica das pescas. La Rochelle).» ( 1 j 

Com respeito á invasão dos lodos nas ostreiras da ilha de Ré, 
n'um exellente periódico ibérico, a Revista Occidental, que infelizmente 
deixou de publicar-se depois de ter produzido excellentes artigos dos srs. 
Batalha Reis, Eça de Queiroz, Anthero de Quental, Oliveira Martins, 
Pi y Margall, D. Patricio de la Escosura, D. Raphael Labra e outros^ 
lê-se : 

«Ha terrenos de boa qualidade que estão inutilisados porque con- 
teem grande quantidade de lodo, em que se sepultam as ostras. Duran- 
te muito tempo d'elles se não tirou partido, até que uma casualidade 
permittiu que se descobrisse o meio de os limpar. Nas ostreiras, que o 
Iodo esterilisára na ilha de Ré (P>ança), observou-se que, assim como 
nas praias sem accidentes, não são os lodos arrastados na vasante, mas 
assentam em resultado da acção da gravidade ; porém n ? aquellas em que 
sé encontram quaesquer corpos sólidos e fixos, quando baixam as aguas- 
formam-se correntes de cada lado do obstáculo, arrastando assim o lodo. 

«Mediante esta circumstancia consegue-se a limpeza de certos ter- 
renos lodosos, unicamente por meio do esvasiamento natural das aguas.. 
Para esse effeito, depois de limitar com um cercado de pedra o local des- 



(i) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit, pag. 249. 



NATURAES E SOCIAES y ) 



tinado á ostreira, dispõem-sc n'clle verticalmente muitas pedras supe- 
riores ao nivel do solo e bastante próximas para que formem correntes, 
que lentamente vão arrastando para os sitios mais baixos os lodos diluí- 
dos, preparando-se alli os sumidouros de descarga que os conduzem 
para fora do cercado. 

••Outra vantagem tem ainda este processo 0$' germens que, cm- 
quanto o lodo recobria a praia, não poderam fixar-se, logo que ella fica 
limpa adherem ás pedras, vindo de pontos distantes e convertem-as em 
verdadeiros collectores » ( 4 ) 

Não admira portanto que em 1875 os três mil parques da ilha de 
Ré produzissem 35 milhões de ostras (-) e que a respeito da ostreicul- 
tura do departamento do Morbihan, «o mais bretão dos departamentos 
da Bretanha no dizer do illustre geographo E. Reclus, ainda este no- 
tável homem de sciencia nos ensina que Auray é a primeira estação os- 
treicola da França, não peia qualidade mas pela quantidade dos seus 
molluscos.» {3} 

A prova mais frisante, comtudo, da illusão do commissario de ma- 
rinha, cujo trabalho tão largamente se tem citado, é fornecida por um 
estabelecimento pertencente ao departamento que fica logo a norte 
do Morbihan e encontra-se, não em um livro de vulgarisação mas em 
escripto de um homem de sciencia, que tem o seu nome ligado aos pro- 
gressos da zoologia marítima. Com efFeito o eminente professor da Sor- 
bonne, snr. H. de Lacaze-Duthiers, depois de trabalhos de zoologia 
pura de subido alcance, produzidos nos seus laboratórios de RoscofT e 
Banyuls. depois de ter evidenciado o grande valor scientifico de taes es- 
tabelecimentos, entendeu que já era opportuno tentar applicações zoo- 
lógicas em RoscofT e conseguiu resultados que, sem lisonja, se podem 
qualificar de portentosos. De 17 d'abril a 26 de junho de 1890 o cres- 
cimento das ostras vindas de Auray para RoscofT, com uma concha que 
media centímetro e meio a dois centímetros, attingiu 5 a 6 centímetros ( 4 ); 
em setembro d'aquelle anno já aquelle diâmetro era de 7 a 7,5 centí- 
metros e de 8 centímetros em março de 1891. ( 5 ) 

O mais notável resultado da experiência d'aquelle sábio encontra- 
se porém no quadro seguinte. Com oito mil e quinhentas ostras peque- 



(i) Vid. R. Cala — Aquicultura, in Revista Occidental, 2.° volume, 
pag. 58. 

( 2 ) Vid. E. Reclus— Ob. cit. tom. cit., pag. 523. 

( 3 ) Vid. E. Rec!us-0&. cit. tom. cit , Dag. 622. 

( 4 ) Vid. H. de Lacaze-Duthifrs — Archives de zoologie, pag. 290 e 
especialmente os desenhos de pag. 291. 

(/•) Vid. H. Lacaze-Duthiers— Archives cit., pag. 292. 



4<D REVISTA DE SCIENCIAS 



nas, que dispoz no viveiro de RoscofF em i de março de 1891, obteve os 
resultados seguintes : 

3:3oo adquiriram o tamanho de um pouco mais de 6 centimetros 
e o maior numero attingiu 8 centimetros medidos segun- 
do o máximo diâmetro; 
2:700 abrangeram 4 a 6 centimetros no diâmetro maior; 
1:900 não passaram de 3 a 4 centimetros; 
33o permaneceram no estado de semente, começando apenas a 

crescer o bordo livre da concha ; 
160 morreram antes do inverno, no verão e outomno de 1890; 
5o morreram n'aquelle inverno; 
36 foram expedidas para Paris, por varias vezes, para seguir a 

experiência ; 
20 foram abertas no viveiro para observações necessárias. 

D'estes algarismos conclue-se, em primeiro logar, que a perda de 
210 ostras em 8:5oo representa uma percentagem de 2,47 °/ e em se- 
guida que 33o não desenvolvidas dão uma percentagem de 3,88% e por 
fim que a mortalidade durante o inverno ou o,58S % é insignificante. ( l ) 

E' certo que tão maravilhosos resultados foram obtidos á custa de 
cuidados meticulosos, mas qual pôde ser hoje o trabalho que se justifique 
pelo que os mineiros designam com o nome característico de lavra de 
rapina? Não custa a agricultura um trabalho assíduo para ser produ- 
ctiva, não exige continuadas observações chimicas, meteorológicas, geo- 
lógicas, botânicas e zoológicas, trabalhos incessantes de lavras, sachas, 
mondas, enxertias, podas, mergulhias, empas e muitos outros? E com- 
tudo ninguém se lembrou de aconselhar que se não cultive a vinha por 
causa da phylloxera, as batatas porque as attaca o Phytophlora infes- 
tans. Não se tem deixado de cultivar os campos por causa das larvas dos 
besouros nem as macieiras na Normandia por culpa do Anthonomus 
pomorum. ( 2 ) 

Em relação á piscicultura d'agua doce, ora diz Rimbaud que fornece 
«o meio certo de repovoar as aguas interiores de que desappareceu o pei- 
xe ( 3 ), ora, na pagina seguinte : «talvez tenhamos boas razões para acredi- 
tar que os estabelecimentos de piscicultura dispostos ao longo das margens 
dos nossos rios e ribeiros, não realisam um papel mais útil do que o 



(!) Vid. H. Lacaze-Duthiers -^.rc/uves cit. pag. 293 e 294. 

( 2 ) Vid. La Nalure, 21. " année, pag 285. 

( 3 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cil., pag. 293. 



NATURAKS E S0C1AES 



Zjl 



dos reservatórios de peixes do mar» (*), convindo observar que não só 
attaca a industria da estabulaçáo do peixe sob o ponto de vista do di- 
reito ( 2 >, mas, confundindo-a sempre com a piscicultura, chama-lhe 
«industria parasita- ( 3 ) «especulação mercantil» ( 4 ) aceusa os viveiros 
de «apanharem ao mar noventa vezes mais do que o que dão para o 
consumo» ( 5 ) e do «aniquillamento d'uraa quantidade considerável de 
pequenos peixes» ( G j embora transcreva a affirmação de que os sardos, 
se não se reproduzem, engordam e melhoram nos viveiros ( 7 ) o que com- 
para com a transformação da resa dobrada que qualifica de progresso 
agricola — uma conquista. 

Vinte annos depois de publicado c livro de Rimbaud, para provar o 
quanto «são illusorias as pretenções d^quclles que se lembram de im- 
por limites á sciencia» ( 8 ), como o fez aquelle auetor quando affirmou por 
mais de uma vez que o peixe do mar é completamente refractário aos 
processos de piscicultura ( 9 ) v o snr. professor Kunstler conseguiu educar 
o linguado no laboratório da Sociedade scientifica d'Arcachon i n) j vindo 
assim reproduzir e confirmar os resultados obtidos em iSyS pelo snr. 
dr. Abel da Silva Ribeiro, resultados tanto mais notáveis qu mto se deve 
observar que este illustre homem de sciencia tentou a fecundação de 
peixes d'agua salgada, por não haver em Villa Nova de Milfontes peixes 
d'agua doce em que fizesse experiências e escolheu, por serem de mais 
fácil acquisição, o linguado, Soleavulgans e a tainha, Mvgil capito, para 
os primeiros ensaios ; e, em 1874, o robalo, Labrax lúpus e a dourada 
Chrysophrys aurata. Em iby5 foram confirmados, embora em menor 
escala, os resultados obtidos anteriormente, que sem duvida, constituem 
as primeiras tentativas de piscicultura d'agua salgada executadas com 
bom exito na Europa, sendo para lamentar que não podessem aquelles 
notabilissimos trabalhos desenvolver-se n'um terreno de sapal a dois kilo- 



(i) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pag. 295. 

( 2 ) Vid. .1. B. A. Rimbaud-0&. cit. pag. 141. 

(3) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. pi?. 131. 

(4) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit. p^ig. 3*6. 
( 5 i Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. et. pag. 144. 
( G ) Vid. J. B. A. Rimbaud— O*), cit. pa*. 136. 

(7) Vid. J. B. A. Rimbaud -Ob. cit. pig. 252. 

( 8 ) Vid. dr. Pauvelle— La Physico-Chwtie, pag. 40. 

( í( ) Vid. J. li. A. Rimbaud— Ob. cit., especialmente em pag. 139, 149, 
157, 201, e 293. 

( 10 ) Vid. Revue Technique de V Exposilion Universe le de 1889. 9. e 
partie, pag. 361. 



42 REVISTA DE SC1ENCIAS 



metros a montante da foz do Mira, em que o snr. dr. Ribeiro pretendeu 
construir uma estação de piscicultura. (*) 

Apezar dos temores expressos por J. Rimbaud acerca da fraqueza 
da creação que a piscicultura confiasse ás aguas ( 2 ) y o salmão da Cali- 
fórnia acha-se acclimado no Sena ( 3 ) e na Nievre ( 4 ). Na Ruhr, na Sieg 
c na Mosella deram tão bom resultado as tentativas d'acclimação de 
salmões que em 188S pescaram-se 4:200 kilogrammas d'este peixe na 
Sieg, na Souer e na Our ( 5 ). Nos Estados Unidos a piscicultura do sável, 
que se proseguia em grande escala desde 1875 produziu os seguintes re- 
sultados officialmentc communicados pelo snr. coronel Mac-Donald, 
commissario federal das pescarias : em i885 a quantidade de sáveis pes- 
cados apresentou um augmento de 25 por cento sobre o producto de 
1880; em 1886, 34 por cento; em 1887, de 62 por cento; em 1888, de 85 
por cento. O valor creado traduz-se em excesso de dinheiro de 1888 
sobre 1880 por 3.52o:5o5 francos ( 6 ) (643:690^900 reis). Em França tão 
notáveis resultados se obtiveram que o snr. engenheiro Max de Nansouty 

(1) Os dados relativos aos trabalhos acima referidos do snr. dr. Ri- 
beiro foram por elle obsequiosamente fornecidos ao auctor d'esta memoria e 
nem tão farfo anda o nosso paiz de producção scientifica que se deva deixar 
correr a afnrmativa da Revue technique anteriormente citada. Por pouco que 
se aproveite com a discussão das questões de prioridade no ca c o presente, 
em que se tracta de trabalhos d'estrangeiros, ha pelo menos a vantagem de 
dar a entender que a pátria é mais alguma coisa do que o local em que 
por acaso nascemos, pois que é o pedaço de terra em que Pedro Nunes in- 
ventou um instrumento chamado o nónio e que os tractalos de physica, ado- 
ptados nas nossas escolas, denominam vernier; onde em 1540 o medico 
António Luiz definiu a gravidade quando Newton só em 1683 é que provavel- 
mente compoz os princípios mathematicos da philosophia natural (Max. 
Marie, Histoire ales malliémaliques, tom. v pag. 171), cujo manuscripto apre- 
sentou á Sociedade R^al de Londres em 28 dabril de 1686; onde o navegador 
Duarte Barbosa affirmou, nos fins do século xv, que o topasio oriental, o 
rubi e a saphira sdo Iodas Ires diurna espécie, afíirmação que só a mi- 
neralogia contemporânea comprovou demonstrando que as três pedras se 
diff-írençam apenas pela matéria corante ; onde Garcia da Orta regeita as opi- 
niões correntes no século xvi acerca da natureza do diamante e fez uma 
engenhosa observação rlativa aos jaz'gos alluvia a s d'estas pedras. Isto 
para não fatiar senão de relance no período áureo da nossa historia. 

( 2 i Vid. J. B A. Rimbaud— Ob. cit. pi°. 202. 

( ò ) Vid. La Mature, 17. e année. 2. e semestre, pag. 97 e A. Vellozo d'A- 
raujo— Ob. cit. pag 97. 

( 4 ) Vid. La Naiure, SÍ. e .ahnè°, 1.° semestre, pag. 351. 

( 5 ) Vid. La Naiure, 17. e annèe 2.° semestre, pag. 303. 
( 6 i Vid. La Naiure, 21. e année, 1.° semestre, pag. 266. 



NATURAES E SOClXES 4^ 



escrevia no anno passado. «Já não se tracta de experimentar processos 
scientificos mais ou menos curiosos, estamos em frente de resultados 
práticos e certos.» Em 1891 doze escolas d'aquicultura ensinaram a pis- 
cicultura a 120 alumnos e deitaram á agua ^68:5oo pequenos salmoni- 
deos. Este numero faz subir os totaes, só para os oito annos da sua ap- 
plicação em França, a 1:400 alumnos ensinados e 2.068:000 salmonideos 
deitados nos rios. Tomando para base os 1 5:8oo francos de dotação cada 
individuo de creação (alevin) custa sete millesimos de francos (1,26 de 
real). Ainda com piscicultores inteligentes, pela força das circumstan- 
cias e tendo em linha de conta o rigor dos elementos, deve admittir-se 
uma perda de 5o por cento sobre os pequenos peixes collocados em 
condições naturaes favoráveis. Da campanha piscícola emprehendida em 
1891 nem por isso deixa comtudo de resultar, graças aos doze estabele- 
cimentos de que falíamos, uma producção de cerca de 3o:ooo kilos de 
matéria alimentícia que custou 4:5oo francos (approximadamente 27 reis 
cada kilo). «A escola prática de Saint-Remy, na Haute-Saône, ha seis 
annos a esta parte deitou mais de 400:000 trutas pequenas em diversos 
rios. A escola prática dos Vosges deitou á agua 219:000 em três annos. 
A granja escola de la Pilietière lançou mais de 25o:ooo trutas pequenas 
á Sarthe. No Lézardeau, o snr. Baron produziu mais de 3oo:ooo sal- 
mões pequenos, pondo n'este anno 40:000 á disposição do snr. enge- 
nheiro chefe do departamento de Finisterra. Os resultados de Isoles- 
de-Lelle podem chamar se clássicos porque é ás dúzias que os habitan- 
tes d'aquella região contam os salmões que passam pelas escadas dos 
moinhos de Quimperlé. Na Cote d Or a escola prática de Beaume ha 
dois annos que entrega ao snr. engenheiro chefe do departamento as 
trutas pequenas e o snr. Durand, professor d'esta escola evidenciou com 
os seus trabalhos na Vouge e na Bouzaine os resultados que podem 
obter-se.» (*) 

No conhecimento do publico já entrou, porém, em França, a noticia 
das vantagens da piscicultura tanto que d'um numero do ^Petit Journah 
cuja tiragem se conta por i.o65:o5o exemplares, se destaca a seguinte 
noticia : «Também não deve esquecer-se o aquário do Trocadero em 
Paris, cujo zeloso director, o snr. Jousset de Bellesme inteiramente se 
deu á missão d'acclimar em França uma variedade nova e magnifica 
dos salmões da Califórnia, aos milhares deitados em pequenos nos diffe- 
rentes rios da bac ; a hydrographica do Sena. O snr. Jousset de Belles- 
me, a fallar a verdade, não estava bem certo das suas primeiras tentati- 
vas dacelimação, mas os resultados já obtidos são de ordem a excital-o 

0) Vid. L'Anné Scien ti fique et Industrie le, 36. c annò", 1892, pag. 29g 
a 302. 



44 REVISTA DE SCIENCIAS 



a proseguir n'este caminho. Eis aqui uma prova convincente: expediu- 
se para Langrcs em 1890 ao snr. Charles Royer, vice-presidente d'uma 
associação d'amadores de sport uma colónia de pequenos salmões da 
Califórnia que se deitaram no Liez, regato que num certo ponto forma 
uma vasta lagoa fixada por uma barragem ; três annos depois, isto é, 
no corrente anno ( 1 8q3 j por diffjrent<.s vezes naquella lagoa os pesca- 
dores apanharam na rede salmões com mais de 63 centímetros de com- 
primento e pezmdo de 2 a 3 kilos ; o maior, ate, attingiu 75 centímetros 
e pesava 5 kilogrammas. Parece que a força d'este peixe era extraordi- 
nária e passado um quarto de hora depois de pescado ainda custava a 
segural-o. 

«O numero de salmões apanhados d'esta maneira só nas proximi- 
dades da barragem do Liez subiu a vinte e e só se parou cem a pesca 
porque se reconheceu que aquelles peixes estavam ovados, o que prova 
■que não só prosperou completamente aquella pequena colónia mas que 
os peixes espontaneamente se reproduziram alli. E não foi só em Lan- 
gres que se pescaram salmões da Califórnia, mas ainda em outros afHuen- 
tesdoSena especialmente no Lunain, Loing, Epte, etc.,» ( 1 j esperando o 
propagandista da acelimaçáo d'este peixe, o snr. J. de Bellesme, que ha-de 
«chegar a resultados práticos que das regiões aristocráticas em que actual- 
mente pelo seu preço se manteem, os salmonideos, háo-de descera um 
nível inteiramente democrático que lhes consentirá que contribuam lar- 
gamente para a alimentação habitual das massas.» (2) 

Demais Cooper, que na Irlanda organisou as pescarias de Ballysa- 
dare, em oito annos fez subir-lhes o rendimento de quarenta libras a 
perto de oitocentas. O duque de Richemont nas suas propriedades da 
Escossia viu crescer dentro de seis annos, em resultado da piscicultura, 
os seus rendimentos de quasi nada a mais de 2:000 libras esterlinas. 



(Continua). 



J. M. de Mello de Mattos. 

Engenheiro 



( 1 ) Vid. Le Pelit Journal, abril, 1893, artigo Li Vie Champêlre. 

( 2 ) Vid. La Niture, 17. Be année, 2.° semestre, pag. 98. 



BIBL10GRAPHIA 



J. F. N. Delgado — Descri pção de uma forma nova de tri- 

LOBITE Lichas (Uiaiichas) l^ibeiroi (com traducção íranccza). — 4.*, 16 pags. c 
VI est. Lisboa, 1892. 

Como o titulo indica, este novo trabalho do snr. Delgado oc- 
cupa-se da descripção d'uma nova espécie de crustáceo do género 
Lichas, que o illustre e antigo coliega de Carlos Ribeiro dedica á me- 
moria do primeiro chefe dos trabalhos geológicos em Portugal. Abre o 
estudo com generalidades acerca da importância e do numero dos typosv 
deste género na grande ordem das trilobites, geralmente pouco abun- 
dantes no paleozóico de todos os paizes e entrenós relativamente raros, 
posto que contemos já, bem características, umas 7 espécies. A Lichas 
descripta é uma espécie verdadeiramente gigantesca e provavelmente, 
segundo a affirmativa do snr. Delgado, uma das maiores trilobites co- 
nhecidas. Em capilulos subsequentes, o abalisado geólogo faz a descri- 
pção da espécie e estuda as analogias e dtfferenças com outras congéne- 
res, nunca abandonando a sua já conhecida meticulosidade, a qual dá, 
nos seus trab ilhos, uma nota de estimável escrúpulo e rigor scientificos. 

O trabalho remata com uma lista das espécies apuradas até ao 
presente nos três horisontes fossiliíeros da assentada dos sehistos ardo- 
siferos de Vallongo. 

R. P. 



Paul Choffat. — Note sur le crétacique des environs de 
Torres Vedras, de Peniche et de Cercal, 8.°, 44 P a gs . 

Lisbonne, 1892. 

Esboço duma futura monographia da collecção já iniciada para o 
estudo estratigraphico e paleontologico do cretacico portuguez. O le- 
vantamento geológico da cadeia de Monte Juncto deu ensejo ao snr. 
Choffat de publicar uma notícia singela sobre terrenos comprehendidos 
nas regiões citadas, noticia que nos faz esperar uma apreciável memo- 
ria como as precedentemente publicadas. O opúsculo a que nos referi- 
mos abrange 03 seguintes capitulos : Enumeração dos diversos aflora- 
mentos ; c Descripção estratigraphica ; Crelacico da região do Cer- 
cai ; Comparação com o crelacico das outras regiões portuguesas ; 
zAppendice paleontolooico. 

R. P. 



NOTICIAS 



COMMISSAO CENTRAL DE PISCICULTURA 

Foi creada por decreto de 3o de setembro de 1892 e confirmada 
por decreto com força de lei de 1 de dezembro de 1892 uma Commissão 
central permanente cie piscicultura que se compõe : do ministro das 
obras publicas, presidente; do director dos serviços agricolas, vice-pre- 
sidente; do director da 1 . a circumscripção hydraulica; do inspector dos 
serviços florestaes; de dois officiaes da armada; do lente de zoologia 
do Instituto Agronómico; de um delegado da Sociedade de Geographia 
de Lisboa; de dois individuos escolhidos pelo ministro; do chefe da 
secção dos serviços florestaes. Do Regulamento respectivo, approvado 
em'20 de abril de i8g3, extractamos o que se nos affig Ur a de mais in- 
teresse para o conhecimento dos propósitos d'esta commissão: 

Art. 4. A commissão centrai permanente de piscicultura é considerada commissão 
íechnica de estudo, propaganda, fomento e consulta, sobre todos os assumptos e negócios 
públicos relativos á aquicultura e ás pescas, para montante dos limites da jurisdicção ma- 
rítima, e como tal incumbe-lhe especialmente : 

i.° Adquirir todos os elementos necessários para o mais completo conhecimento da 
hydrogrriphia e condições ichthyologicas das aguas interiores do paiz, da fauna e flora 
d'estas aguas e dos meios e systemas de exploração empregados nas pescas fluviaes. 

2.° Divulgar, por meio de publicações, quaes as espécies das aguas interiores mais 
úteis para a alimentação e para a industria; os processos mais aperfeiçoados de aquicul- 
tura e pesca fluvial ; os meios de conservação dos rios, rias, esteiros e lagoas, sob o ponto 
de vista da protecção mais efficaz para a multiplicação da fauna aquática ; 

3-° Propor ao governo, nos termos do artigo 3.° do decreto de 3o de setembro de 
1892, providencias e projectos parciaes, com o fim de prover, pela aquicultura e piscifa- 
ctura, a repovoação das aguas interiores, indicando o numero, organisação e plano dos 
estabelecimentos de reproducção natural ou artificial e os methodos de ensino aquicola 
adequados a cada região do paiz , 

4. Organisar a estatística annual da pesca nacional, por meio de investigações di- 
rectas e pelo apuramento das estatísticas dependentes dos outros ministérios ; 

5. Propor e dirigir os inquéritos directos, geraes e parciaes, sobre a industria da 
pesca, devendo fazel-o conjunctamente com a commissão de pescarias marítimas do minis- 
tério da marinha e ultramar nos assumptos em que o governa entender conveniente a coo- 
peração das duas commissões; 

6.° Propor ao governo os projectos de regulamento, instrucções e regimen das pescas 
interiores, para as diferentes espécies e regiões do paiz; 

7. Emittir parecer sobre todos os assumptos e negócios públicos relativos á aquicul- 
tura, piscifactura e exploração das aguas ; 

8.° Formular instrucções para a elaboração ou coordenação das cartas piscicolas das 
diversas bacias e receptáculos hydrographicos que constituem a rede aquática interior do paiz ; 
9. Sob o ponto de vista do repovoamento, indicar os Iogares em que devem estabe- 
lecer-se viveiros ou barcos viveiros destinados a fornecer os exemplares que as estações 
aquicolas precisarem para as suas operações. Pertencerá ao pessoal do laboratório a exe- 
cução de todas as operações technicas que teem por fim a fecundação artificial, a escolha 
dos processos de fecundação, a escolha dos reproduetores, o modo de acondicionamento e 
transporte dos embryôes ; 

lo. Promover exposições de pesca; propor ao governo premiar as memorias de assi- 
gnalado valor, os apparelhos ou quaesquer inventos que lhes sejam apresentados e que se- 
jam de reconhecida utilidade; 



NATURAKS E S0C1AES 



17 



II. Propor ao governo quacs as escolas da bcira-mar em que se elevem ministrar aos 
alumnos conhecimentos elementares de historia natural debaixo do ponto de vist;i da sua 
applicação á industria da pesca, c estudar quacs as vantagens obtidas noutros paizes que 
possuem estes institutos ou escolas de pescadores e propondo ao governo a crcaçào das que 
julgar mais uteis ; 

12. ° Propor a creação de um curso de aquicultores se as necessidades e o progressivo 
desenvolvimento da industria da pesca mostrarem que assim é necessário, e com o concurso 
das commissões regionaes procurar dirlundir pelo povo, publicando nos jornaes das diver- 
sas localidades quaesquer preceitos ou regras que interessem á piscicultura e aos pisci- 
cultores. 

Art. 5. A commissão central permanente de piscicultura, nos seus estudos e inves- 
tigações, e na elaboração das propostas que dirigir ao governo sobre providencias a adoptar 
ou regulamentos a promulgar, procurará: 

a) Adquirir o conhecimento, em cada curso de agua, lagoa ou zona aquática inte- 
rior, das espécies uteis para a alimentação publica, ou' para o alimento dos peixes, e das 
que são prejudiciaes ou nocivas: 

b) Recolher os dados relativos ás epochas da desova de cada espécie; aos seus há- 
bitos; ás substancias de que se alimenta, tanto animaes como vegetaes, e á defeza dos 
individues novos das espécies que se pretende cultivar e á conservação e desenvolvimento 
dos indivíduos adjltos das espécies comestíveis. 

c) Ter em vista a extineção das espécies nocivas em cada região aquática, a sua limi- 
tação ou a sua destruição; 

d) Averiguar as causas das epidemias que importam a destruição não só dos em- 
bryões, como dos indivíduos adultos, e ao mesmo tempo, nas diversas regiões, os logares 
onde cada espécie desova, a fim de evitar ahi todas as causas accidentaes ou permanentes, 
que impeçam ou contrariem aquella funeção ; 

e) Determinar as zonas aquáticas que se devem povoar, e quaes as principaes espé- 
cies a introduzir ou a desenvolver, quer sejam nativas das aguas do paiz ou próprias para 
n'cllas aclimar; investigando as circumstancias hydrographicas e climatológicas de cada 
zona em que as espécies estrangeiras se não dêem, e remover as causas contrarias á sua 
propagação e desenvolvimento; 

/) Quando a fauna de uma determinada região aquática fôr muito rica de espécies 
indicar quaes as que devem ser protegidas ou extinctas, e aquellas cujo desenvolvimento 
se deverá iimitar; 

g) Determinar as causas do empobrecimento das aguas, investigando se é devido 
ás substancias nocivas acarretadas pelos afHuentes ou despejos marginaes, ou â velocidade 
da corrente, natureza do fundo ou vegetação e hábitos das espécies mais abundantes; 

h) Determinar a influencia que as espécies estranhas á fauna do paiz podem ter 
sobre o dcsapparecimento das espécies que possuímos e quaes as condições de lueta em 
que se vão encontrar com ellas; 

i) Fixar o período durante o qual deve ser defeza a pesca das espécies novas intro- 
duzidas e aclimadas nas nossas aguas e as condições em que deve ser permittida ; 

;) Indicar os processos a empregar na repovoação dos cursos de agua, se por meio 
de casaes, se por óvulos fecundados ou embryões, quaes as regiões onde devem ser lança- 
dos e quaes as condições qus se deve attender n'esta operação; 

k) Determinar qual a fauna fixa das aguas, quaes as epochas em que as diversas 
espécies emigram e quaes aquellas em que só apparecem accidentalmente; 

/) Organisar uma lista completa dos nomes vulgares dos seres aquáticos nas diversas 
regiões do paiz e determinar por meio de classificações quaes as espécies a que elles cor- 
Respondem ; 

m) Averiguar quaes foram as espécies que se extinguiram, quaes as que estão em 
via de desapparecimento e as' causas determinantes d'estes factos; 

n) Proceder ao estudo das epochas de emigração e volta das espécies ás mesmas 
paragens ; 

o) Investigar o valor commercial e alimentar de cada espécie debaixo do ponto de 
vista dos mercados nacionaes e estrangeiros a que possam concorrer; 

p) Relativamente a cada espécie, determinar se a pesca deve ser permittida na su- 
bida ou quando descem, c se a prohibição deve ser absoluta, limitada e em que regiões 
do curso dos rios; 

q) Adquirir todos os dados de physica, bathimetria, botânica, zoologia e hydrogra- 
phia, que possam interessar á aquicultura ou ás questões submettidas ao exame da com- 
missão. 

Das deliberações d'esta Commissão que passem ao domínio publico 
nos oceuparemos aqui, com vagar, ulterior e opportunamente. 

R. P. 



OS MORTOS 



JOÃO IGNACIO FERREIRA LAPA 

Cumpre á Revista assignalar o passamento, em 1893, cTcste illus- 
tre professor, cujos serviços, no domínio dos assumptos agronómicos, 
foram de alto préstimo e principalmente ao tempo em que entre nós 
se era por demais alheio a essa ordem de trabalhos. Vem de longe a 
intervenção erudita e laboriosa de Ferreira Lapa nos mais instantes pro- 
blemas e questões da sciencia agricola portugueza, e ao seu esforço, 
como á sua justa auctoridade, se devem melhoramentos e progressos con- 
siderados, pelo seu alto valor, em subida estima. D'entre os mais valiosos 
trabalhos que legou destacaremos aqui a Technologia rural (3 vol.), a 
Memoria sobre os trigos portugnezes, o Relatório que acompanhava as 
analyses chimicas dos vinhos portuguezes, com Aguiar e Villa Maior, 
etc. E ainda para uma lembrança grata a sua cooperação no desenvol- 
vimento do ensino agricola em Portugal. 

R. P. 



ANTÓNIO RICARDO DA CUNHA 

Devem se a este antigo edistincto conservador do Jardim Botânico 
da Escola Polytechnica longos e magníficos serviços evidenciados no 
enriquecimento dos herbarios daquella instituição não só quanto a formas 
portuguezas ainda não representadas, como pelo descobrimento de mui- 
tas inteiramente inéditas da nossa flora. Com o desapparecimento d'este 
naturalista, nos fins do anno de 1893, perdeu o Jardim Eotanico de Lis- 
boa um dos seus mais dedicados e estudiosos collaboradores, e desappa- 
receu, na diminuta ala da sciencia portugueza, uma das mais rijas orga- 
nisaçóes de trabalhador apaixonado e incansável. 

R. P. 



A Revista tem recebido as seguintes publicações, 
dalgumas das quaes se oceupará na sua secção bibliogra- 
phica : 

Paul Choffat. — Description de la faune jurassique du Portugal. Mollusques 
lamellibranches, in-4. , 39 pags. e IX pi. Lisbonne, i8g3. 

— Conlnbutions à la connaissance géologique-des sources mine ro-ther ma- 

les des aires mèsozoíques du Portugal, in-8.°, i36 pag. e 1 cart. Lis- 
bonne, 1893. 

— Sur les nioeaux ammonitiques du Mahn infêrieur dans la contrée de 

Montejunto (Portugal). Phasespeu connues du déoelloppement des mol- 
lusques, in-4. , 3 pag. Paris, 1893. 

— Description de la faune jurassique du Portugal : Ammoniles du Lusi- 

tanien, 4 °, 82 pags, XIX pi. Lisbonne, 1893. 

Sociedade de Geograpkia de Lisboa. — A Bibliotheca. in-8.°, io3 pag. 
Lisboa, I893. 

United States of Geologícal Survey. Mineral resources of the United Sta- 
tes, in-8.°, 9 pags. Washington, 1892. 

J. Leite de Vasconcellos. — Sur le diabete portugais de Macao, in-8. ^ 
9 pags., Lisbonne, 1892. 

— Sur les religions de la Lusitanie, in-8.°, 9 pags. Lisbonne/ 1892. 

— Sur les amuíetles portugais, in-8.°, 12 pags., Lisbonne, 1892. 
Arnold Hague. — Geology of lhe Eureka district, with an Atlas. 2 vols. 

Washington, 1892. 
Leo Lesquereux — The Flora of the Dakota group, 1 vol.- com numerosas 

pi. Washington, 1892. 
Anthropologicaí Institate. —Index of the pubHcalions, 1 vol. London, 

1893. 
Revista de Obras publicas e minas, tom. XXIV, n. os 279 e 280, Lisboa, 

1893, 
Revista jurídica, tom. 1, n. os 17-21 e 23, Porto, 1893. 
Jievista dos lyceus, tom. III, n. cs 1-2, Porto, 1893. 
Revista do Minho, tom IX, n. os 2-4, Espozende, 1893. 
Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, tom. IX, n. os 6 12; tom. 

X, n 0s 2-6, Lisboa, 1893. 
Bo'etim da Sociedade Bioleriana, tom. X, n. os 3-4, Coimbra, 1892. 
Jornal da Sociedade pharmaceulica lusitana, tom. IX, n os 3-9 e 11.-12, 

Lisboa, 1893. 
O Instituto, tom. XI, n. os 9-10; tom. XII, n. os 1-4, Coimbra, i8g3. 
Annnles du Musée Guimet, toms. XXI-XXVl. Paris, 1892-93. 
Annoles du Musée Guimet (Bibliothèque d'études), tom I : Le Rig^Vèda, 

Paris, 1893; tom. II: Les lois de Manou. Paris, 1893. 
Annuaire des facultes de VAcadémie de Toulouse, Toulouse, 1892. 
Rappoii annuel du conseil general des facultes de VAcadémie de Toulouse, 

Toulouse, 1892. 
Ri'vue mensuelle d< j VÉr.ole d" Anlhropologie, tom. III, n. os 4-7 e 9-12, tom. 

II, n.° 1. Paris, 1892-94. 
Bullchns de la Soriéié d' Anlhropologie de Paris. tom. II, n.° 4; tom. IV, 

n os 2-6 e 8-10. Paris, 1893-94, 
Bulletin de la Sociélé Zoologique de France, tom. XVII, n-° 6. Paris, 1892, 
Bulletin de la Sociélé des sciences historiques et naturelles de Semur, tom. 

II, n.° 6, Semur, 1892. 



Feuilte dexjfiwzsnpturalisteSj tòíp. XXIII, n. os 271-276; tom. XXIV, 
n. 0s 377*9. Paris, 1893. 

Mémoircs de la Socièté Wanthropologie de Poris, tom. IV, fase. 3.°. Pa- 
ris, 1892. 

BiilUtin de 1'Jnstitvt égypticn, tom. Ill, n. os 4-5 e 7. Le Caire, 1892-93. 

Ballelni de la Sonélé beígè de microscopie, tom. XIX, n.° s 4-1 ; tom. XX 
n. os i-3, Bruxelles, 1893. 

Bulletin de Soaété belge de géologie, de paléontologie et dltydiologie, tom. 

VI, n.° 2. Bruxelles, 1892. 

Áiinales r/e la Sociéié d'Archéo'ogie de Bruxelles, tom. Vf, n. os 1-4; tom. 

VII, n. rs 1-4, Bruxelles,. 1892. 

BiúlMin de Snciété vaudoise des scienves natarelle-, tom. XXIX, n. os uo- 
U2. Lausanne, 1893. 

Acíes de la Sociélê scienlifique du Chili, tom. II. n. cs í~3 ; tom, III, n. » 
1-2. Santiago, 1892-93 

Galicia, tom. I, n.° 10. La Coruiía, 1893. 

Bollelino dd lleaí Comitato Geológico d' Itália, tom. III, n.° 4 ; tom. IV, 
n. os i-3. Roma, 1893. 

Bollelino di pai etnologia italiana, tom. IX, n.° s 1-9. Parma, 1893. 

Atii delia Socieiá italiana di scienze naturali, tom. XXXlII, n. 0s 1-1 1 ; 
.tom. XXXVI, n.° s 1-4. Milano, 1893. 

Malpighia (líassegna mensile di botânica), tom. VI, n. os 4-6. Génova, 
1892. 

Rassegna deite scienze geologiche in Itália, tom. II, n.° s 1-2. Roma, 
1892 

Biilletins du ComVé Géologique de St. Pétersbourg, tom. XI, n. os 5-n; 
tom. XII, n. 0s 1-2. St. Pétersbourg, 1892. 

Supplément au tom. XI des Bulletins da Comité Géologique. St. Péters- 
bourg, 1892-93. 

Mémoircs du Comité Génlog : que, tom. IX, n.° 2 ; tom. X, n.° 2 ; tom. XII, 
n. 0s 2 3. St. Pétersbourg, 1892-93. 

Mévioires de la Soaélé des naturalistes de Kieiv, tom. XII, n. oS *-2. Kiew, 
1892. 

Vzrhandlungen der kaiserlich-koniglichen zoofogisch-bofanischen Gesell- 
schnfí in Wien, n. s de janeiro, marco, julho, setembro e dezembro 
de 1893. Wien, 1893. 

Verliandlungen der BerUnerGetetlschnft fúr Anthropologie, Ethnologie und 
Urgeschichte. n. os de outubro-dezembro, 1892 e janeiro e junho, 
i8g3. Beilim. 1892-93. 

Annwú Repnrt (Uiiitèrl States Geológica} Survey), i8S3-86. 6 toms. com 
numerosas pi. e mappas. Washington. 

Annuaí Rcpuit of 1-Iie Bureau ofEthnoíogy, 1 883-5. 2 toms. com numero- 
sas pi, e map. Washington. 

The américan anihropologut, tom. V, a * 3-4; tom. VI n.° 1. Washin- 
gton, 1892-93. 

The journnl of the anthropoh girai lnstitute of Great Britain and Ireland, 
tom; "XXII, n.° 4; tom. -XXIII, n 0í 1-2. London, 1893. 

Abstracta o,' lhe proceedings of the geological Sociely of London, n.°* 606- 
6i3. London, 1892-93. 

Recorda of the Geological Survey of Neiv-Souih Wales, tom. III, n.°M-3. 
Sydney, L8g3. 

Bulletin of lhe United- States Geological Survey, n. os S2-86 e 90-96. Was- 
hington, 1891-92. 



PORTO - Typographia Occidental. 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



Publicação trimestral 

DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Lente da Academia Polytechnica do Porto 



RICARDO SEVERO 

Engenheiro civil 



ROCHA PEIXOTO 

Naturalista adjuncto ao Gabinete de Geologia 
da Academia Polytechnica 



Yolume terceiro — N.° 10 



(ll SERIE — N.° 2) 



« ■■mil 



PORTO 

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHÀRDRON 

CASA EDITORA 

M. LUGAN, SUCCESSOR 



» 



1S94 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

As villas do norte de Portugal. (Estudo sobre a propriedade 
no tempo dos romanos e povos germânicos), por Al- 
berto Sampaio. : . .... . • '■.', pag. 49 

Mater iaes para a archeologia da comarca de Barcelíos, por 

F. Martins Sarmento. • ... pag. 62 

VARIA 

JSouvelles donnêes sur le jurassique de T Afrique Orientale, par 

P. Choffat . . ..... . . . ' . ■. . pag. 70 

Sur quelques fossiles crétaciques du Gabon, por P. C. . .' pag. 73 

Laboratório marítimo d' Aveiro, por J. M. de Mello de Mattos pag. 74 

BIBLIOGRAPHIA 

Antiguidades prehisto ricas do concelho da Figueira. Memoria 
offerecida ao Instituto de Coimbra, de António dos San- 
tos Rocha, por F. Cardoso . . . . . , . pag. 89 

Exemplo frisante da importância da utilisação dos dados geo- 
lógicos na escolha dos traçados dos caminhos de ferro, de 
Paul Choffat e Proença Vieira, por R. P.. . . . . pag. 95 

Noticia- de alguns fosseis terciários do archipelago da Madei- 
ra, de J. C. Berkeley Cotter, por R. P. . . pag. q5 

Noticia de alguns fosseis terciários da ilha de Santa Maria no 
archipelago dos Açores, de J.C Berkeley Cotter, por 
R. P. . . . . ...... . . . . . . pag. 9 5 

NOTICIAS 
Museu ethnographico porluguez, por R. P. . . . . . . pag. 96 



AS VILLAS DO NORTE DE PORTUGAL 

ESTUDO SOBRE A PROPRIEDADE 
NO TEMPO DOS ROMANOS E POVOS GERMÂNICOS 

(FRAGMENTO) 

CAPITULO III 
A. denominação 

Demarcando o terreno, desbravando-o, no todo ou em 
parte, e fazendo as primeiras construecões, o instituidor do 
prédio romano gravava quasi sempre n'elle a sua persona- 
lidade, com a imposição do próprio nome; transmittindo-se 
depois atravez as diversas suecessões, como a memoria do 
fundador d\ima cidade, elle servia por isso para o identifi- 
car mais que a mesma localisação. 

Formava-se ordinariamente adjectivando o gentílico do 
proprietário com o suffixo — anus. Assim se lê na Tabula 
Alimentaria de Veleia, para não citar outros monumentos. 
O maior numero dos fundi inscriptos nella — o Acilianus, 
Aemilianus, Afranianus, Antonianus, Appianus, Alilianus, 
Aurelianus . . . derivam a sua denominação dos gentilicos — 
Acilius, Aemilius, Afranius, Antonius, Appius, Atilius, Au- 
relius (*). Da Itália passou o mesmo costume para a Gallia, 

( 1 j Jubainville: Recherches sur Vorig. de la ftropr. etc, pag. 125 
e segs.; F. de Coulanges; L'Alleu et le domaine rural, pag. 34 e pas- 
sim. 

vol. Ill 4 



50 REVISTA DE SCIENC1AS 



generalisando-se de tal modo que a maior parte dos nomes 
das communas e logares actuaes — antigas villas, provêm 
cTum gentílico latino, com a differença que ahi o suffixo é 
em regra — açus. Os gaulezes, romanisando-se, adoptaram 
o onomasticon dos conquistadores, do qual procede a mul- 
tiplicidade de nomes latinos na toponímia franceza ( 1 ). 
Quando a civilisação romana se defrontava com outra infe- 
rior, absorvia- a por completo, imprimindo a sua forte indi- 
vidualidade em todas as manifestações da vida social do 
povo vencido. 

As numerosas inscripções, relativas ao domínio roma- 
no, recolhidas em toda a península, incluindo o território, 
comprehendido na nossa área d'investigações, mostram á 
saciedade idêntica adopção de nomes pessoaes latinos, que 
deviam ter servido, como na Galiia, para denominar os fun- 
dos que a nova jurisprudência constituía. Se os romanos os 
fundaram, o que é indubitável em face de todas as eviden- 
cias que n'elles encontrámos, não se pode admittir a omis- 
são d'esta característica quasi fundamental. 

Faltando-nos documentos contemporâneos, temos de 
recorrer aos do período astur leonez; mas logo á primeira 
vista ficámos enleados sobre este ponto; ao contrario das 
charíae da França, mal se divisa nas nossas um nome to- 
pónimo, derivado d'um gentílico latino. Eis-nos pois em face 
d'uma questão histórica do maior interesse — como e quan- 
do se expungiram essas denominações primitivas? 

Em vista do cuidado que os povos germânicos tiveram 
em conservar tudo na situação anterior ( 2 ), os nomes lati- 
nos existiram até á queda do seu império; na Galiia não os 
apagaram; deixando-os ficar pelo contrario, perduram ainda 
na maioria actualmente. «As invasões e o domínio dos reis 

(*) Jubainville: Recherches sur Vorig. de la fropr. etc, pag. 125 
e segs.; F. de Coulanges; V Alleu et le domaine rural, pag. 34 e pas- 
sim. 

( 2 J Capitulo II. 



NATURAES E SOCIAES 51 



germânicos — diz Coulanges (- 1 ), não mudaram os nomes de 
propriedades. Não se vê em nenhuma província vestígios 
d'uma transformação geral de nomes nos séculos quinto e 
sexto.» Não havendo razões para suppor que os Suevos e 
Wisigodos procedessem áquem dos Pyrineus de maneira 
diíTerente, somos obrigados a concluir que as denominações 
romanas foram conservadas por elles. Por outro lado, se 
não houve partilha de terras, opinião hoje mais seguida, a 
conservação do nome, se não era tão necessária para o lan- 
çamento dos impostos, como a dos marcos, ajudava pelo 
menos grandemente á identificação. E' possível ter havido 
algumas expulsões de proprietários, e aqui ou alli mudança 
de nome ; mas a substituição geral veiu posteriormente, 
consoante demonstram os factos que vamos estudar. Acon- 
tecimento de tal magnitude só seria realisavel n'um tempo 
de maior desordem, sobretudo de profunda desorganisação 
social. 

Volvidos apenas uns vinte e cinco ou trinta annos de- 
pois da queda do império Wisigothico, ainda no meio das 
convulsões, provocadas pela invasão dos árabes, mal firme- 
mente occupando o norte da península. — AfTonso i principia 
com a maior felicidade as suas guerras d'exterminio; mas 
os territórios de que se apoderava, se ficavam limpos de 
africanos, careciam comtudo d'auctoridades, que estabele- 
cessem a ordem civil e a segurança publica. N'este estado 
permaneceram por muito tempo. 

Fallando das expedições do grande rei, o chronista ( 2 ) 
diz — passando os árabes á espada, levou comsigo os chris- 
tãos «christianos secum ad palriam duxit.t> A ultima affir- 
mação é na verdade espantosamente exaggerada. Concebe- 
se que os inimigos fossem todos trucidados, caso muitas ve- 
zes occorrido; não se pôde admittir, porém, que toda a gente 

(*) Obr. cit. pag. 225; v. todo o cap. VII, pag. 220 e seg. 
( 2 ) Esp. Sagr., tom. XIII, Ap. VII, pag. 4S1. 

* 



52 REVISTA DE SCIENCIAS 



desde as alturas de Lugo até á linha Vizeu-Salamanca-Se- 
govia acompanhasse o vencedor, cujo domínio pela sua es- 
treiteza nem sequer a podia alojar. Com o rei victorioso 
iriam muitos habitantes, voluntária ou involuntariamente ; 
não o maior numero, que se esconderia amedrontado, a. 
cada passagem dessas tropas indisciplinadas, como é de 
costume em taes casos, para reapparecer, quando voltava. 
a bonança. Esta situação originou sem duvida a phrase em- 
phatica do chronista, assim como as expressões contempo- 
râneas — ermo, deserto, terra deshabitada. Mas que nunca 
houve um ermamento, transparece com sufficiente clareza, 
dos documentos da época. 

Consideremos em primeiro logar os relativos a Lugo. 
Foragido, acompanhado d'um séquito de parentes, servos 
e outras pessoas, o bispo Odoario recolheu-se a esta cida- 
de, quando soube das victorias d'Affonso i, que o incumbiu, 
de proceder á restauração d'ella e da província. Executada 
a incumbência alli, passou a fazer o mesmo em Braga, fal- 
lecendo n'este trabalho (*). Mas a restauração e a repovoa- 
cão eílectuou-se só com os companheiros do bispo? 

O séquito não podia ser muito numeroso. Na própria 
exposição por elle feita, diz — Cum nostris mullis familiis^ 
& cum coeteris populis tam nobiles quam inobiles ( 2 ). Fami- 
liis, sabe-se, eram pessoas da classe mais ou menos servil^ 
o resto seriam visinhos, amigos, parentes. Treze d'esses,. 
fundando uma egreja em Villamarci, dizem que sahiram da 
sua terra com o bispo — elles simul cum coeteris plurimis ( 3 j. 
Não era pois uma multidão; nem as palavras coeteris popu- 
lis e coeteris plurimis a designam, nem tão pouco a boa ra- 
zão admitte que tanta gente pudesse permanecer por desvios 
durante muito tempo —fecimus moram per loca deserta mui- 



(*) Esp. Sagr., tom. XL, pag. 103-104. 

( 2 ) Mesma obra, ibid. pag. 365. 

( 3 ) Mesma obra, ibid. pag. 353. 






NATURAES E SOCIAES $3 



tis temporibus (*). Pois com um punhado de seguidores, 
Odoario, encontrando a cidade — desertam et inhabitabilem, 
restaurou-a intus & foris ( 2 j— qiiam ex radiei restauravi ( a ). 
Simultaneamente com a mesma facilidade, reorganisou a 
vida agrícola. Apoderando-se diurna grande quantidade de 
villas, fez renascer em todas a cultura, e attribuiu o senho- 
rio dVigumas aos seus companheiros. Com os prédios dis- 
tribuiu-lhes logo —boves ad laborandum & jumenta ad ser- 
viendum eis ( 4 ). Já se vê que não estava n'um paiz deserto; 
aliaz com esses individuos, bem poucos em relação ao ter- 
ritório, em tão curto praso era-lhe impossivel restaurar a 
cidade com a sua província; nem poderia obter os boves & 
jumenta que menciona. 

A verdade era outra. A população existia, mas escon- 
dida, sem ponto d'appoio, justamente medrosa pelas violên- 
cias, a que estava sujeita n'uma terra sem leis nem aueto- 
ridades. Desde que teve quem a protegesse appareceu im- 
mediatamente para a vida social; por isso os trabalhos 
progrediram com rapidez; e tão diminutos seriam os estra- 
gos, que tudo se recompoz em poucos annos, pois quando 
falleceu, Odoario effectuava em Braga igual organisação. 

Considerando os D. ( 5 ) ao sul do rio Minho temos a 
mesma impressão — que não estavam ermas as villas to- 
madas de presuria. Dos D. 5 e 6 vê-se que ella se fizera 
cum corna et cum aluende de rege. Esta circumstancia deixa 
logo perceber -que por essas insignias militares se impunha 
silencio aos direitos anteriores. Se não houvesse ahi habi- 
tantes, seria inútil fazer a oceupação em acto de guerra; 
bastava apoderar-se do que estava abandonado; no caso 

(*) Esp. Sagr. y tom. XL, pag. 365. 
( ? ) Mesma obra. ibid. pag. 365. 

( 3 ) Mesma obra, ibid. pag. 35y. 

( 4 ) Mesma obra, ibid. pe.g. 365. 

( 5 ) Designamos por D. os diplomata et Charíae da collecção 
Port. Mon. Hist. 



54 REVISTA DE SC1ENCIAS 



contrario aquellas insígnias sanccionariam a apprehcnsão 
feita pelo recem-chegado. Seguindo o D. 5, os presores edi- 
ficaram uma egreja, dotando-a com terras, casas, cubos, cu- 
bas — omnia edificia cum intrinsecus suis. A doação valiosa 
mostra que encontraram os moveis, as edificações e que o 
prédio estava em exploração regular; não é de crer que des- 
sem tudo, nem de presumir que com o trabalho de poucos 
annos adquirissem tantos objectos e valorisassem d'esse 
modo um terreno ermo. Do D. 6 (anno 870) vê se que a 
presuria se effectuára pelos priores, pães ou avós quando 
muito, segundo indica a data; e todavia a villa estava cheia 
de cultivadores, gados e moveis em tal abundância que o 
casale referido era quasi uma reproducção da antiga vivenda 
do senhorio, trabalho superior ao de duas gerações se tives 
sem de fazer tudo. 

Na investigação dos limites de Dume, nas proximida- 
des de Braga, a grande cidade regional, já vimos ( x ) com 
que facilidade se determinou a antiga demarcação; sem a 
sequencia de gerações, habitando ahi desde o tempo suevo- 
wisigothico até á restauração neo-goda, seria impossível 
obter as informações precisas, constantes do D. 

Dos factos adduzidos resulta que não houve nunca um 
despovoamento — as cindas de desertos, como entendia Her- 
culano, opinião que já seguimos também. Pelo contrario, a 
critica que o illustre historiador faz a respeito da Beira no 
tempo d'Almanssor ( 2 ), é igualmente verdadeira para o 
norte do Douro n'este período. 

Durante a reconquista asturiana, a violência reina in- 
frene: ella não se exerceria comtudo senão numa secção das 
villas, a reservada para o goso ou exploração do proprietá- 
rio; a outra retalhada em sub-unidades e parcellas conti- 
nuaria a ser agricultada em geral pelos mesmos cultivado- 

C 1 ) Capitulo li. 

( 2 ) Hist. de Port., vol. III, pag. 422 (2. a edição). 



NATURAES E SOCIAES ^5 



res, aliaz cessaria o rendimento. Por isso, ora fugindo ora 
voltando ás suas casas elles persistem; mas o senhorio, ou 
dominio directo, é do mais forte, do chefe do primeiro mo- 
mento — o presor. Citemos ainda um exemplo: no tempo 
d^fionso 1, Odoario fez a Sé do Lugo senhora de parte do 
território de Braga, que elle aprehendera, e onde reorgani- 
sou a vida civil. Succedem-se os annos, passam-se innumc- 
ras convulsões, até que vem em fim a segurança. Descobre- 
se então (reinado cPAffbnso v) que os condes se tinham 
apoderado á força cPesse território ( 1 ). As camadas dos se- 
nhores faziam- se e desfaziam- se, consoante a sorte da guerra 
com os estrangeiros ou das luetas intestinas. 

Foi pois n'esta época de presores [ 2 ) e pvesuria que se 
effectuou com a substituição dos proprietários a transforma- 
ção geral dos nomes dos prédios. Os documentos de Lugo 
vão elucidar-nos immediatamente, emquanto não produzi- 
mos prova mais decisiva com os mesmos nomes que fica- 
ram. 

A treze companheiros que pediram a Odoario uma 
villa ex ipsis quas ipse prendiderat, deu-lhes — unam Villam 
prenominatam Villamarci, quam ipse prendiderat & dederat 
Marco sobrino suo, a quo nomen acepit Villamarcc v 3 ). Antes 
da apprehensão ella havia de ter um nome que o bispo sub- 
stituiu pelo do sobrinho. Este facto não é singular nem ac- 
cidental. N'outro documento ( 4 ) Odoario conta que conce- 
deu a seis dos seus homens as villas — Avezani, Guntini, 
Desterit, Provecendi, Sendoni, Macedoni, e que as denomi- 
nou pelos nomes cTelles — Avezano, Guntino, Desterigo, 
Provecendo, Sendo, Macedónio. Relativamente á primeira 

( 1 ) Argote : (Memorias Ar. etc. tom. III, Doe. 7. 

(2) Em faee dos documentos citados, não podemos concordar no 
todo com a opinião do illustre Herculano a respeito dos presores : Hist , 
de Port. vol. III, 2. a ed. pag. 3i8. 

( 3 ) Esp. Sagr. tomo XL, pag. 354. 

( 4 ) (Mesma obra, ibid. pag. 365. 



56 REVISTA DE SCIENC1AS 



accrescenta uma phrase que não devemos omittir — misimus 
ad eam nomen oAve\ani de noslra praesura: estas ultimas 
palavras são muito significativas no seu laconismo. A pre- 
suria suppõe uma violência — a expulsão do proprietário, 
ou na ausência o desprezo pelos seus direitos. Este modo 
comtudo de denominar a propriedade aprehendida mostra 
que a tradição romana se não tinha obliterado : pois a im- 
posição do novo nome pessoal seria como uma ficção jurí- 
dica, pela qual se julgaria, expungindo o antigo, fundar a 
villa novamente. A romanisacão era ainda à vida moral 
d'essa época, antecessora da nossa ; a terra continuava a 
ser como a extensão da personalidade do homem que a 
possuia. 

Por isso em vez dos primitivos encontrámos em regra 
geral nomes neo-godos ; latinos pessoaes muito poucos. 
Como estes podiam mudar-se, sem se alterar o regimen do 
prédio, não havia interesse fundamental em conserval-os : 
não assim os limites; exprimindo o valor da propriedade, 
enraizaram-se ao solo, juntamente com os cultivadores, os 
usos e costumes. 

Apezár de tudo podemos citar três exemplos typicos, 
nos quaes o gentílico se adjectiva em — anus na denomina- 
ção do fundo; —villam Cornelianam (D. 18 e 19) de Cor- 
nelius, hoje' a freguezia da Gorrelham; v. campaniana (D. 
409) de Gampanius, h. a freg. de Campanham ; v. valeriam 
(D. 112) * Fundum Valerianum, de Valerius, h. a freg, de 
Vairão. Não obstante o emprego de villa em vez dtfundus, 
do que aliaz se encontram muitos exemplos ( 1 ), é manifesta a 
forma clássica, a qual se repete também em nomes neo-go- 
dos; — v. palmalianas ou palmacianus (D. 1 58, 362) * Fun- 
dum Palmatianum, de Palmatius (notário do D. 5) h. Pal- 
mazão, logar junto á Quinta do Paiço (palatium) freg. de 



(*) Jubainville, Obr. cit. pag. 3y5. 



NATURAF.S K SOCIAKS 



57 



Alvarelhos ; v. aldiani (D. 420, p. 260) * Fim d um cylldia- 
num, de Aldia (test. do D. 49) h. a freg. d'Aldao; d'onde 
se vê que a maneira romana durava ainda, quando já tinha 
expirado a sociedade antiga. 

Além d'este suffixo usaram-se outros na Edade-média, 
dos quaes citaremos — arius (*) ; as três freguezias de Brit- 
teiros — Villa britteiros (D. 420 p. 259) teriam sido primiti- 
vamente um único prédio * Fundus Brittarius, de Bri- 
tus ( 2 ), nome pessoal hispânico. Britto. — v. britíi (D. 420 
p. 25o) é h. uma freg.; com o suffixo — elo, Brittelo — bri- 
telo (D. 1 1 1) uma quinta na freg. de Gandarella; com a mes- 
ma denominação h. duas freg. na provinda. 

Os nomes pessoaes porém, que originam denominações 
de prédios na época asturiana, apresentam-se em geral nos 
D. terminados em — z", antigos genitivos da segunda decli- 
nação, fixadas em patronímicos. Nomes de pessoas, forma- 
dos d'este modo, é certo, encontram-se já nas inscripções 
( 3 ) do período romano, abundando sobretudo nas assigna- 
turas diplomáticas ( 4 ). Se esta maneira foi d 'emprego com- 
mum no domínio romano, o uso do genitivo entre os neo- 
godos prender-se-ha a um costume remoto: em todo o caso 
foi elle que produziu na maioria a designação local que che- 
gou á actualidade, como veremos em seguida. Outros em 
muito pequeno numero, terminados em — es por — is\ repre" 
sentam talvez o genitivo da terceira declinação, e encontram- 



(*, 2 ) Jubainville; Obr. cit. pags. 6i3 e 536. 

( 3 ) Inscripções da citania de Briteiros — CATVRO VIR1ATI ; 
CORONERI CAMALI DOMUS; MEDAMUS CAMALI ; inscr. de Vi- 
zella — MEDAMUS CAMALI. 

v 4 ) Vermudus Lucidi (D. 17); Lacidus Vimarani (ibid. ), Vima- 
ranus (Esp. Sagr. 40, pag. 393); Vimarani lê-se também no D. 76 
como único nome: Froila gundesindi (D. 3i), Gundesindus (Ibid.); In- 
oladins rudesindi (D. 3i), Rudesindus (D. 36); [Menendus menendi (D. 
99), e também em — iz Menendo menendiz (D. 225) ; zArias dagaredi 
(D. 35), Dagaredus (Esp. Sagr. 40, p. 368); etc. etc. 



58 REVISTA DE SC1ENC1AS 



se também n'uma inscripção romana (*); servem para exem- 
plo cTestes os quatro penúltimos da lista que vae seguir-se : 
o ultimo apparecc sem modificação. A radical é quasi sempre 
germânica, mas como encontramos a maioria nos D., desi- 
gnando quer as partes contractantes quer as testemunhas, 
somos levados a crer que taes nomes pertenciam aos pro- 
prietários da restauração neo-goda. 

Por elles explicam se de facto as denominações de mui- 
tas villas; — villa sindini (ipp) ( 2 ) de Sendinu, (26) * Sendi- 
nus hoje Sendim, logar da freguezia de Nevogilde; v. nan- 
dini (41) d: Nandin, Nanduin (F. 932), nas Inquir. d'Afíbn- 
so 11 — Nandim h. a freg. de Landim ; v. vermudi (440) de 
Vermudus (17), nas inquir. d'Affonso n — Vermui, h. a freg. 
de Vermuim ou Vermoim ; v. lusidii (76) de Lucidus (67) 
ou Lucidius (76 not. 1Õ9) h. a freg. de Luzim : v. de ave\a- 
ni (410) oAve\ani (223) de Avezano (E. 40 p. 365) * oAve- 
\anus, nas Inquir. d^ff. 11 — Avezam, h. as duas íreg. d'Ab- 
bação; v. cresimiri, crexemir, creysimir (3 i ,2 23,326) de 
Creximirus, Creiximirus (46, 7Õ) h. a freg. de Creixomil; 
i>. oArgemir * Argemiri (5q5) de Argemirus (E. 40 p. 3q3) 
h. o logar de Argemil, freg. de Santo Thyrso : v. recaredi 
(192) de Recaredus (175) h. Recarei, logar da freg. de Leça 
da Palmeira; v. Vtmaredi, uimarei (595, 796) de Vimaredo 
* Vimaredus h. a freg. da Guimarei ; v. Segefredi (402) de 
Segefredo (400) * Segefredus, h. a freg. de Jesufrei ; v. ui- 
liauredi ou uiliabredi (11 5, 216) de Uiliabredus (58) h. a 
freg. de Guilhabreu (* Gnilhabrei!) : v. gumdiuadi (188, 
21 3) de Gundivado (75) * Gitndivadus, h. Gundivae, logar 
da freg. de Leça de Palmeira: v.fromarici (67) de Froma- 
ricus ou Fromarigus (5, i5) h. Fromariz, logar da freg. de 

(!) ínscr. de ídanha Velha; — QUINTUS. MODIIST1S: PLACIDIA. 
MODIITIS; Hubner, C. I. L. n.° 455. 

( 2 ) Os números simples, que seguem os nomes, indicam o D. 
a letra F. está por Fõrstmann, cAltdeulches T^amenbuch, 'Personenna- 
men: a letra E por Espana sagrada. 



NATURAES E S0C1AES CÇ 



Villa do Conde; v. romaria (71 1) de Romarigus, h. a fre». 
de Romariz : v. ai d 11 ar i ( 1 56, 1 5g) de Aldoard (F. 5'2) h. a 
freg. d'Aldoar : v. atanagildi (7(5, p. 46) de Atanagildo (87) 
* Ultanagildus, h. a freg. de Tagilde; v. de alaulfn * alaulfi 
(76) de Adaulfus ou Ataulfus (53, 81) h. a freg. de Adaufe; 
v. gemundi (?> r j) de Gescmundus (E. 40 p. 356) ou Gem- 
mund (F. 5 14-5 1 5) h. a freg. de Gemundc; v. uiliulfus * ni- 
liulii (496) h. a freg. de Guilhufe ; v. randulfl (420 p. 262) 
de Randulfus (6) h. a freg. de Randufe ou Rendufe (Guima- 
rães) : v. cagiii, caidi, caydi (201, 223 p. 1 38, 420 p. 259) 
de Cagidu (98) * Cagidush. Caide, antiga freg., h. annexada 
á d^Vtães (Guimarães); v. gun^albi (73 1) de Gunzaluus (73) 
h. Gonsalves, logar de Leça da Palmeira : v. gatonis ou ga- 
tones (188, 277) de Gaton (6, 8) h. Gatões, logar da freg. 
de Guifões; v. arones (223) d'Aron (14) h. Arões, duas 
freg. de Fafe : v. vimaranes ou vimaranis (71, 99) de *T)/- 
maranes (Vimara, 6; Vimaranus, E. 40 p. 393) h. Guima- 
rães; atanes (223) de Atan (441) h. a freg. d'Atães: v. ma- 
reais (324) de Marecus (63) h. a freg. de Marecos. . . 

Estes personagens neo-godos denominaram não só pré- 
dios, mas também montes, extensos territórios e monumen- 
tos prehistoricos ; — mons gwidemari (170) de Gundemarus 
ou Gondemaro (ioi, 1 56), Gondomar, h. um concelho e duas 
freguezias : com Adaulfus desappareceu o nome antigo do 
tumulus, ao qual o D. 3o3 chama — m amola de adaulji. A 
transformação das denominações começou pois com a re- 
conquista asturiana, quando apresaria se tornou uma for- 
ma jurídica d'adquirir, jurisprudência que chegou até ao sé- 
culo xi ; em 1045 conta de tauoadelo o D. 340, como Or- 
donio Ranemiriz pressit ipsa villa per potencia. 

Juntamente com as designações pessoaes encontramos 
nos D. outras de diversas origens que vamos agora consi- 
derar. 

Durante o período romano tinha-se estabelecido o uso 



ÓO REVISTA DE SCIENCIAS 



de formar nomes toponímicos de nomes communs por meio 
de suffixos ('). Depois extendeu-se aos prédios a mesma no- 
menclatura, que indicaremos apenas, consoante já fizemos 
com a outra; ao nosso propósito bastam os seguintes exem- 
plos, um de cada formação ; 

v. moraria (99) de morus, h. a freg de Moreira de Có- 
negos ; (481) Moreira da Maia :— v. pinario (275) de pinus, h. 
a freg. de Villar-do-Pinheiro : — v. laureio (210) de laurus, h. 
o logar de Louredo, S. Mamede de Coronado : — v. laurito 
(326) h. o logar de Lourido, freg. de Gandoso (S. Martinho): 
— v. moreirola (281) moreiriola (462) moreirola (571) h. 
Moreiró, logar da freg. da Labruje : 

luparia (22o) de lúpus, h. a freg. da Lobeira : 
território ferraria (755) de ferrum, h. Ferreira: 
villarelio (2 2 3) de villar, h. Villarelho, logar da freg. de 
Serafão ; montelios (17) de mons, h. a Quinta*de Montelhos, 
freg. de Dume; Sautello (Si) de santus ; quintanella (67) de 
quinta, h. o logar de Quintella, freg. d'Argivae ; v. monas- 
teriolo (413) de monasterium, h. a freg. de Mosteiro ou logar 
na mesma (Maia); v. eclisiola (26) de ecclesia, h. a freg. de 
Grijó ; ^. tcroso (2S1) * terroso, de /<?n*tf, h. a freg. de Ter- 
rozo; ;>. villarinu (5o 1) : 

z^. fornos (1 34), vulgar, sobretudo com o suífixo — for- 
nêllo, fornellos; v. retorta (198), h. a freg. da Retorta ; p. 
plana (281) h. a freg de Villa Gham : 

v. monumento, (536); v. hanta (325) h. a freg. da Anta. 
Doesta lista que encurtamos o mais possível, ter-se-ha 
visto que se podem reduzir a seis classes os nomes com- 
muns, usados na denominação das villas : uns derivam-se de 
nomes de plantas, d^animaes, de mineraes e de diversos 
por meio de suffixos ; outros foram empregados sem modi- 
ficação : os dous últimos representam monumentos prehisto- 
ricos. Alguns podem remontar á época romana, mas o maior 

^) Jubainville : obr, cit. pags. 602-634, 52i, etc. 



NATURAES E SOCIAES 6l 



numero pertence visivelmente á Edade-Media, e não poucos 
quando o neo-dialecto estava em via de formação. Obser- 
ve-se ainda que esta maneira de denominar os prédios não 
é privativa nossa, mas de todos os paizes latinos. 

Ao terminar este capitulo, deixariamos uma grave la- 
cuna, se não mencionássemos ainda outra origem de deno- 
minações — as dictadas pelo sentimento religioso, que por 
força havia de deixar vestígios indeléveis n^esta parte da 
toponímia. Dos tempos pagãos resta a villa fano (77) de 
Fanum (*), hoje Fan. E' um dos poucos senão o único que 
se lê nos D., o que facilmente se explica pela absorpção que 
d'elles fizera a piedade christan. Quando em consequência 
das convulsões sociaes que se seguem á queda do domínio 
wisigothico, os cultivadores se reúnem em volta da sua egreja 
rural, não raras vezes substituem o nome antigo pelo do 
santo que tinham tomado por patrono; — vala de saneio 
torquato {22'i) h. a freg. de S. Torquato ; sancti tome (377) 
h. a freg. de S. Thomé de Negrellos. E se o sentimento 
christão nem sempre expunge totalmente a denominação an- 
terior, fal-a preceder pelo menos constantemente pelo nome 
do santo padroeiro ; de tal modo que, se aquella persiste, 
este indica por si só a transformação completa do prédio 
romano e a emergência d'uma nova ordem social. 

Alberto Sampaio. 



i 1 ) J. Leite de Vasconcellos ; Rev. Lusit. I, p. 245. 



MATERIAES PARA A ARCHE0L0G1A 



DA 



COMARCA DE BARCELLOS ( l ) 



Antas e Antellas i 2 ) 



A comarca de Barcellos, e especialmente o concelho de 
Esposende, parece ter sido extremamente rica d'esta espé- 
cie de monumentos. 

D' um, que devia ser de excepcional importância, falla- 
nos Argote (II, pag. i5i). Ficava n'um campo, junto á villa 
d 7 Esposende", debaixo d'um montinho de terra, dos a que 
vulgarmente rTaqueila província chamam Mamôas. 

Esta mamòa e seu conteúdo tinham tido a rara fortuna 
d'escapar até os fins do século xvn ás devastações dos 
sonhadores de thesouros e ás dos proprietários ruraes, mil 
vezes mais damninhos que elles. 

Mas chegou-lhes a vez. 

( d ) Como ha mais d'uma dezena d'annos a serie de interessantes 
notas do sr. Martins Sarmento sobre a archeologia dos concelhos de 
Barcellos e de Vianna, tivesse sido publicada em folhas volantes da 
provinda, e por tal motivo fosse vedado á quasi totalidade dos interes- 
sados o seu conhecimento, deliberou a Revista, obtido o prévio con- 
sentimento do auetor, republical-as; d'esta sorte archivaram-se docu- 
mentos, a bem dizer, quasi perdidos. 

N. da R. 

( 2 ) Sobre o significado que dou a estas palavras vid. ^Pero Gal- 
lego, n.° ii. 



NATURAES E SOCIAES (V 



Uma noite, os devotos de S. Cypriano atacaram cora- 
josamente o montículo mysterioso, a ponto de derrubarem 
um pinheiro que o coroava, e poseram a descoberto uma 
«cazinha fechada de quatro pedras grandes, de seis ou oito 
palmos», por cima das quaes «estava outra que servia de 
tecto». 

Doesta confusa noticia não se pode liquidar se a ma- 
moa cobria uma anta, ou uma antella; mas a insistência de 
Argote em chamar á construcção «cazinha», e a sua conje- 
ctura de que ella servira «d^brigo a alguns pastores ou tra- 
balhadores no tempo dos Mouros, etc», faz crer que um 
dos seus lados era aberto, e por tanto uma anta. 

O valor inapreciável d^ste monumento consistia em 
que todas as suas pedras estavam «debuxadas com vários 
caracteres e figuras.» 

A anta d'Esposende era pois uma digna emula dos fa- 
mosos dolmens de Gavr Innis (França), de New Grange 
(Irlanda) e de poucos mais ! 

Da «forma das figuras» diz o contador não se lembrar, 
«porque se não tomou tento d'isso.)> 

Esqueceu-lhe também tomar tento do nome do campo 
e mesmo do logar; de sorte que a sua noticia se tornou 
absolutamente inútil para os investigadores que se lhe se- 
guiram. 

Um cavalheiro d^Esposende, o sr. doutor Filippe de 
Araújo, a quem me dirigi, no intuito de averiguar se o facto 
narrado por Argote deixaria alguma tradição que auxiliasse 
a determinar o logar da preciosa anta, nenhuns esclareci- 
mentos me poude dar, não obstante a sua muito boa vonta- 
de, que novamente lhe agradeço d'aqui. 

A anta foi certamente demolida e os seus materiaes 
aproveitados, como de costume, em qualquer obra rús- 
tica. 

Não é, porém, impossivcl que algumas d'aqueilas pedras, 
ou inteiras, ou partidas, possam ainda ser descobertas por 



64 REVISTA DE SC1ENCIAS 



quem juntar á boa vontade o interesse e a paciência, indis- 
pensáveis em averiguações d'esta ordem. 

Esse tal fará á archeologia do seu paiz um serviço im- 
portante. 

Ao cavalheiro que nomeei acima devo as seguintes in- 
formações, que vem a propósito vulgarisar. 

Em Esposende são conhecidos os nomes cT antas e Man- 
tinhas. Ignoro porém a difíerença que se marca entre umas 
e outras. As mamôas teem também o synonimo de monti- 
Ihóes. Ha além d'isso as mamoellas ; são mamôas, mas co- 
brem um monumento sui generis, composto de duas pedras 
similhantes a esteios em posição vertical e cuja base pousa 
n'uma espécie de pia. 

Sepulturas d^ste género são vulgares nos arredores de 
Esposende, segundo parece. 

Por mais d'uma vez tenho sido contrariado no projecto 
de visitar esta região archeologica tão promettedora. 

Do concelho d'Esposende apenas conheço a freguezia 
de Villa Chã, de cujos monumentos vou fallar. 

Antas e antellas em Villa Chã — Villa Chã é uma al- 
deia, pobre a todos os respeitos, começando pelas aguas — 
a máxima pobreza dYima íreguezia rural. Certamente por 
este motivo, estão ainda aqui em uzo os moinhos de mão, 
vulgares nas nossas estações pre-historicas, e que eu já vi 
pôr em duvida se teriam força bastante para esmagar um 
/ grão de trigo. Os moinhos de Villa Chã trituram milho e 

mais facilmente triturariam o trigo, se lh'o deitassem. 
/ Rara será a pessoa doesta localidade que ignore o que 

/ sejam mamôas; mas, se se pede informações delias, o in- 

terrogado reflecte um momento e pergunta se é de mamoi- 
nhas que queremos noticias. 

Mamoinha e mamôa não passam porém de puros syno- 
nimos, porque de resto o nome mesmo d'anta ninguém o 
conhece, como o não conhece na freguezia contigua de S. 



NATURAKS K SOUAKK 6< 



Paio cTAntas, que aliás deve o seu appellido a esta velha 
palavra. Aqui nem diurna mamôa pude tomar nota, talvez 
por só deparar com um informador que conhecia pelos livros 
a archeologia da sua terra, e tomava a serio a etymologia, 
já minha conhecida, segundo a qual S. Paio d' Antas é uma 
abreviatura e uma corrupção de «S. Paio e cT antes Belinho». 

Tenho por certo que em S. Paio não hão de faltar an- 
tas. O que me faltou lá foi um João Marucho, o meu cice- 
roni de Villa Chã. 

As mamoinhas que este excellente homem me mostrou 
na sua terra são oito : três na Serra, uma no monte da 
Cerca, três na bouça do Rápido e uma na Portellagem. 

As da Serra ficam á vista umas das outras e quasi em 
linha; a primeira dista da segunda cousa de 3o passos, esta 
da terceira 5oo. A mamoinha do meio conserva ainda qua- 
tro supportes do lado direito e um do lado esquerdo. Era 
inquestionavelmente uma anta. 

As outras duas estão inteiramente despojadas de pedras, 
mas a sua pouca elevação faz crer que cobriam antellas. 

INPum dos supportes da arruinada anta existe a gravura 
grosseira d'uma pequena cruz de braços eguaes, e muito si- 
milhante a outra, que vi na meza d'uma anta de Paranhos 
(Beira) onde ha uma segunda cruz mais aperfeiçoada. Já 
ouvi alvitrar que taes signaes teriam por fim christianisar 
estes monumentos pagãos; eu persuado-me que elles nada 
mais foram que marcas divisórias, cuja memoria se perde 
com o tempo, visto que nem em Villa Chã, nem em Para- 
nhos se sabe hoje explicar a sua serventia. 

Não pude assistir á exploração das três mamoinhas da 
Serra ; por isso só me cabe uma responsabilidade muito in- 
directa no vandalismo dos meus trabalhadores, que, não 
tendo forças para levantar um supporte, que tombou, talvez 
quando lhe desmontaram a meza, o partiram em três pe- 
daços. 

OÁ quclque chose malheur est bonm. 

5 



66 REVISTA DE SCIENC1AS 



A queda do supporte, que, como todos os outros, mede 
onze palmos de altura, tornou defezo aos esquadrinhadores 
de thesouros o terreno subjacente, sendo só ahi que a esca- 
vação deu alguns resultados. Appareceram i3 pontas de 
setta, uma de quartzo, todas as mais de silex ; uma faca da 
mesma matéria; uma ponta de dardo, a acceitarmos a de- 
nominação, que Mortillet, no seu zMusêe Prê-historique dá 
a objectos análogos, e de que o leitor pôde formar uma 
idéa approximada, imaginando uma pequena lima de silex e 
sem estrias ; uma urna funerária, toda requeimada d'um 
lado, da forma d'um pequeno vazo de flores, com uma aza 
só e três pequenas saliências mamillares. 

Além d'isso appareeeram alguns fragmentos de ferro. 

Duas pontas de setta são exactamente similhantes a 
uma que encontrei n'uma antella de Sabroso. 

As três mamoinhas ficam na chapada d'uma elevação, 
que tem o pomposo nome de Serra, mas que mal merece o 
d'outeiro, e podem ser vistas de longe. 

Em regra, tal é a posição destes monumentos sepul- 
chraes, quando não ficavam á beira de caminhos, pedindo 
talvez a esmola d'uma lembrança aos viandantes. 

Mamoinha do monte da Cerca. — O monte da Cerca é 
um outeiro de pequena elevação, que fica a poente e a me- 
nos d'um kilometro da Serra. 

D'onde lhe provem a denominação de Cerca não m'o 
soube explicar o meu guia, bem que já me tivesse fallado 
d^jma parede antiga que circuitava a coroa do monte. Esta 
parede é a primeira fiada d'uma muralha de oito palmos de 
largo e d^pparelho cyclopico, abrangendo um recinto de 5o, 
passos de diâmetro. 

Muito provavelmente não tem outra origem o nome de 
Cerca, que o monte conserva; mas, attribuindo o nosso 
povo aos mouros quasi tudo o que respeita ao seu remoto 



NATURAES E SQG.IAES (q 



passado, (festa vez abre uma excepção: a muralha é obra 
inteiramente anonyma. 

Não descobri vestigios de construcções dentro da linha 
dos muros, nem mesmo fragmentos de cerâmica, a não ser 
um pedaço de tijolo, que podia muito bem ter vindo d'outra 
parte. 

A 44 passos da muralha e a norte d'ella, no mesmo 
planalto, está a mamoinha, de que nos oceupamos, que tem 
22 passos de diâmetro — o diâmetro da maioria das ma- 
môas, que tenho examinado. 

Foi já descoroada ; mas no interior d'ella veem-se ainda 
dous renques de pequenas pedras, três por lado, a aflorar o 
solo, e duas na parte trazeira. 

Tem todos os visos de ser uma antella. 

De largo mede cinco palmos escassos; como lhe não che- 
gou a vez de ser explorada, não sei qual é a sua altura. 

Ainda não vi uma sepultura tão perto d'uma fortifica- 
ção, e para mim é um pouco duvidoso se os dois monumen- 
tos foram contemporâneos. 

Mamoinhas da bouça do Rápido. — Ficam n'uma chã, 
que pega com a raiz do monte da Cerca e a poente d'ell.e. 

São três e distam umas das outras cerca de 55 passos. 
D'uma delias não resta uma só pedra; d'outra existe ape- 
nas uma pedra, que parece ser o supporte d'uma anta; da 
terceira vê-se ainda a coroa de sete pedras estreitas, con- 
servando a sua posição primitiva e formando uma camará 
quasi circular de i m ,25 de largo. 

Ninguém dirá que este monumento, apparentemente pe- 
queno, tenha a altura de 12 palmos. A escavação, que re- 
velou esta particularidade, não produziu nada, nem na ma- 
moinha visinha. 

Para o lado do nascente da camará havia (e ha, por- 
que tudo foi aterrado de novo) uma pequena caixa de pe- 
dra, formada por lousas de granito, tampada e aberta por 



68 



REVISTA DE S CIÊNCIAS 



um lado, que provavelmente conteve uma urna cineraria, 
que os esquadrinhadores de dinheiro encantado destruíram 
certamente, como tudo o mais que encontraram. 

Attenta a altura da sepultura, parece-me que temos 
aqui uma pequena anta. 

Antella da Portellagem — E aantella de maiores di- 
mensões que eu tenho visto. Tem de comprido 4 tn , 10; de 
largo i,5o; d'alto 2 m . 

Uma das tampas, que ainda existe, poderia formar a 
meza diurna pequena anta. Mede i,3o sobre i ,55. 

Toda a caixa está excellentemente conservada por três, 
dos seus lados. 

Fica no angulo xfum campo, mas em terreno deixado a 
bravio; e, segundo diz o dono da propriedade, n'um prazo 
antigo é chamada «a casa da moura». 

Tem sido revolvida muita vez, e, já depois de eu al- 
cançar licença para a explorar, vieram fazer-me concorrên- 
cia alguns crendeiros, que foram mal succedidos na sua pre-: 
tenção. 

A exploração deu apenas três pontas de setía, uma de 
quartzo, duas de silex, e uma pequena urna de feitio diffe- 
rente da encontrada na anta da Serra, mas também com 
uma saliência mamillar. De resto carvão e muito seixo 
meudo. 



Mamôas em Fragoso. — Pelo menos disseram-me que 
era de Fragoso o monte, em que ellas se encontram. 

Sublinhei o nome de monte, para accentuar o facto que 
se repete aqui, como n'outras partes, onde esta palavra se 
toma no sentido de terreno não cultivado. Com eífeito o 
monte de Enfias, que assim se chama o que nos occupa, é 
uma extensa planície de terra safara, sem relevo algum apre- 
ciável. 

As mamôas são cinco, e algumas foram já exploradas 



NATURAES E SOClAES 69 



por um engenheiro do caminho de ferro do Minho, confor- 
me me asseveraram. 

Ignoro os resultados da exploração. Qucr-me parecer 
porém que seriam negativos. Todas as mamôas, onde nem 
uma só pedra resta, apresentam esse aspecto d^assolação, 
que traz logo á idéa o tpsce periere ruince do poeta. 

Na mesma chã, e á vista das mamôas, ha três mon- 
tões de terra de forma elypsoide, todos clles de differentes 
dimensões, um dos quaes, o mediano, tem 45 passos no 
eixo maior, dezeseis no menor. A altura regula por i5 
palmos. 

Um corte em dous d'elles mostra que o explorador dos 
monumentos visinhos se oceupou com este enygma, prova- 
velmente sem o poder resolver, como me suecedeu a mim. 
A exeavação dá indicações d'um trabalho sem frueto. 

São estas as antas e antellas que eu conheço no conce- 
lho de Barcellos. Estou convencido de que um reconheci- 
mento minucioso do terreno descobrirá dúzias d'ellas ; mas 
a tarefa não é fácil sem o concurso de pessoas de cada lo- 
calidade, que tomem algum interesse pelas antiguidades da 
sua terra, e se dêem ao trabalho de as procurar e de as in- 
dicar aos que estão no caso d'estudal-as. 

Vou agora fallar d'outros monumentos, a que darei o 
nome genérico de Castros, por ser essa a denominação po- 
pular mais favorita das nossas antigas povoações em ruinas. 

Infelizmente, também n'este ponto, só cenheço no con- 
celho de Barcellos o a Alto da ponte», S. Bartholomeu, e o 
monte da Saia. 

F. Martins Sarmento. 



VARIA 



NOUVELLES DONNÉES SUR LE JURASSIQUE 



DE 



L/AFRIQUE ORIENTALE 



L'élan qui, depuis quelques années, se manifeste dans la colonisation 
de 1'Afrique, a eu comme résultat accessoire un avançement considé- 
rable des connaissances scientifiques sur ce vaste continent, qui bientôt 
ne pourra plus être qualifié de mystérieux. 

Cest déjà le cas pour les régions septentrionales, accessibles aux 
Européens. L'Algérie, dont la géologie est depuis longtemps plus avan" 
cée que celle de plusieurs pays de 1'Europe, la Tunisie (í), dont 1'élude 
scientifique amarché de pair avec Tavancement de 1'armée française et 
1'Egypte qui a déjà fourni le sujet d'irnportantes monographies paléon- 
tologiques et géologiques. 

La géologie de 1'Afrique équatoriale est bien moins connue. II y a 
quelques années, nous avons résumé ce qui intéressait le plus la géologie 
des colonies portugaises (2); depuis lors, il a paru de nombreux écrits, 

(1) Nous citerons: TJescrip'ion des fossiles recu Mis dans les Ter-ains secondaires et 
tertiaires de la région sui des Hauts-plateaux de la Tunisie, recueillis en i88j et 1886 
par [M- Ph» Thomas, ouvrage faisant partie de V&xploration scientifique de la Tunisie, 
publié par lc gouvcrnemcnt français. 

Aubert. Carte géologique de la régene de Tunis, 1:800.000, publiée par ordre du 
gouvernement tunisien, Paris, 189J. 

(2) 1886. Sobre os terrenos sedimentares das províncias da Africa, e considerações so- 
bre a geologia d' este continente. (Boi» soe. geogr. de Lisboa, 7." serie). 

1887. Afrique australe et équatoriale (Revue géol. de 1'Annuaírc géol. Universel). 

1888. Choffat et de Loriol. ÍMatêriaux pour Vètude stratigraphique et paléontologique 
de la province d' Angola. Genéve, 4. , 116 p., 8 pi. 



NATURAES E SOCIAES 71 



dont le resume constituerait assurément un travail fort intéressant. Pour 
le moment, nous nous bornerons à une simple citation de 1'ouvragc princi- 
pal, les Lettres sur le Congo, publiées en 1889 par M. E. Dupont, le sa- 
vant directeur de la carte géologique de la Belgique, afin de pouvoir 
nous étendre davantage sur une publication plus modeste, mais qui donne 
lieu à des vues nouvelles sur 1'extension et la composition du Jurassique 
dans 1'Afrique orientale. 

La première preuve de 1'existence des terrains jurassiques dans 
1'Afrique orientale consiste en une Ammonite rapporlée en 1859 de Mom- 
bassa, par un missionaire allemand. Plus tard, la même localité a été 
explorée par M. Hildebrandt et les fossiles recueillis furent décrits par 
M. Beyrich comme appartenant au sommet du Jurassique supérieur. 

Le Jurassique se trouve aussi plus au Nord, dans le Sud de 1'Abys- 
sinie, ou il a été signalé dês 1870 par M. Blanford, et dans le royaume 
de Chôa, d'oú il a donné lieu à une étude détaillée de M. M. Aubry et 
Douvillé; maisici, il ne presente pas de Céphalopodes et il est bien re- 
connu que ce ne sont que les Céphalopodes qui permettent un parallé- 
lisme rigoureux entre des contrées éloignées. 

Au sud des contrées précitées se trouvent les territoires allemands, 
qui viennent de fournir une belle récolte de Céphalopodes, la plus im- 
portante de toutes celles que 1'Afrique orientale a fournie jusqu'à ce jour. 

La présence de terrains secondaires dans ces parages était rendue 
probable, des 1881, par les écrits du voyageur anglais Thomson, mais ce 
n'est qu'en 1890 et 1891 que les recherches de M. M. Baumann et Stuhl- 
mann ont fait voir qu'il s'agit du Jurassique et ont fait connaitre 1'éten- 
due approximative et 1'allure de ces terrains. 

Les fossiles récoltés par M. Stuhlmann proviennent de Mtaru, sur 
la rive droite du Pangani, vis-à-vis de Chogwe. Depuis ce point, le Ju- 
rassique s'étend vers le S. S. O. jusque vers Msua, étant d'abord paral- 
lèle à la cote, à une distance approximative de 16 kilomètres, tandis 
que vers Msua, il en est separe par 65 kilomètres. 

Gette bande jurassique a une vingtaine de kilomètres de largeur et 
à 1'Ouest est en contact avec les schistes cristallins ; elle forme le pre- 
mier gradin de la partie élevée de 1'Afrique orientale, et parait être limi- 
tée par des lignes de failles, ce qui est aussi le cas pour le Jurassique 
de Mombassa. 

II est possible que le Jurassique s'étende beaucoup plus à 1'intérieur, 
car M. Baumann signale des calcaires à Mlalo dans 1'Usambara et à 
Aruska et d'autres points du Kilimanjaro. II ne faut pourtant pas trop 
s'avancer dans cette conclusion, car les terrains paléozoiques contien- 
nent souvent des calcaires, ce qui est entre autres le cas dans la pro- 
vince d' Angola. 



72 REVISTA DE SCIENC1AS 



Les fossiles recueillis à Mtaru viennent d'être décrits par M. Torn- 
quist (i); ce sont des çAmmoniies appartenant à sept espèces différentes, 
un Nautile, des fragments de Belemnites et un Brachiopode. Ils sont 
plus anciens que ceux de Mombassa et appartiennent à 1'Oxfordien, ou 
base du Jurassique supérieur. 

Ils montrent, comme ceux de Mombassa, une grande analogie avec 
les fossiles de linde, et font voir que les mers de ces deux contré^s étaient 
en communication. D'un autre côté, ils montrent une telle analogie 
avec les fossiles de 1'Europe centrale, que i'on est aussi porte à admet- 
tre une communication entre les deux contré?s. mais cette communica- 
tion ne parait pas avoir eu lieu directement, car le Jurassique de la Sy- 
rie n'est pas analogue à celui de Mtaru, 

L'auteur s^tend à d 1 autres considérations du même genre, qui sem- 
blent prématurées, car les affhurements jurassiques de cette contrée 
sont encore bien peu connus. 

Le Jurassique existe du reste encore plus au Sud, et il y est encore 
moins connu. Quoique l'on ait signalé une trentaine d'espèces fossiles 
du Jurassique de 1'ile de Madagáscar, ii n'y a que 1'étage callovien dorit 
la présence soit rigoureusement dénnntrée (2). Celle du Lias et du 
Bathonien ne repose pas encore sur des données assez positives, et l'on 
n'a aucune preuve de la préience du Jurassique supérieur, quoique le 
Crétacique inférieur y soit bien constate, et premente même une faune 
rappelant celle des contrées méditerranéennes. 

Le Jurassique parait aussi exister dans la province de Moçambique. 
Le seul Ammonite que l'on en connaisse a éíé recueilli en 1843 par un I 
voyageur allemand «au sud du fleuve Conducia, vers son embouchure». 
Malgré la bonne conservation de ce fossile, on ne peut pas dire avec 
certitude s'il appartient au Jurassique supérieur ou au Crétacique infé- 
rieur (3). 

Espéróns qu'un jour ou 1'autre, un voyageur portugais aura assez 
d'intérêt scientinque pour recueillir ou faire recueillir des fossiles dans 
cette contrée, ce qui n'aurait pas seulement comme conséquence de jeter 
un peu de jour sur la constitution géologique de cette province, mais aussj 
de faire avancer considérablement Tensemble de la géographie zoologi- 
que du globe à Tépoque jurassique. 

P. Choffat. 



(1) Dr. A. Tornquist. Fragment einer Oxferdfauna von Mtaru in Deutsh — Ost 
Africa, nach den von Dr. Stuklmann gesammeltem Materi l. (Mittheilungcn des naturhis- 
torischen Museum in Hamburg x. 2, 1893, 26 p., 3 pi. 

(2) Neumayr. Ueber neuere Versteinerungsfunde auf Madagáscar. Ncues Iarbuch fúr 
Mincralogie, etc, 1890, 1. p. 1. 

(3) Neumayr» Die geographische Verbreitung der Juraformation, Wien 1885. • 



NATURAES E SÓCIA ES 73 



SUR QUELQUES FOSSILIS CRÉTACIQUES 

DU GABON 



II y a prés de 20 ans que M. O. Lenz a observe que les iles Elobi 
(Corisco) sont en partie formées par des calcaires marneux renfermant 
des cAmmonites. 

Ges zAmmonites, étudiées par M. S^ajnocha (i), appartiennent 
toutes à Schloenbachia inflata et à des formes voisines, c'est-à-dire 
qu'elles représentent Thorizon supérieur du Grétacique moyen. 

Sur le continent, les rives du Gabou présentent des calcaires aré- 
nacés et des calcaires marneux, superposés aux couches à Schloenba- 
chia inflata, et qui avaient été consideres comme tertiaires, mais de 
nouvelles récoltes, étudiées par M. Kosmat (2), démontrent qu'il s'agit 
de Crétacique supérieur. 

Ges récoltes consistent en Gastrópodes, Lamellibranches, un. our- 
sin et un polypier. Une espèce seulement parait pouvoir être identi- 
fiée avec les espèces connues, c'est une Corbule analogue ou identique 
à une Corbule du Crétacique de 1'Inde. 

Ge nVst pas avec de pareils matériaux que l'on peut établir un 
parallélisme à grande distance, aussi Tauteur va t-il à notre avis un 
peu trop loin en émettant 1'opinion que ces couches sont turoniennes 
ou sénoniennes, et qu^lles fournissent la preuve d'un retrait de la mer 
entre leur dépôt et celui des couches à Schloenbachia inflata. 

II parait en tous cas que le Grétacique du Gabon est loin de pré- 
senter les nombreuses subdivisions que Ton peut observer dans celui 
de Benguella. 

■P. C 



(1) L. Szajnocha. Zúr Kenntniss der mittelcretacischen Cephalopoden Fauna der In- 
seln Elobi an der Wesl-Tcitste Afrikas. (Mtm. de l'Acad. des Sciences de Vienne, 1885 
Vol. XL1X). 

(2) F. Kosmat. Uber cinige Kreideversteinerungen vom Gabun (Gomptes-rendus 
des scíances de 1'Acadcmie des sciences de Vienne, vol. CII, décembre 1893 )• 



74 REVISTA DE SCIENCIAS 



LABORATÓRIO MARÍTIMO D'AVEIRO 



{Continuação J 



Não são, portanto, uma illusão os trabalhos piscicolas e represen- • 
tam as descobertas, que, n'este sentido, fez o nosso século, um progresso 
cujo alcance c escusado apreciar, quando se observa que o paiz mais 
prático que se conhece, a Inglaterra, além da piscifactura annexa ao 
Museu Kensington possue os estabelecimentos pi?cicolas de Goodlake, 
Aldermaston Park, Haybing, Rothbury, Troutdale, Stormennelds, Aber- 
deen e muitos outros (*) contando também o laboratório maritimo de 
Plymouth, tão vasto e tão importante que carece de um director para 
a organisação administrativa e outro para as questões technicas ou scien- j 
titicas. ( 2 ) 

Se ainda, porém, não bastassem os exemplos apontados e as van- 
tagens que sempre se obteem quando se tem em vista os cuidados que 
necessitam experiências delicadas, como são todas as que se referem aos 
phenomenos vitaes, com certeza que seriam sufficientes os factos que 
passamos a apontar. 

Num trabalho publicado na Revue T è clinique de VExposition de 
i8go o snr. dr. Georges Roché, depois de traçar o programma do estu- 
do scientifico da industria da pesca, escreve : «muitos paizes armaram 
navios da sua marinha nacional e construiram laboratórios fixos á beira- 
mar encarregados das investigações thcoricas e praticas relativas aos 
peixes comestiveis, sua permanência e hábitos.» ( 3 ) 

O snr. professor de Lacaze-Duthiers, em 1888, numa conferencia I 
realisada na Associação franceza para o progresso das Sciencias não se 1 
preoccupava com as applicações das notáveis descobertas biológicas que 
diariamente faziam os seus laboratórios e proferia as seguintes pala- 
vras, cheias de desinteresse e d'amor pela verdade e pela sciencia, pa- 
lavras que não só conteem em si o seu maior elogio, mas que devem 
servir de norma á mocidade interesseira a que allude o snr. Rocha 
Peixoto num dos seus folhetins scientificos do Primeiro de Janeiro. (*) 

(i) Vid. F. de Vilhena, Curso de Piscicultura pratica, vol. l.°, pag. 52. 

(2) Vid. Revue Encyclopédique, 1892, coll. 47. 

( 3 ) Vid. Revue cit., 9.° partie, pag. 351. 
(*) Um curso livre, n.° 111, 1893. 



NATURAES E SOCIAES 



75 



«Tantas vezes me tenho cansado, poderia quasi dizer, hei estado 
prestes a desanimar por causa d'uma pergunta que frequentemente me 
tem sido dirigida, que muito temo, n'estes tempos de utilitarismo em 
que vivemos, que não a oiçam ou não a façam a si próprios, aosaird'a- 
qui, aquelles que me escutam e desejaria prevenil-os contra ella res- 
pondendo-lhes adeantadamente. 

«Certamente que me dirão : para que serve tudo isso ? 

«Pois bem, francamente, responder-lhes-hei, primeiramente que, 
sob o ponto de vista das applicaçóes immediatas e praticas não sei abso- 
lutamente coisa alguma. Que a Boncllia aloje na bocca os seus peque- 
nos machos, que a ^\nchorellcv, traga agarrado ao pescoço aquelle 
que se destina a fecundar-lhe os ovos, não vejo no conhecimento d'estes 
actos applicação alguma immediatamente pratica e confesso-lhes que 
de maneira nenhuma me preoceupo com isso; porque na historia da 
sciencia, a cada passo se encontram innumeros factos, cuja importância 
não tinha valor algum na epocha em que se descobriram e que, pouco 
e pouco, acabando por encadear-se e coordenar-se, conduzem a expli- 
cações completamente inesperadas e até a applicaçóes de altissima im- 
portância. Por acaso a propriedade que teem os compostos da prata de 
ennegrecerem quando expostos á luz, por acaso a rã fremente dependu- 
rada na janella de Galvani tinham applicaçóes no principio d'este século? 
D'ahi nasceram, comtudo, a photographia e o telegrapho. 

«Ha alguns annos que se discutia vivamente, sob o ponto de vista 
puramente theorico, quasi que diria dogmático, a existência ou a não 
existência da geração espontânea. Quem a não admittia era retardatário 
e estava fora do movimento, do progresso. Hoje perguntem aos doentes 
o que pensam a tal respeito, elles, cujas maravilhosas curas pelos pen- 
sos antisepticos assemelham a verdadeiros milagres a transformação 
das suas chagas horrendas, em seguida ás amputações e outras medo- 
nhas operações. Tão discutida ha vinte ou trinta annos, não tinha então 
importância alguma pratica a presença dos germens no ar. 

«Quantas doenças, cujas causas agora se conhecem, se. ignoraram 
antes das descobertas da zoologia pura ! O conhecimento dos parasitas 
e das doenças que determinam deve-se inteiramente aos estudos dos 
zoologos, estudos que primeiro se fizeram independentemente de todo 
e qualquer pensamento d'applicação.» (*) 

Mas depois de ter bem assente o caracter desinteressadamente 
scientifico dos seus laboratórios de zoologia maritima é ainda o mesmo 
snr. professor de Lacaze Duthiers que não só allude a um viveiro em 
Banyuls para ahi tentar experiências «sob o ponto de vista scientifico e re- 

(i) Vid. Revue Scienli fique, tom. 42.°, 1888, pag. 207. 



76 REVISTA DE SCIENC1AS 



fercntes a applicações, (*) mas que define o papel de Roscoíf nos termos 
seguintes: «N'um laboratório como o de Roscoíf, consagrado aos estudos 
de sciencia pura, não se pôde tractar duma creação considerável e de 
uma espécie de industria ; mas podem e devem mostrar-se alli factos com- 
provativos,, destinados a servirem de exemplo e permittindo á industria 
apoiar-se n'elles para tentar experiências em maior escala, que devam 
dar productos remuneradores, por isso que não será preciso fazer en- 
saios; bastará imitar.» ( 2 ) 

Será, porém, o inimigo declarado da piscicultura, o já tantas vezes 
citado J. B. A. Rimbaud, que justificadamente afErmou que a «piscicul- 
tura não poderia constituir um systema geral de reproducção» ( 3 ) e que 
«no systema maritimo assim como no systema terrestre a geologia, a 
zoologia e a climatologia encadeiam a sua acção em combinações varias 
que incontestavelmente influem sobre a boa ou má qualidade dos pro- 
ductos» ( 4 ) e que termina o seu livro bradando por uma pesca judicio- 
samente regulada ( 5 ) que fornecerá um documento com que justifique 
os estudos preconisados pelos piscicultores e naturalistas todos para que 
«este precioso suprimento da alimentação não continue a ficar abando- 
nado ao arbitrio do pescador, que explora sem cautela com o seu pró- 
prio interesse, destruindo na própria nascente o material da sua indus- 
tria» ( 6 ), material muito pouco conhecido ainda pelos pescadores (em- 
bora Rimbaud, contradizendo se na mesma pagina da sua obra, aííirme 
o contrario) e «em que nunca houve senão uma regulamentação inspi- 
rada e por assim dizer dictada pelo próprio defeito de imprevisão con- 
tra o que se estabelecia. » ( 7 ) 

Publicando uma carta do cônsul francez Sabin Berthelot em apoio 
do systema de cantonnement, que aponta como único salvador, dando 
d'ahi a entender que a sciencia nada tem que fazer com a pesca não se 
lembrou Rimbaud que n'esse documento está todo um programma com - 
mettido aos laboratórios maritimos. Com cffeito Berthelot escreveu : 
«os deslocamentos que se observam nos peixes que frequentam a zona 
littoral desde a visinhança das costas até aos grandes fundos estão sujei- 
tos ás mudanças alternativas da temperatura das aguas, segundo a varia- 
ção das estações. Estas espécies, na epocha da postura, deixam os seus 



(1) Vid. H. de Lacaze-Duthiers— Archives, cit., pag. 331. 

(2) Vid. H. de Lacaze-Duthiers— Archives. cit., pag. 295. 

( 3 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit., pag. 222. 

(4) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit., pag. 244. 

(5) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob cit., pag. 337. 

(6) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit., pag. 320. 

( 7 ) Vid. J. B. A. Rimbaud— Ob. cit., pag. 320. 






NATURAES E SOCIAES 77 



acantonamentos afim de basearem paragens convenientes para a realisação 
do acto que deve affiançar a reproducção. A maior parte procuram as 
aguas temperadas, os golphos abrigados; umas preferem os bancos d'a- 
reia, outras os fundos lodosos, estas os sitios penhascosos em que me- 
dram os fucus e as algas, aqueilas os abysmos recônditos em que se 
aprazem as madreporas, os coraes e outros zoophytos. As observações 
do commandante Doret, um dos nossos oííiciaes de marinha que fez es- 
tudos que interessam tudo quanto se refere á pesca nas aguas da Man- 
cha, demonstraram que a acção da temparatura sobre os fundos de 
lodo, de conchas ou de herva determina os differentes estádios occu- 
pados pelos peixes e motiva a escolha dos locaes de postura. 

«E tão verdade é isto que vemos variar o systema de pesca segun- 
do a natureza dos fundos e os instinctos dos peixes, que frequentam as 
costas. D'ahi provem a ideia de um plano uniforme de observações e 
investigações que reunisse os dados obtidos nas differentes paragens e 
servisse para o levantamento de cartas ichthyologicas, em que se indi- 
cariam os acantonamentos regionaes occupados pelas diversas espécies, 
as profundidades e a qualidade do fundo, a temperatura das aguas e as 
epochas de postura ou de creação (frai ou alevinage) Por isso que estas 
diversas circumstancias influem na preferencia dada pelos peixes aos 
acantonamentos que escolhem, quer como pontos em que medram, quer 
como logar de reproducção, d'esta serie de pesquizas resultaria o con- 
juncto de elementos para uma espécie de cadastro sub-marino com que 
se apreciaria a riqueza dos nossos fundos de pesca. » (*) 

O que acaba de ler-se confirma exuberantemente que « sendo a 
pesca uma industria scientifica, só scientiíicamente pôde ser regulada e 
protegida ( 2 ) » conforme em outro logar escreveu o auctor d'este traba- 
lho e portanto justifica os laboratórios maritimos ainda nas suas appli- 
cações á industria da pesca, á piscicultura, á zoologia pura e a essa 
sciencia creada nos nossos dias que o snr. professor J. Thoulet denomi- 
nou Oceanographia. 

Voltando, porém, ao assumpto principal d'este trabalho, resta pro- 
curar o exemplo de um laboratório zoológico cuja installação possa 
servir de modelo, sob o ponto de vista da economia, áquclle que para 
Aveiro projecta esta memoria. 

Numa conferencia que em 1874 fez perante a Associação franceza 
para o progresso das Sciencias, o snr. professor Giard relata a fundação 
do laboratório de Wimereux e os motivos que o levaram a escolher 
aquella modestissima localidade do Pas de Galais para ahi assentar a 

(i) Vid. J. B. A. Rimbaud— 0&. cit. pag. 155. 

( ) V A d. Engenheria e Architectura—Yo\. 2.°, pag. 298. 



78 REVISTA DE SCIENC1AS 



sua estação aquicola. Esses motivos são d'ordem geológica, em primeiro 
logar, seguindo se a ligação fácil com Lille e Boulogne-sur-mer por 
meio de caminho de ferro e a ausência de estabelecimento balnear e 1 
luxuosa hospedaria, o que concorre para arredar « essa população 
ociosa e doente, cuja preguiçosa ociosidade é tão incommoda para 
aquelle que trabalha nos portos de mar mais concorridos e de maior 
nomeada » ( x ). 

Quanto á fundação d 1 este estabelecimento que, no dizer do snr. E. 
Réclus, pertence á faculdade das sciencias de Lille, nada mais modesto 
se pôde imaginar, como vae ver-se pelos extractos de conferencia do snr. 
Giard. 

« A cidade de Lille, disse, acabava de me conceder, em frente dos 
edifícios da faculdade, muito acanhados para os serviços que encerram 
uma casa espaçosa em que hão de installar se, no anno que vem, os 
laboratórios de histologia, anatomia e physiologia. . . Gomprehende-se | 
que depois de semelhante favor não podia recorrer á nossa cidade, cu - 
jos encargos já eram tão pezados, para a empreza que queria tentar em 
Wimereux. Dirigi portanto os meus pedidos ao ministério. Infelizmente 
as dotações muito restrictas, com destino ás necessidades mais urgen- 
tes das diversas faculdades, não consentiram ao snr. ministro que nos au- 
xiliasse n'essa circumstancia. Foi então que me resolvi a emprehender 
só com os meus recursos a primeira installação do laboratório de Wi- 
mereux. Em breve recebi o mais dedicado auxilio da maior parte dos 
meus alumnos, os snrs. H. Leloir, Ch. e J. Barrois, Dutertre e de Guer- 
ne, que patentearam o mais louvavavel zelo em favor do êxito da nossa 
obra. Também fui muito bem coadjuvado pelo snr. P. Hallez, meu pre- 
parador, a quem me compraso aqui em agradecer a dedicação que sem- 
pre me testimunhou. 

«Se entrei n'estes minuciosos promenores da nossa miséria é por 
que tenho interesse em lhes explicar, desde já, tudo quanto o nosso la- 
boratório marítimo ainda appresenta defeituoso. Sabem o que podem 
ser as economias d'um professor substituto nas nossas faculdades fran- 
cezas. Encarreguei-me do local, dos vidros e aquários. Os meus alum- 
nos trouxeram os seus instrumentos de trabalho e uma parte dos livros 
indispensáveis. O estado das nossas finanças não nos consentiu que ti- 
véssemos um servente n'esse anno; fomos portanto nós próprios obriga- 
dos a fazer todo o serviço d'adaptação de casa, encher e vasar os aquá- 
rios, transportar, a baldes, a agua do mar de que precisávamos, limpar 
e conservar os instrumentos de dissecção que tão rapidamente se dete- 
rioram com o contacto da agua salgada. 

(*) Revue Scientifique. Tom. XIV.* pag. 218. 



NATURAHS E SOCIAMS 



79 



«Apezar d'esta modestíssima installação, n'esse anno corrente subi- 
ram as nossas despezas a cerca de 3:ooo francos, em que se incluem 
1:000 francos para o aluguer da casa, desde i5 de junho de 1874 até i5 
de junho de 1875.» (*) 

Em seguida passa o snr. Giard a relatar as observações que fez 
com as Noctilnca miliaris, a cujos sporos é devida a phospherescencia 
do mar, com as gregarinas, radiolarios, rhizopodes e duas actinias para- 
| sitarias dos copépodes e dos bryozoarios e bastantes spongiarios, aponta 
os trabalhos d'embryogenia do seu discípulo, Ch. Barrois, a respeito dos 
calcispongiarios, designa bastantes espécies de animaes inferiores, que 
se encontram na praia de Wimereux, falia nas investigações d'outro seu 
discípulo, J. Barrois, referentes aos apparelhos de circulação e digestão 
nos nemertideos, indica dois trabalhos do seu preparador relativos aos 
turbellariados, de que estudou «muitas espécies marítimas ainda inédi- 
tas na maior parte», allude á descoberta d'uma nova espécie SAmaroe- 
cium e agita varias questões de zoologia, designando o nome dos ani- 
maes que se encontram em Wimereux e termina por indicar os estudos 
que fez com typos zoológicos deprimidos pelo parasitismo ( 2 ). 

Da conferencia apontada conclue-se que a despeza foi de 2:000 
francos ou 180I000 reis para renda de casa. 

O preço da casa para o laboratório, ao juro de 6 % ao anno, cor- 
responde a um capital de 3:ooo,$ooo reis e portanto, pondo de parte 
os 2:000 francos que representam gastos correntes ou de ensino e a 
cuja despeza tacita e até moralmente se obrigam as escolas em que se 
professam sciencias naturaes, deve concluir-se que aquelle seria o li- 
mite máximo do dispêndio para a casa em que se estabelecesse uma es- 
tação aquicola. 

Observe-se, porém, que, em casa de propósito para lai effeito é 
preciso que se construam os aquários, que se assente uma machina para 
elevar a agua, que se façam as indispensáveis canalisações e que se mo- 
bile. Se se suppozer que essa despeza dobra o capital acima indicado, 
para que elle fique amortisado, ao juro de 6 %, em 20 annos, teria que 
pagar-se no fim de cada anno uma annuidade de 533#20o reis. 

Seria, pois, impondo-se a condição de não gastar mais de seis con- 
tos de reis, que se projectaria um laboratório marítimo em Aveiro. E 
certo que d'essa maneira não se faria um edifício com jardins e estatuas 
como RoscofF ou Banyuls-sur-Mer, espaçoso como Saint-Waast de la 



(t) Vid. Reme Scientifique. Tome XIV. e pag. 218. 
(2) Tudo quanto mal se aponta nas linhas precedentes acha-se na 
Revue Scientifique em mais de 300 linhas distribuídas em seis columnas. 



$0 REVISTA DE SCIENC1AS 



Hougue, luxuoso como Plymouth ou Nápoles, mas teria as precisas 
installações para preencher o fim para que se cria. 

Considerações d'esta ordem, que alargam a área das investigações 
commettidas ao projectado laboratório, e que mais extensamente se ex- 
põem no capitulo seguinte, difficuldades na escolha dos instrumentos 
para as investigações physiologicas, de tal ordem e tão importantes que 
nem o eminente naturalista snr. de Lacaze-Duthiers conseguiu resol- 
vel-as, modificarão a condição do preço indicado. 

E não se pense que as difficuldades na escolha do material para 
estudo sejam de somenos importância por isso que a tal respeito es- 
creve o snr. de Lacaze-Duthiers. «Duas ou três mezas poderão servir 
para as investigações physiologicas. Mas experimentei graves difficul- 
dades com a escolha das ferramentas que alli deviam collocar-se, que 
variam, por assim dizer, com cada trabalhador e quasi também com 
cada assumpto d'estudo. 

A quatro physiologistas eminentes pedi que me dessem um pro- 
gramma de installação. Cada um me deu projectos differentes. 

Um que via que só os gazes são dignos d'estudo pedia bombas de 
mercúrio e um conjuncto de instrumentos muito caros. 

Outro só pensava nas investigações chimicas propriamente ditas e 
por isso só pedia uma collecção de reagentes e recipientes, fornos e ba- 
lanças de alto preço. 

O terceiro, exclusivamente, queria occupar-se de spectroscopia e só 
comprehendia um gabinete de physiologia que correspondesse aos seus 
desejos. 

O quarto, estudando principalmente as influencias de electricidade 
sobre os animaes, queria todo um conjuncto de instrumentos que cor- 
respondesse ao emprego d'aquelle agente. 

E o methodo graphico só por si representava a immobilisação de 
sommas importantes. Eram precisos diapasões, reguladores, e regista- 
dores. 

Cada um, vendo apenas o fim que se propunha, pedia uma orga- 
nisação especial e completa ; para satisfazer todos os desejos seria pre • 
ciso dispender mais consideráveis quantias do que o permittiria du- 
rante muitos annos a totalidade das dotações á minha disposição. De- 
mais não deve perder-se de vista uma consideração : os investigadores 
que vêem do interior das cidades em que tudo está em boas condições 
de conservação esquecem quasi sempre o que é a deterioração determi- 
nada pelo ar húmido do mar que penetra em toda a parte sem poder 
evitar-se» ( 4 ). 

(i) Vid. H. de Lacaze Duthiers.— Archives cit., pag. 273. 



NATURAES E SOCIÀES 8l 



Em consequência, no limite de seis contos de reis já indicados não 
entra o preço da mobilia e material necessário para o laboratório marí- 
timo e até este preço será um pouco excedido, attenta a extensão dos 
estudos de mesologia e oceanographia que se projectam executar c para 
os quaes se reserva logar especial; estudos, de resto, justificados pelo que 
se verá no capitulo seguinte. 



Sufíicientemenie reconhecemos que o esta- 
do vital por sua natureza suppõe o concurso 
necessário e permanente, com a acção própria 
do organismo, d'um certo conjuncto d'acções 
externas convenientemente moderadas sem as 
quaes seria impossível conceber aquelle estado. 

A influencia real do meio sobre o organis- 
mo não podará ser estudada racionalmente 
emquanto a constituição própria d'esse meio 
não for previamente em si própria conhecida 
com exactidão. 

Auguste Comte— Oours de Philosophie Po- 
sitive, 3. e vol. 



IÍI 



Destinado, como é pela sua natureza especial, um laboratório de 
zoologia marítima ao estudo das condições biológicas dos seres que vi- 
vem nos mares, tendo por fim, na phrase de um publicista francez con- 
temporâneo, «restringir todos os dias o domínio do desconhecido» (*) era 
natural que nas investigações a que tem que proceder aquelle estabele- 
cimento se deixasse logar disponível para os trabalhos referentes ao estu- 
do da circumfusa, conforme lhe chamou o dr. J. F. de Macedo Pinto ( 2 ) 
ou da mesologia, como hoje se diz. 

Na classificação dos meios, dando a esta palavra o sentido que lhe 
attribuiu Auguste Comte «para designar especialmente, de um modo 
claro e rápido, não só o fluido em que mergulha o organismo mas, em 
geral, o conjuncto total das circumstancias externas de qualquer ordem 

( 4 ) Vid. le Petit Journal, 27 de Junho de 1891, n.« 10:410. 

( 2 ) Vid. Macedo Pinto, Compendio de Veterinária, 2.° vol , pag. 289. 



NATURAES E S0C1AES 8'j 



necessárias á existência de cada organismo determinado») (*) aquclle phi- 
losopho dividiu em duas grandes classes as condições externas da exis- 
tência fundamental dos corpos vivos, segundo a natureza physica ou me- 
chanica c chimíca ou mollecular d'aquellas condições ( 2 ) incorporando, 
para completar o estudo da theoria da influencia physiologica das con, 
diçóes molleculares, «pelo menos a titulo d'appendice essencial, a ana- 
lyse racional das modificações especiaes mais pronunciadas que a certos 
organismos imprimem certas substancias correspondentes » ( 3 ). 

Partindo d'estes principios justificados se tornam no laboratório, que 
se projecta, os estudos de mineralogia e geologia maritima, os que se 
referem á pressão do meio fluido, á temperatura das aguas, sua densida- 
de, quantidade de gazes dissolvidos — salsugem etc, e n'esses termos se 
reservam, comprehendendo a arrecadação, quatro compartimentos para 
esse effeito. 

Demais, indispensáveis são os conhecimentos que ali se podem ad- 
quirir, por isso que pôde dizer-se que o ser vivo é o integral das condi- 
ções do meio em que se encontra e, no caso de que se occupa este tra- 
balho, pôde, com o snr. professor Thoulet, escrever-se que «o ser que 
vive nas aguas, planta ou animal, é um instrumento de physica cujas in- 
dicações são extremamente complicadas, porque dependem, ao mesmo 
tempo, de condições physiologicas e physicas do meio ambiente, compo- 
sição chimica, temperatura, densidade, agitação das aguas, configuração 
e natureza do solo immerso. A cada estado physiologico corresponde um 
modo especial de equilíbrio do meio. Se deixam de ser convenientes as 
circurnstancías, o animal sempre pôde fugir e a planta morre. De toda a 
maneira a presença ou ausência do ser vivo é a indicação e a medida de 
um conjuncto de condições physicas» ( 4 ). * 

Para mostrar ainda que o logar reservado n'este estabelecimento 
para os trabalhos oceanographicos não representa mais do que um 
modo de pensar geral, alguns exemplos bastarão, sendo a interessante no- 
ticia que o snr. professor Thoulet intitulou Princípios scientificos das 
grandes pescas que os fornecerá. 

«A commissão dos estudos scientificos dos mares allemães, de 
Kiel, escreve, possue dezoito estações maritimas em que diariamente se 
observam a temperatura e densidade do mar, correspondendo-se com as 
vinte e uma estações dinamarquezas e com as estações hollandezas. 

í 1 ) Vid. Augusto Comte, Cours de Phil. Pjsilive, 3.° vol. pag. 209. 
t 2 ) Vid. Auguste Cornte, Cours cit., vol. cit, pag. 432. 

( 3 ) Vid. Auguste Conote, Cours cit., vol. cit. pag. 48. 

( 4 ) Vid. Revue générale des soiences purés et appliquées, l. e année. 
1890, pag. 137. 

* 



84 REVISTA DE SCIENC1AS 



«Na Noruega o professor H. Mohn, director do Instituto meteoro- 
lógico, o sábio director das fecundas campanhas do Voringen, no Mar 
do Norte, publicou no Morgenbladet de Christiania, no começo de 1889, 
um artigo intitulado «A temperatura do mar e a pesca nas ilhas de Lof- 
foden». Partindo d'este facto, reconhecido pelos officiaes que fiscalisam a> 
pesca do bacalhau n'aquellas paragens, que elle nunca deixa a agua cuja 
temperatura varia de 4 ° a 5.° centígrados, concluiu que era preciso en- 
carregar um vapor do estado de seguir constantemente, por meio de 
sondagens thermometricas durante toda a estação da pesca e ao longo da 
cordilheira de Loffoden, aquella camada isothermica, avisando regular- 
mente da profundidade d'ella os pescadores, d'ora avante certos de en- 
contrarem sempre bacalhaus i 1 ). 

«A Fishery Board for Scotland (Junta das pescas para a Escócia), 
continua, tem como fim especial das suas investigações a industria da 
pesca. Desde 1808 até 1882 a fiscalisaçáo das pescarias escocezas esteve 
a cargo dos commissarios das pescarias britannicas do harenque branco. 
Os resultados medíocres de esforços dedicados, mas limitando-se apenas 
ás questões industriaes, technicas e administrativas obrigaram a reco- 
nhecer a necessidade absoluta de dar amplo logar ao elemento scienti- 
fico puro. A despeito d'algumas resistências organisou-se o serviço, ob- 
teve-se um laboratório em Santo André e o concurso da Universidade 
de Edimburgo, adquiriu-se um pequeno vapor, o Garland, e tractou-se 
cTaproveitar os barcos do Estado destinados á guarda da pesca e tempo- 
rariamente postos á disposição dos sábios. 

«Em três capítulos se divide a obra da Junta (^Board): 
i. a Parte technica — Estudo geral das questões referentes á pesca, 
apparelhos de pesca, seu effeito sobre os fundos, destruição dos peixes 
pequenos, isca, estatística, fiscalisaçáo das regiões de pesca, conserva- 
ção do peixe. 

2. a Parte biológica — Fauna marítima, estructura, distribuição, mi- 
grações, alimentação, costumes dos peixes, crustáceos e molluscos co- 
mestíveis. 

3. a Parte physica — Investigações acerca da temperatura, densida- 
de, salsugem e composição das aguas nas proximidades da costa ( 2 ). 

«Em resumo, conclue, a cultura das aguas doces ou salgadas deve 
basear-se em princípios rigorosamente scientificos e exactos, topogra.. 
phia dos fundos, geologia, propriedades physicas e chimicas, representa- 

(1) Vid. Revue générale cit., pag. 139 e Engenheria e ArchUectura y 
2.° armo, pag. 298, principalmente para as consequências que d'esta obser- 
vação resultaram na descoberta do banco d'Arguin, na costa do Senegal. 

(2) Vid. Bevue générale cit., pag. 139. 



NATURAES E SOCIAES 85 



das e resumidas em mappas, levantados por curvas isobathicas, com áreas 
aquarelladas e schemas coloridos. O trabalho serio do naturalista co- 
meça realmente só depois do acabamento d'este trabalho preparatório. 
Deve-se preferir á multiplicidade das observações a qualidade d'cllas, 
isto é empregar de preferencia um pessoal restricto, illustrado, compe- 
tente e hábil, munido de instrumentos delicados, cuidadosamente afíeri- 
dos; substituir os estudos geraes por estudos que se refiram a localida- 
des definidas, mas absolutamente completos e de indiscutível exacti- 
dão» ( 1 ). 

Também o snr. professor de Lacaze-Duthiers escreveu: «Bastas ve- 
zes se fazem experiências em piscicultura e ostreicultura sem previas 
informações sufficientes acerca das condições biológicas necessárias no 
desenvolvimento dos animaes que se semeiam e por isso se fica exposto, 
d'este modo, a grandes erros ( 2 ). 

Portanto o laboratorio-maritimo que se projecta obedece ao pro- 
gramma da Fishery Board, cujos pontos mais importantes se indicaram 
já n'esta memoria por meio das transcripções do prologo da s Policia da 
exploração das aguas do snr. J. C. Correia e de parte da carta de S. 
Berthelot. que publicou o commissario Rimbaud. 

Posto isto resta descrever as condições locaes do laboratório ma- 
rítimo, os meios com que se conta para a execução d'elle, as obras que 
determina a adaptação do edifício, em que se pretende installar este es- 
tabelecimento e a mudança de officinas a realisar. 

Em seguida passar-se-ha a examinaras condições technicas do edi« 
ficio que se projecta. 



(1) Vid. Ileoue générale cit., pag. 140. 

(2) Vid. H. de Lacaze-Dutuiers, Archives cit., pag. 296. 






O Estado tem recursos e deve applical-os 
de modo a tirar d'elles o máximo proveito. 

Rodrigues de Freitas.-— Principias de eco- 
nomia politica. 



IV 



Assentes os princípios que scientificamente justificam a crenção 
d'um laboratório de zoologia maritima em Aveiro, resta tractar da es- 
colha do local em que deve edificar-se semelhante estabelecimento e 
investigar os meios de que lançar mão para crear receita que, não one- 
rando o Estado, permitia levar a effeito tão inaddiavel emprehendi- 
mento. 

Na memoria que apresentou no Congresso pedagógico de Madrid 
(1892) o snr. Rocha Peixoto parece querer commetter os encargos de tal 
construcçáo á junta geral, municípios e juntas de parochia que concor- 
reriam com a cedência gratuita de terrenos, materiaes de construcçáo, 
mobiliário, subsídios por uma só vez e annuaes, acerescendo a isto dadi- 
vas de particulares constantes de barcos, machinas de vapor, bombas, 
dynamos, material de laboratório, livros e ainda auxílios pecuniários e fi- 
cando ao estado o encargo do pessoal (*), tudo a exemplo do que se faz 
no estrangeiro. Em Portugal, comtudo, não me parece que tal emprehen- 
dimento assim fosse viável por isso que attribulada é já a vida financeira 
dos municípios, que abandonam até a conservação das estradas municí- 
paes e entregam a construcçáo da maior parte d'ellas ao poder central; 

(!) Vid. Rocha Peixoto — Estações d' aquicultura, pag. 15. 



NATURAES E S.0C1AES 87 



outros serviços municipaes importantes, taes como os de hygienc e sa- 
neamento, em todo o paiz, se encontram inteiramente descurados c na 
maior parte dos casos nem sequer d'elles se tracta no papel. Não é, cer- 
tamente, entre nós que se vêem cidades como Bambury, Croydon, Dover, 
Maclesiield e outras, que apenas contam de 10 a 3o:ooo habitantes e 
gastam muitos milhares de libras com os trabalhos de saneamento. 
Confiar, portanto, ás corporações administrativas a construcção de um 
edifício, cuja utilidade de prompto não alcançariam perceber, seria ar- 
riscado para o êxito de tal empreza, ainda quando se apontasse o exem- 
plo de Banyuls-sur-mer que offereceu para a construcção do seu labo- 
ratório um terreno, um grande barco de pesca e 25:ooo írancos (reis 
4l5oo$ooo) e isto quando o phylloxera já tinha destruído em grande 
parte as vinhas que constituiam a principal riqueza d'aquelle municipio. 
Merecido é, portanto, o elogio que nas seguintes palavras áquella terra 
dirige o snr. professor de Lacaze-Duthiers : « não é notável ver-se um a 
pequena cidade da fronteira bem longe dç, Paris, na occasião em que a 
ameaça um temeroso inimigo, impor a si própria um grande sacrifício, 
votar uma pensão annual, pagar uma parte da construcção, adquirir o 
terreno para a edificação, fazer uma subscripção e em ultima analyse gas- 
tar uns trinta mil francos » ( r ). 

Os subsídios de particulares para o custeio de emprezas scientifi- 
cas são raros no estrangeiro pois que se aponta o caso do telescópio de 
lord Ross, a fundação do observatório astronómico e meteorológico de 
Mont'Gros, perto de Nice, devida ao banqueiro BischofFsheim, que ali 
gastou quatro milhões e meio de francos e que foi quem deu a machina 
de vapor do laboratório de Banyuls ( 2 ), o custeio d'algumas expedições 
polares, os legados ás academias scientificas para a instituição de pré- 
mios a memorias sobre assumptos que são postos a concurso, sendo 
n'este sentido o mais fecundo em resultados aquelle que deu origem á 
Smithsonian Institution, nos Estados Unidos. Em Portugal, a não ser 
os prémios litterarios e scientificos instituídos por El-Rei D. Luiz e dis- 
tribuídos pela Academia Real das Sciencias, parece que não se conta 
outro exemplo. 

Precários seriam, portanto, os recursos apontados pelo snr. Rocha 
Peixoto, mas tão importante é a região denominada Ria d'Aveiro que 
ella própria pôde fornecer amplamente os fundos para o custeio das 
obras a emprehender com o laboratório projectado. 

Com eífeito o numero 4. do art. 21. do decreto n.° 8 de 1 de de- 

(i) Vid. H. de Lacaze-Duthiers. — Archives cit, pag. 301. 
( 2 ) Vid. H. de Lacaze-Duthiers — Archives, pag. 307 e para a biogra- 
phia de BischoíTsheim — La grande Encyclopèdie, tomo 6.°, pag. 928. 



88 REVISTA DE SCIENC1AS 



zembro de 1892 designa como receitas das circumscripçóes hydraulicas 
para serem applicadas ás obras executadas na mesma circumscripção, 
conforme o governo ordenar, o producto da venda dos areaes, mon- 
chões, camalhóes ou quaesquer terrenos do dominio do estado situados 
dentro do perimetro das circumscripçóes hydraulicas respectivas, que 
sejam vendidos com auctorisação do governo. N'essas condições se en- 
contram 588o42 m3 ,40 de terrenos alagados comprehendidos entre a 
mota sul do canal do Espinheiro ao Forte da Barra e a mota norte do 
esteiro do Oudinot (Desenho n.° 1). É certo que se aquelle terreno fôr 
vendido n'um só lote poucos o poderão adquirir e portanto não abran- 
gerá o preço que se obterá se se repartir em pequenas parcellas inferio- 
res a um hectare, pois que d'esta maneira se encontrarão compradores 
para o adquirirem por preços não inferiores a 5o reis cada metro qua- 
drado. Terrenos de idêntica natureza são aqui correntemente expro- 
priados e vendidos por quantias que, as mais das vezes, ultrapassam a 
que se indica; mas deve ter-se bem em vista que semelhante resultado 
só se poderá obter quando á praça concorram pequenos proprietários, 
de maneira que grande seja a concorrência. 

Não pôde ser objecto do actual projecto a divisão parcellar do ter- 
reno indicado cuja alienação em nada prejudica o regimen hydraulico 
da ria; portanto, quando o governo entendesse dever levar a effeito a 
creação da estação zoológica de Aveiro poderia contar que, para custeio 
da despeza a emprehender, teria a somma de 29:402$ 120 reis, que po- 
deria realisar de prompto ou á medida que carecesse de capitães para 
execução das obras. 



(Continua) '. 



J. M. de Mello de Mattos 

Engenheiro. 



BIBLIOGRAPHIA 



António dos Santos Rocha — Antiguidades prehistoricas 

DO CONCELHO DA FlGUEIRA Memori oferecida ao Instituto da Coim- 
bra. (Segunda parte), i vol. in-4. , 45 pag. e 5 est. lith. — Coimbra, 1891. 

O incansável paleoethnologo do districto de Coimbra faz com 
este volume seguimento á sua memoria sobre a civilisação neolithica 
da bacia do Mondego, apresentando-nos o resultado das pesquizas 
realisadas depois de 1888. 

O bom methodo de exposição que adoptara na Primeira parte, 
segue-o o auctor n'est'outro trabalho que o divide portanto em duas 
outras : a Noticia discriptiva, na qual successivamente descreve os 
differentes monumentos explorados e analysa o mobiliário paleoethno- 
logico respectivo ; e as Considerações ethnographicas em que tira, á 
face dos materiaes recolhidos, as suas conclusões sobre o estado civi- 
lisador da população que, numa epocha remotissima, vivera n^quelle 
pedaço do nosso território. 

O snr. Santos Rocha começa por nos mostrar as ruinas de Porto 
Saboroso. N 1 este local existia um montículo de terra a que a gente 
d'ali dava o nome de Mamoínha de Porto Saboroso. Procedendo-se a 
uma excavação, deu-se, no seio do monticulo, com os alicerces de uma 
casa de forma rectangular, de dentro da qual se extrahiu grande 
quantidade de restos de louça, pedaços de tijolo, conchas bivalvas e 
ossos d^nimaes, tudo isto misturado com carvão e cinzas. 

Este entulho assentava n'um solo duro e compacto, que o nosso 
archeologo presumiu e com razão, ser o pavimento da casa, determi- 
nando mesmo o ponto aonde fora o lar. 

Tornando os restos da habitação contemporâneos das ruinas da 
Espadaneira (*), o snr. S. Rocha ficou, no entanto, impressionado com 

(!) O snr. S. Rocha dá-nos uma noticia ligeira d'estas ruinas no n.° 6 d'esta Re- 
vista. Por essa noticia e pela descripção da casa de Porto Saboroso vejo que essas ruinas 
se ligam com as de Sabroso e com as da Cividade de Bagunte (Villa do Condel explorada 
pelo meu amigo c distincto paleoethnologo Ricardo Severo, de collaboração commigo. Estas 
problemáticas estações que cobrem os planaltos minhotos, representam a civilisação que 
reinava no nosso paiz quando os romanos o invadiram. São portanto pre-romanas. 



90 REVISTA DE SC1ENC1AS 



o apparecimento de fragmentos de lage de grés vermelho, rocha não 
existente na localidade, o que o levou a continuar a excavação para 
baixo do pavimento da casa até ao solo natural. 

O exame minucioso do entulho extrahido deu em resultado o rc- 
colherem-se os seguintes objectos : 

— Uma ponta de frecha d'osso, com pedúnculo. 

As pontas de frecha em osso com esta forma são rarissimas nos 
mobiliários neolithicos e, parece-me, a da Mamoínha de Porto Sabo- 
roso é a primeira recolhida em Portugal. O snr. Issel (*) encontrou duas 
do mesmo typo na Caverna d'elle Arene Candide (Liguria) « fra gli 
oggeti piú notevoli rinvenuti n^lla grotta ». 

— Duas outras pontas de silex das quaes uma apresenta n^m 
dos bordos lateraes o gume da lamina da faca d'onde teve origem. 

Esta ponta não deve entrar no género das frechas de gume trans- 
versal e eu perfilho a opinião do snr. S. Rocha de que ella era utili- 
sada pela ponta maior. 

— Dous percutores de quartzo, um fragmento de núcleo, cinco 
fragmentos de louça análogos aos encontrados nas antas da mesma re- 
gião, ossos d'animaes, bocados de carvão e cascalho. 

Todos estes objectos são neolithicos ; e portanto o nosso paleoe- 
thnologista conclue que as ruinas de Porto Saboroso representam um 
tiimiilus violado pelos constructores da casa que o encimava, para a 
qual elles extrahiram e partiram as lages do megalitho, dispersando 
os ossos humanos n'elle sepultados e o seu mobiliário neolithico. 

Uma não menos interessante descoberta foi a das sepulturas da 
Asseiceira, das quaes o snr. S. Rocha, explorou uma que se achava 
embutida numa barreira de i m , $ o de altura. Era uma camará rectan- 
gular, formada por lages de grés e de calcareo tendo o m , 75 de compri- 
mento, o m .=)2 de largura e o m ,Ó4 de altura. Ao escavar o seu interior, 
encontraram-se, na maior desordem, fragmentos de craneo, clavícula, 
humero, rádios, fémur, cubitus, tibia e peroneo, pertencentes, uns a 
individuos adultos outros a creanças. De mistura com elles não se en- 
controu característico algum industrial pelo qual se pudesse inferir a 
edade do jazigo. 

No entanto, considerando aquelles restos osteologicos, o snr. S. 
Rocha chega ás seguintes conclusões: i.° — que o seu estado de de- 
composição parece egual ao dos ossos recolhidos nas antas dos arre- 
dores de Brenha; 2. — que os ossos estão mais ou menos fendidos no 
sentido longitudinal e transversal como os encontrados n^quellas an- 

(1) Scavi recenti nclla caverna d'elle Arene Candide in Liguria, in, Bullettino di 
Palethnologia italiana, n. " 7-S. 1886, pag. II 7, est. 4.*, fig. 8, e 5.*, fig. 7. 



NATURAES E S0C1AES ÇI 



tas; 3. — que alguns fragmentos de fémur apresentam a linha áspera 
bem desenvolvida, e que a platycnemia c manifesta cm dois fragmen- 
tos de tibia de adulto, embora cm menor grau o que n'alguns exem- 
plares recolhidos nos referidos dolmens. Alem d'isso, a exploração fei- 
ta nos terrenos contiguos ás sepulturas, deu um bom machado polido 
de fibrolithe de secção trapezoidal, fragmentos de dous outros em 
schisto, lascas e núcleos de silex. 

Paulo du Chatellier, o considerado archeologo da Finisterra, en- 
controu varias sepulturas do género das da Asseiceira, n^quelle reta- 
lho da velha Bretanha. Eis como elle nos descreve um grupo d'ellas, 
descoberto no mamelão de Pare ar Castell : 

« Le long de sa base sud, nous avons releve huit coffres en pier- 
res, formes de quatre pierres debout recouvertes d'une dalle brute, 
mesurant intérieurement de o m ,50 à o, m óo de large, sur o m ,8o à 
o m ,o,o de long e o m ,50 de profondeur. Ges coffres renfermaient tous 
des ossements, sans aucun autre objet, les ossements pêle-mêle au fond 
du coffre, les crânes poses dessus. Deux d'entre eux contenaient cha- 
cun deux crânes et un certain nombre dossements mal conserves il 
est vrai, mais permettant d^ffirmer que ces sepultures avaient certai- 
nement reçus les dépouillcs de deux corps. 

« Deux haches grossières en pierre polie, des quantités considé- 
rables d'éclats de silex et quelques percuteurs recueillis dans les ter- 
res enveloppant ces coffres, qui n^taient enfouis qv^à o m ,6o au dessous 
de la surface du sol, nous permettent d^ffirmer que les restes hu- 
mains qulls renfermaient sont ceux d'êtres de 1'époque de la pierre 
polie l 1 )'». 

Pelo que acima se disse as sepulturas da Asseiceira formavam 
também um grupo que foi destruído pelos proprietários dos terrenos 
aonde elle jazia, á excepção da que o snr. S. Rocha nos descreve e que 
teve a felicidade de encontrar intacta. 

Estas sepultaras, que os inglezes denominam stones-eists, encon- 
tram-se acompanhando as grandes cryptas sepulchraes nas principaes 
regiões dolmenicas, sendo sempre consideradas como neolithicas. Não 
deve, portanto, restar a menor duvida acerca da edade das sepulturas 
da Asseiceira. 

Outra não é, também, a conclusão a que chega o snr. S. Rocha, 
pois compara a sua sepultura com os cistos ou cofres de pedra do Mor- 
bihan e do Lozère e com as exploradas por Morei Fatio, na Suissa. 

(') P. du Chatellier — Les epoques pióhistoriques et gauloises d.ins le Fhiislère, in, 
Matériaux pour l'hisloirc primitive et naturellc de 1'homme, tom. 5. , 1888, pag-, 515. 



Q2 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Não longe (^'Asseiceira o snr. S. Rocha vac descobrir, na Várzea 
do Lírio, um local de estacionamento da população, certamente, cons- 
truetora dos dolmens e dos cistos dos arredores da Figueira. 

Esta estação, abrigada pelos montes que limitam d^m e outro 
lado o valle aonde assentava, c alimentada por um regato de magni- 
fica agua. que lhe corre próximo, satisfazia a todas as condições de 
vida d^quella velha geração humana. 

Hoje, esse espaço de terreno é oceupado por pinheiraes, aonde, 
disseminados á superfície do solo ou em fossos que mandou abrir, o 
snr. S. Rocha recolheu todos os caracteristicos da industria neolithi- 
ca: machados, enxós, trituradores, percutores, núcleos, difFerentes las- 
cas e laminas, serras, pontas de frechas de varias formas, inclusive as 
de gume transversal e fragmentes de cerâmica. 

E- rne impossível acompanhar o snr. S. Rocha na analyse de to- 
dos estes objectos, que, afinal, representam as variadas e assas conhe- 
cidas peças do mobiliário neolithico. 

Deter-me-hei, apenas, com um objecto descripto a pag. 69 e figu- 
rado com o n.° 1 5 2 na estampa 1 1 . a 

E feito de uma lasca de silex castanho, apresentando na sua for- 
ma extravagante, um perfil humano, segundo o nosso auetor, que diz : 

« Seria esta forma casual ou uma imitação artistica? O facto de 
os snrs. Mortillet e Cartailhac dizerem que a epocha neolithica se 
distingue precisamente pela falta de sentimento artístico fez nos hesi- 
tar muito tempo em consideral-a obra d'arte. Chegamos até a pensar 
que o objecto era semelhante ás lascas retocadas em forma de base de 
setta pedunculada que descrevemos. Mas hoje inclinamo-nos á opinião 
contraria ». 

Pois eu divergirei dVssa opinião e, pelo desenho que representa 
esse objecto, eu direi que elle é um raspador neolithico, no qual o re- 
toque desse casualmente ao contorno o perfil extravagante de uma ca- 
beça humana. Isto acontece muitas vezes no talhe do silex. Boucher 
de Perthes, o immortal antiquário de Abbeville, via já, em alguns sí- 
lices da industria quaternária de Saint-Acheul, « signaes e symbolos 
que constituiam uma linguagem da epocha da pedra...» ( d ) ; e entre 
nós, o illustre Carlos Ribeiro notava que muitos dos sílices e quartzi- 
tes terciárias foram trabalhosos para cortar, raspar, furar ou contundir, 
para servir como armas de arremesso e para representar formas d'ani- 
maes. Por exemplo: a fig. 12 representaria a cabeça dum reptil, 
etc. ( 2 J Como se sabe, esta theoria caducou. 



("t) Antiquités celtiques et anté-diluvennes. 

(2) Carlos Ribeiro — Deszripçlo d: alguns silex e qu.irtzitoe lascadas, pag. 9 e l3« 



NATURAES E SOGIAES 93 



N'estc momento tenho á vista os desenhos de dous objectos pro- 
venientes da Tunísia. Os contornos dos dous silices dão-me a impres- 
são de cabeças humanas; e no emtanto o dr. Gollignon, que os reco- 
lheu nas officinas de talhe do silex dos arredores de Gafsa — eguaes á 
da Várzea do Lírio, classifica : um como raspador neolithico, discoide 
alongado; o outro com uma ponta de frecha pedunculada ( 1 ). 

Na estampa ç. 3 do Bulleitino di Palethnologia italiano. , 1888, 
acha-se representado, entre utensilios das estações neolithicas de Torre 
di Beregna e da Serra-petrona (Camerino) — Slazioni ali" aperto ad 
officine (Pigorini), um que tem o n.° 14 e cujo contorno lembra tam- 
bém um perfil humano. A classificação que lhe dá o seu descobridor, 
o snr. G. Gnoli, é a de accetta silicea (pag. 47). 

Repetirei, portanto, que o perfil humano da Várzea do Lirio não 
passa, emquanto a mim, de um raspador discoide, cuja base alongada, 
mesmo pedunculada, servia para fixar o utensílio a um cabo de osso 
ou de madeira. 

O snr. S. Rocha remata a primeira parte, apresentando-nos ain- 
da alguns objectos provenientes da Cumieira e Outeiro de Lima : ras- 
padores e machados polidos ; e um outro de Paião, na margem sul do 
Mondego, muito interessante pela sua forma alongada tendo uma das 
extremidades um gume de enxó, a outra em ponta e que o nosso auctor 
classifica de picareta. 

Esta espécie de utensílio não é única no paiz. 

Nas Antiguidades monumentaes cio Algarve, vol. i.°, est. g. a e 
i6. a , Estacio da Veiga figura dous instrumentos do mesmo género 
e eu notei, na importante collecção de machados ncolithicos do meu 
illustre amigo dr. Leite de Vasconcellos, um grande e bello exemplar 
curvo no seu comprimento, terminando n'uma extremidade em ponta 
aguda e na outra em gume de machado. E portanto um machado-pi- 
careta, que como o de Paião e os do Algarve, serviria para excavar a 
terra ou atacar a rocha nos trabalhos de extracção do silex. 

Passando á segunda parte, o snr. S. Rocha faz as suas conside- 
rações ethnographicas acerca da população que existiu nas margens 
do Mondego. 

Sobre a natureza das estações exploradas já acima tractei, corro- 
borando a opinião do distincto auctor: as ruinas de Porto Saboroso 
representariam um lumulus neolithico violado; a Várzea do Lírio in- 
dicaria um lugar de habitação e ao mesmo tempo uma officina de talhe 
da pedra do povo d'então, como Camfigny; c as sepulturas da Assei- 



(!) Dr. R. Gollignon — Les ages de la pierre cn Tunisie, in. Malériaux peur Vhist' 
prim. et 7iat. de 1'hoinine. Tomo 3. , 1887. Fst. 7.% fig. 18 e S. a , fi^. l3. 



94 REVISTA DE SC1ENC1AS 



ceira seriam cistos robenhausianos, como os seus congéneres da Finis- 
terra, Quiberon, etc. 

E a respeito cTesses cistos, o snr. S. Rocha ainda formula a idéa 
de que elles eram sepulturas de inhumação, sendo os cadáveres depo- 
sitados de cocaras, com a cabeça sobre os joelhos. Tal é também a 
theoria de Mortillet. Mas notarei que d'esses cistos apenas se extrahi- 
ram ossos longos, do craneo e alguns dentes de indivíduos adultos e 
de creanças, como acima ennumerei, conforme a descripção que d^lles 
faz o auetor, faltando portanto as outras partes do esqueleto. Isto pro- 
va, portanto, que os cadáveres eram sepultados neutra parte ou expos- 
tos ao ar livre, até ao completo desapparecimento das partes molles e 
que, depois, recolhendo os ossos principaes, os depositassem piedosa- 
mente n'esses cofres de pedra — verdadeiros ossuarios neolithicos. 

E essa a opinião de P. Chatellier acerca dos cistos da Finisterra 
que já citei. Cartailhac conclue também: 

« Les caveaux de 1'âge de la pierre sont des ossuaires qui sont 
en general restes longtemps accessibles et utilisés (*) ». 

Acho também um pouco phantasista a opinião do snr. S. Rocha, 
acerca da posição social dos indivíduos depositados nos cistos: «Tudo 
isto nos indica com muita plausibilidade que os indivíduos sepultados 
nos monumentos que exploramos na Asseiceira não tinham a mesma 
importância, nem gosavam das mesmas honras, vantagens e garantias 
que as dos outros megalithos ». 

De resto, o distincto paleoethnologista verifica na população neo- 
lithica da bacia do Mondego, os mesmos caracteres ethnicos, os mes- 
mos usos e crenças e a mesma feição artística d^sse povo que deixou 
os vestígios da sua civilisação desde a Ásia até ao norte da Africa. 

Seria um grandissimo bem para a nossa Archeologia prehistori- 
ca, se apparecessem muitos trabalhos como este que, insufficiente- 
mente, acabo de apreciar. 

Certamente que a boa actividade do benemérito e considerado 
paleoethnologo da Figueira ainda nos dará novos materiaes sobre o pe- 
ríodo neolithico e sobre o paleolithico que tão pouco conhecido é ainda 
no nosso paiz. 

Yianna do Castello. 

F. Cardoso. 



(1) E. Cartailhac — La France préhistorique, pag. 278. Paris, 1889. 



NATURAÈS E SOCIAES 



<;5 



Paul Choffat c Proença Vieira. — Exemplo frisante da im- 
portância DA UT1LISAÇÃO DOS DADOS GEOLÓGICOS NA ESCO- 
LHA DOS TRAÇADOS DOS CAMINHOS DE FERRO, S:°, Lisboa, 1892. 

Dos dois projectos elaborados em 1889 para ligar as linhas férreas 
do sul e do norte do Tejo por meio duma ponte sobre este rio, o dos 
snrs. Bartissol e Seyrig não tinha base alguma na natureza do sub-solo, 
ao passo que o do snr. Proença Vieira se fundava na geologia dos ter- 
renos sobre que havia a operar. O estudo geológico foi previamente rea- 
lisado pelo snr. Choffat; e infere-se d'elle que, ao contrario do que 
acontece no primeiro dos projectos citados, as vantagens de economia, 
segurança e hygiene no traçado Vieira são incontroversamente assigna- 
laveis. 

R. P. 



J. C. Berkeley Cotter. — Noticia de alguns fosseis terciá- 
rios DO ARCH1PELAGO DA MADEIRA, acompanhada d'uma Noticia de 
alguns molluscos terrestres fosseis do mesmo archipelago, por Alberto A. Girard. 8.°, 
23 pags. Lisboa, 1S92. 

Estudo de fosseis marinhos provenientes do calcareo do ilhéu da 
Cal (Porto Santo), do tufo do rresmo ilhéu, do tufo de Porto Santo (Si- 
tio da Calheta) e do tufo das Selvagens. São enumeradas 4 espécies de 
zoophytos, 1 de echinoderme e 18 de molluscos, além de 6 malacozoa- 
rios sub- fosseis das chamadas praias levantadas ou dunas antigas da ilha 
de Porto Santo. Segue-se-lhe a indicação de 16 espécies de molluscos 
terrestres da mesma proveniência, com observações criticas, do consi- 
derado malacologista, snr. Girard. 

R. P. 



J. C. Berkeley Cotter. — Noticia de alguns fosseis terciá- 
rios DA ILHA DE SaNTA MaRIA NO ARCHIPELAGO DOS AçO" 
RES. 8.°, 33 pags. Lisboa, 1892. 

Enumeração critica de 42 espécies de fosseis do miocenico mari- 
nho da ilha de Santa Maria, a maior parte dos quaes foi offerecida á 
Commissão Geológica pelo finado professor Júlio Rodrigues. Muito acu- 
rado este trabalho do estudioso naturalista. 

R.P. 



NOTICIAS 



MUSEU ETHNOGRAPHICO PORTUGUEZ 

Por decreto de 20 de dezembro de 1893 foi creado em Lisboa, e 
já se encetou a sua installação no edifício da Academia das Sciencias, 
um Museu Ethnographico Portugue^. Do relatório que precede o de- 
creto, transcrevemos o que segue : 

Em relação á historia serve elle para ministrar documentos de toda a ordem, pelos 
quaes se apreciarão melhor, assim em globo, os caracteres d'esse povo, e as relações d'elle 
com outros, tanto no presente como no passado. Pelo que toca ao sentimento de naciona- 
lidade, faz que o povo, tendo de si mais amplo conhecimento, e sabendo as razões histó- 
ricas da sua própria existência, ame e venere a pátria com conhecimento de causa, e seja 
afouto na via do progresso. Quanto ás artes, contribue para que ellas se aperfeiçoem, 
porque c só quando o artista a ília ás impulsões do seu génio e á largueza do seu estudo a 
inspiração nas tradições do paiz, que produz obras verdadeiramente de cunho ( 1 ). 

O Museu fica dividido em duas secções — archeologica e moderna 
— e abrangerá não só as coilecçóes que o estado já possue mis ainda 
as que possa obter, offertas, depósitos, etc. Das primeiras farão parte 
os valiosos materiaes recolhidos por Estacio da Veiga, de cuja installa- 
ção tanto se interessou sem êxito e durante annos ( 2 j, e sobre as quaes 
esta Revista ( 3 ) e quem isto escreve ( 4 ) tão repetidamente chamaram a 
attenção dos poderes públicos. A escolha para conservador do Museu, 
que fei acertadíssima, recahiu no snr. José Leite de Vasconcellos, es- 
tudioso e erudito ethnographo. Decerto que esta Revista terá ensejo 
de se oceupar largamente dos progressos da nova instituição. 

R. P. 



(1) Diário do Governo, de 21 de dezembro de iSi/3. 

( 2 ) Antiguidades monumeiitj.es do Algarve, 4 toms. c principalmente o IV, pags* 
I-16. Lisboa, 1891. 

(3) Ricardo Severo, Os trabalhos paleoethnologicos no nAlgarve, do snr. Estado da- 
Veiga, n'esta Revista, vol. II, n.° 7, pags. i2Ó-l3o. Porto, 1892. 

(4) Rocha Peixoto, A iniciativa individual na archeologia, in. Revista de Portugal, 
om. IV, n.° 21, pags. 350-370. Porto, 1S92 ; artigo modificado e depois reproduzido em 

folhetins, sob o titulo de Antiguidades Nacionaes, no Primeiro de Janeiro, n. os de 13 e de 
27 de abril de 1893. 



A Revista tem recebido as seguintes publicações, 
cTalgumas das quaes se oceupará na sua secção biblio- 
graphica : 



Vieira Natividade. — La taille du silex ciu XlX. mQ siccle, 8.°, u pags. e 

IV est. Alcobaça, 1894. 
La confederacion de 'las clãses, 8.°, 16 pags. Madrid, 1894. 
A. E. Brehm. —La terre avant Capparition de Chorume, fase. í. Paris, 

1893. 
— Les tnsecte", fases. . I— II.- Paris, 1893. 
James Pilling. — Bibliography of the Ckinookan. languages (Including the 

chinook jargon), 8.°, 81 pags. Washington, 1893. 



Boletim da Sociedade Broteriana, tom. XI, n° 1. Coimbra, 1893. 
Boletim du Sociedade de Geographia de Lisboa, 12. a serie, .n. 08 7-12; i3. a 

serie, n. os 1-2. Lisboa, 1893-94. 
Instituto, vol. XLI, n os 5-j. Coimbra, 1894. 
Jornal da Sociedade pharmaceutica lusitana, tom. 5.°, io. a serie, n. oti i-3. 

Lisboa, 1894. 
Revista de Guimarães , vol. XI, n.° 1. Porto, 1894.. 
Revista do Minho, vol. IX, n.° 1. Espozende, 1894. 
Revista Jurídica, vol. II, n.° 23 Porto, 1894. 
Bulletin de la Société tfAnlhropologie de Pans, tom. IV, n.° 12. Paris, 

1894. 
Bulletin de la Société Zoologique de France, tom. XVIII ; n. os 1-6. Paris, 

1893. 
Feuille des jeunes natur alistes-, tom. 24. n.' s 280-3. Paris, 1^94 
Revue mensuelle de VÉcole d 'Anlhropologie de Paris, tom. ÍV, n. (S 2-4, 

Paris, 1894. 
Bolletino cli pai 'etnologia italiana, tom. IX, n. os 10-12. Parma, 1893. 
Bolletino dei Real Comitato Geológico d' Itália, vol. IV, serie 3. a , n.° 4. 

Roma, 1893. 
Bulletin de la Société belge de microscopie, tom. 20, n. os 4-6. Bruxelles, 

1894. 
Bulletin de la Société vaudoise des seiences natureUes, vol. XXIX, n.° 11 3. 

Lausanne, 1893. 

Verhandlungen der Berliner Gesellschaft fúr Anlhropologie, Kthnologle und 

Urgetchichle, n. os de juiho-dezembro, 1893 e de janeiro, 1894. 

Berlin, 1893-94. 

Bullefins du Comité géofogique, vol. XII, n os 3-j. S. Petersburgo, 1893. 

■Supplément au tom. XII des Bullctins du ComVé gêologiquc, S Peters-- 

burgo, 1893. 
Abstracts of the proceedings of the Gcologicul Society of London, n. os 617- 

624. London, 1893 94.. 
Bulletin de Clnstitut égyptien, 3. a serie, n. os 3-4. Le Caire. 1892-93. 
Actes de la Société scienlifique du Chili, tom. III, fase. 3.° Santiago, 1894. 
The american anlhropologist, vol. VI, n. os 3 4. Washington, 1893. 
Klevcnth annual Report of the United States Geological Survty. (1889 90). 
Part. I: Gcology ; part. II; Lrigation. Dois gr. toms. com num. 
est. e cart. Washington, 1891. 
Figth annual Reporl of lhe Bureuu of Elhnology (1886 87), 1 gr. vol. com 
num. est. Washington, 1891. 



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1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 I 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 I 1 1 1 1 I 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 li 1 1 » I !!■ ■ • H H 1 1 1 1 '" 1 1 1 1 1 

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LISBOA 

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PORTO — Typographia Occidental 



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Sciencias Naturaes e Sociaes 



Publicação trimestral 

DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director da Eschola Medico-Cirurgica do Porto 



RICARDO SEVERO 

Engenheiro civil 



ROCHA PEIXOTO 

Naturalista adjuncto ao Gabinete de Geologia 
da Academia Polytechnica 



Yolume terceiro — N.° n 



(ll SlilUÊ-N. 2) 




PORTO 

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON 
casa e u nau A 

M. LUGAN, SUCCF.SSOB 



1894 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 



Zoologia portugueza antiga, por Balthazar Osório . . . . pag. 97 
Tradições populares porluyuezns, por F. Adolpho Coelho . pag. 124 



VARIA 
Laboratório marítimo d* Aveiro, por J. M. de Mello de Mattos pag. 125 

BIBLIOGRAPHIA 

Les ler ruins permique, triasique el jurassique à Timor et à 

Rotti, dans Varchipel indien, por P. G. . .... pag. 166 

Catalogue des insectes du Portugal, de M. Paulino de Oli- 
veira, por R. P. . . . . . . . ..... pag. 167 

Description de la faune jurassique du Portugal, de Paul 

Choffat, por R. P.. . . . ....... . pag. 168 

Description de la faune jurassique du Portugal. Mollusques la- 

mellibranches, de Paul Choffat, pofR. P. . . . . . pag. 168 

ESTAMPA 

Laboratório marítimo dWoeiro (planta e i / 2 alçado) . . . pag. 160 



HISTORIA DA SCIENCIA 



ZOOLOGIA PORTUGUEZA ANTIGA 



Não é raro encontrar escripta em livros estrangeiros, a 
noticia de terem sido revelados por portuguezes factos que 
importam ás sciencias, á zoologia, por exemplo, a allusão a 
compatriotas nossos que em terra estranha honraram o paiz 
em que nasceram; e, todavia, muitos d'esses factos são quasi 
completamente desconhecidos entre nós, e a memoria dal- 
guns d'esses homens, jamais conseguiu lograr o reconheci- 
mento e a veneração que um povo deve aos que lhe foram 
conquistando e dilatando a fama. 

Dos homens nomearei apenas um, Amatus Lusitanus, 
medico celebre entre os mais celebres do século xvi, grande 
sabedor da sciencia árabe, dizem os seus biographos, me- 
dico-physico d'algumas cortes da Europa. Leu medicina em 
diversas universidades estrangeiras, fugindo d'umas para ou- 
tras diante das perseguições do santo officio, que o obrigara 
a sahir da pátria, onde era acoimado de judeu. 

A sua obra é interessante e valiosa. Attribue-se-lhe a 
descoberta das válvulas das veias ( 1 ) e todavia é tão pouco 
conhecido em Portugal, que nem mesmo Innocencio, que 
cita no seu c Diccionario tanto escriptor e tanta obra ephe- 
mera, se refere a elle ou aos seus livros. 



(*) D'uma portugueza, Leonor Pimentel, se diz que collaborara 
com Spallanzani na descoberta dos vasos lymphathicos. 

vol. 111 e 



98 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Foi numa memoria de Van Beneden que li pela pri- 
meira vez o seu nome e invocado a respeito cTtim facto tão 
extraordinário, que desejei saber quem tinha sido esse ho- 
mem appellidado Lusitanas e que contava historias tam in- 
verosímeis. 

Van Beneden fala da Phtiriasis e diz « Un médecin du 
xvi e siècle, Amatus Lusitanus, parle d'un grands eigneur 
portugais teliement couvcrt de poux, que deux de se^ servi- 
teurs n'étaient occupés qu'a les recueillir pour les porter à 
la mer» ( 1 ). 

Investigando, depois de lidas estas palavras, encontrei 
as suas Curationum medicinalium centuriae, noticia de vá- 
rios escriptos, e uma ou outra vez citado o nome d'este 
professor illustre em livros portuguezes : mas nem por isso 
deixo de o julgar e creio que com razão, quasi como um 
desconhecido nas lettras pátrias. 

Dos factos a que me referi e que adiante contarei, se 
muitos pertencem aos domínios exclusivos da sciencia, ou- 
tros interessando á nossa historia apparecem-nos narrados 
por estranhos quasi ignorados no paiz, como gemmas es- 
condidas d'um grande thesouro que por perdel-as não ficou 
mingoado. 

Quem desconhece em Portugal o romance a Nau Ca- 
thrineta, e os versos? 

Deitaram sola de molho 
Mas não a poderam tragar. 

Creio que ninguém. Facilmente se acredita que a pas- 
sagem que n'elles se descreve tivesse succedido, por mais 
de uma vez, nas longas e numerosíssimas viagens empre- 
hendidas pelos portuguezes. E' certo, porém, que tendo co- 
nhecimento das descripções de muitas, jamais encontrara re- 

(*) Les còmmensaux et les parasites, pag. 116. 



NATURAES E S0C1AES <)<) 



ferencia ao caso que os versos contam, quando se me depa- 
rou n'um livro de Draper um período que diz respeito á via- 
gem de circumnavegação do globo, levada a cabo por Fer- 
não de Magalhães e em que repete o que o italiano Pigaf- 
feta, comparte n'essa viagem, descreve que succedera. Ma- 
galhães encontra o estreito que actualmente tem o seu 
nome, e que o torna lembrado ás gerações, e que procurava 
debalde havia mais d'um anno, chora d^legria, « réduit 
par la faim á manger des morceaux de cuir arrachés à son 
gréement, à boire de Peau putride, voyant son équipage pé- 
rir par la faim et le scorbut ( 1 ). 

Ferdinand Denis conta no seu livro Camoens et ses Con- 
temporains, que no ultimo cerco de Colombo, quando na 
índia pouco mais restava dos portuguezes de que uma re- 
cordação, os soldados cantavam, combatendo, as estancias 
dos Lusíadas. 

Mas seria fora de propósito apontar circumstanciada- 
mente factos que se prendem com assumptos diversos d'a- 
quelle a que este artigo se subordina; não deixaremos, to- 
davia, de dizer que os nossos livros antigos, roteiros e nar- 
rações de viagem, constituem um repositório valioso de 
noções e da dos que podem interessar os zoologos, os bo- 
tânicos, os meteorologistas, etc. 

Allude-se n'elles a diversos phenomenos cósmicos e em. 
mais d'uma passagem de roteiros se fala, por exemplo, da 
phosphorescençia marítima. 

No do Mar Roxo diz D. João de Castro que uma noite, 
a meio do quarto da madorra, se fizera o mar tão branco 
como leite e com essa cor permaneceu até nascer o dia e 
que durante esse tempo não apparecera névoa, vapor ou coisa 
semelhante, e que o céo esteve claro e estrellado ( 2 ). 



(*) Draper — Les conflits de la science et de la religion, paj 
117. 

( 2 ) Roteiro do Mar ^oxo, pag. 9. 

* 



100 REVISTA DE SC1ENC1AS 



No Roteiro de Lisboa a Goa menciona-se também o 
mesmo phenomeno embora descripto por maneira diversa. 

«. . .esta noite no quarto da prima vimos muitas malhas 
branquas pelo mar, que parecião de leite, e tomavam grande 
espaço o que punha muito espanto a todos aquelles que não 
tinham experiência do que era, então lhes disse o Piloto, que 
era manga de peixe que avia pouco desovara» (*). 

Os phenomenos athmosphericos impressionavam tam- 
bém o grande capitão e navegador e lá vêem relatados nos 
seus livros os que se lhe iam deparando nas suas dilatadas 
viagens. 

Chegado a uma ilha que está abaixo de Toro, diz elle, 
«logo em se çarrando a noute, correo huum rayo debaxo da 
lua pêra o orizonte, leuando hum grande, e fermoso resplen- 
dor; e desaparecendo o fogo, ficou descripto o caminho no 
céo, á semelhança de huma torcida serpente, muito alua, e 
durou este sinal e semelhança espaço de mea hora, e de- 
pois se desfez» i*). 

Um phenomeno meteorológico que por vezes é descri- 
pto nas relações de viagem é o chamado fogo S. Telmo; e 
facto realmente notável, pendeu-se completamente o nome 
que lhe davam os nossos velhos matalotes chama-se-lhe en- 
tre nós como os estrangeiros lhe chamam. 

O Bemaventurado S. Frey Pedro Gonçalves já não vae 
ás hortas de Enxobregas entre folgares e folias de devotos 
mareantes, que o enramavam de coentros frescos ( 3 ), e quem 
sabe aonde pára, se por ventura existe, a devota imagem que 
elles veneravam ! Hoje, mercê da civilisação a que tantas 
mercês se devem, se por acaso qualquer pedaço de ferro de 
steamer se enfeita da pluma de fogo, ninguém a salva, nin- 
guém a saúda chamando-lhe corpo santo, e o caso decerto 



(*) Loc. cit., pag. 112. 

( 2 ) Roteiro do ÍMar 'T^oxo, pag. 224. 

( 3 ) Hist. Trag. Mar. t. II, pag. 3i2. 



NATURAES E SOCIAES IOI 



não merece lamentos, mas poucos lhe darão esse nome me- 
morável cToutr'ora, clamado em momentos d'angustia, S. Pêro 
Gonçalves; não será mesmo S. Anselmo, como o bom do 
frade que me deu esta noticia diz que lhe chamam os es- 
trangeiros (*); será Santelmo, como se traduz dos livros de 
physica francezes. 

Camões não se esquece de alludir a este phenomeno que 
decerto vira descripto nos clássicos latinos ou gregos, 
tantas vezes n'elles se refere que a estatua de Palias, ou as 
cabeças de Castor e Pollux, appareceram adornadas com a 
fugitiva chamma, e que observara, talvez, n'alguma das 
suas viagens, pois diz : 

Vi claramente visto o lume vivo 
Que a marítima gente tem por santo 
Em tempo de tormenta, e vento esquivo, 
Da tempestade escura, e triste pranto. 

C. v. Est. xvm. 

Estes versos descrevem e contam o que a respeito do 
referido phenomeno se dizia no tempo do poeta e não os ci- 
taríamos se não tivéssemos encontrado no livro d'onde extra- 
ctamos a noticia sobre as homenagens rendidas n'outros 
tempos a S. Pêro a explicação, provável, do triste pranto 
da estancia transcripta e é, a meu ver, a que encerram as 
seguintes linhas: «E affirmão, q quando apparece nas par- 
tes altas, e são duas, três, ou mais aquellas exhalações, que 
he signal que lhes dá de bonança : mas se apparece huma 
só, e pelas partes baixas, que denuncia naufrágio. E tão 
crentes e firmes estão nisto, que quando aquellas exhalações 
apparecem sobre os mastareos, sobem os Marinheiros acima, 
e afirmam que achão pingos de cera verde; mas elles não 
os trazem, nem os mostrão (*)». 

(') Ibid., pag. 3 14. 
( 2 ) Loc. cit., pag. 3i3. 



102 REVISTA DE SCIENCIAS 



E talvez aos suppostos pingos de cera verde que o poeta 
chama o triste pranto. 

Não deixa de ser curioso o seguinte facto; emquanto os 
portuguezes designavam o phenomeno eléctrico de que va- 
mos fallando, por S. Pêro, e os estrangeiros por S. Anselmo, 
ou S. Telmo, parece todavia que o santo invocado por uns 
e outros era um só e o mesmo, pois a egreja venera a 14 
d'abril, S. Pedro Gonçalves Telmo, que eu pouco lido 
no Fios Sanctorum ou nos Tlolandistis não sei dizer se 
era portuguez ou castelhano, como parece derivar-se do 
nome. 

Se dos phenomenos physicos passarmos aos geológicos 
também em livros velhos encontraremos relação d'elles. E 
sem ir respigar nas chronicas, sem recorrer a Barros ou a 
Castanheda, onde sei que o mesmo facto vem contado, mas 
folheando estas commoventes historias de naufrágios de que 
falava ha pouco, ahi se encontra, Na relação da Viagem e 
Sucesso que teve a Não S. Francisco, que a não tremia como 
pontualmente treme hum homem quando está' com grandíssima 
se^ão de frio (*), e que facilmente se acreditava que era o 
mar que estava tremendo como algumas vezes suceede com 
a terra. 

A este phenomeno allude também Camões quando diz 
no C. 11, est. xlvii : 

Oh caso nunca visto e milagroso, 

Que trema, e ferva o mar, em calma estando. 

Darwin, no seu livro 'Viagem d'um naturalista em torno 
do mundo, refere um facto que tem analogia com este e 
observado por elle durante o tremor de terra da Conceição, 
o mar parecia que estava fervendo, diz o illustré sábio, em 
quanto na bahia se levantavam uma columna de fumo, e 

( l ) Loc. cit., pag. 43 1. 



NTURAES E SOCIAES lo ■; 



outra d'agua, similhando o jacto expirado por uma baleia 
immensa (*). 

Se dos phenomenos geológicos passarmos ao exame dos 
factos que podem interessar aos botânicos, encontraremos 
muitos, dispersos não só pelas obras que temos citado, mas 
por outras. São descripções e noticias sobre plantas, cuja 
estranheza de íorma, sabor e utilidade do fructo ou virtude 
medicinal se encarece e apregoa. A algumas d'essas noticias 
outros se julgarão talvez com mais direito do que nós a 
quem pertencem, pela prioridade. 

O baobab, o polão dos nossos velhos narradores de cos- 
tumes e coisas de paizes distantes, chama-se actualmente na 
botânica Adansonia Baobab. Baptisou-o Jussieu que o en- 
controu descripto na Histoire du Senegal d'Adanson, natu- 
ralista que havia visitado esta parte d^frica muito depois, 
três séculos, dos primeiros portuguezes. 

O visconde de Santarém nas suas eruditíssimas notas 
á Chronica do Descobrimento e conquista de Guiné, por 
Azurara, põe em relevo este facto ( 2 ), mas ào portão ou po- 
lão se fala também antes de Adanson no Tratado breve dos 
rios de Guiné de Cabo Verde de André Alvares d'Almada es- 
cripto em 1594 ( 3 ) muito mais d'um século antes da publi- 
cação da obra do viajante francez. 

Eis aqui bem claramente exposta não uma árida diagnose 
d'um vegetal, nem só em descrevel-os se entretinham os 
primeiros devastadores das terras viciosas d 'Africa e da 
Ásia, mas uma questão interessando á physiologia das plan- 
tas, á influencia dos animaes na sua fecundação e cruza- 
mento. 

Diz o Padre Gaspar Affonso que na Ilha de S. Domin- 
gos (Antilhas) as sementes são levadas de planta para planta 

(*) Loc. cit., pag. 329. 

( 2 ) Loc. cit, pag. 3o6. 

( 3 ) Loc. cit., pag. 25. 



I (>4 REVISTA DE SC1ENC1AS 



pelas aves, que umas vezes as transportam no bico e outras 
no estômago, não se esquecendo também de dizer que o ven- 
to as vae semeando e espalhando por cima de outras 
ainda que sejam de differente espécie ( 1 ). 

O espirito compraz-se e encanta-se quando encontra es- 
criptas alguns séculos antes de nós verdades que são indis- 
cutíveis hoje, que o tempo se encarregou de cristalisar, 
mas mais se compraz e encanta quando na pagina se en- 
contra a vibração d'uma alma, como a d'este padre Gaspar 
Affonso, que em presença das maravilhas que a natureza 
lhe patenteia diz que a pintura e a architectura tinham mui- 
to que aprender n'ella, pensando talvez como Michelet, al- 
guns séculos mais tarde, que entendia que as artes deviam 
procurar novos themas na historia natural, e que a sua reno- 
vação podia derivar do estudo dos animaes e das plantas. 

É tempo porém de expor o assumpto sobre que nos 
proposemos escrever. Por mais interessantes que sejam 
aquelles de que vínhamos falando confiamos que o que vae 
seguir-se não será menos atrahente. 

Apontarei alguns factos referindo-me, porém, agora ape- 
nas aos que são puramente zoológicos. Eis aqui um e dos 
não menos curiosos. 

O chimpanzé foi conhecido na Europa principalmente 
pelo que d'elle disseram os portuguezes. 

É Hartmann quem o affirma. Depois de ter escripto 
que, se é certo que os carthagineses viram e trouxeram pel- 
les d'estes animaes para Carthago, depois d\ima expedição 
commercial enviada á Guiné superior, e que se na verdade 
existia no templo da Fortuna em Roma um mosaico em 
que o chimpanzé era representado d^ma maneira bastante 
exacta para que se reconhecesse, todavia, só depois das no- 
ticias que Eduardo Lopes deu a Pigafetta, e publicadas em 
i578, é que novamente se tornou a falar d^elle. 

(*) Hist. Trag. Mar. : t. II, pag. 382. 



NATURAES E SOCIAES 105 



Mais tarde novas indicações foram dadas por um por- 
tuguez, Pedro de Cintra, acerca dos anthropomorphos (*). 

Do rhinoceronte diz Hoeffer que havia na Europa um 
conhecimento muito imperfeito e devido apenas a narra- 
ções e desenhos de viajantes, Bontius, Chardin e Kolbe 
quando appareceram em Londres os primeiros exemplares 
vivos d'estes animaes, enviados de Portugal de \j3q a 1741. 
Parsons escreveu-lhes a historia e n^lla moldou Buffon a sua 
descripção ( 2 ). 

De todos os factos que podia citar um dos mais curiosos 
que conheço é o que refere Paul Bert acerca do Dronte. 
Gomo é geralmente sabido, esta ave extinguio-se e não existe 
em nenhum Museu do mundo exemplar que represente a es- 
pécie. Apenas no Museu de Londres ha um quadro em que 
é figurada, e parece também que são conhecidos fragmentos 
do animal. Pois P. Bert diz que Vasco da Gama vira grande 
quantidade d'estas aves na ilha Mauricia em 1497 ( 3 ). 

Onde encontrou P. Bert esta noticia? Não consegui, 
até agora, sabel-o. Foi effecti vãmente no anno de 1497 que 
Vasco da Gama foi em procura do caminho da índia, mas 
no roteiro d^sta primeira viagem não se encontra allusão 
alguma aos animaes a que se refere o fallecido Prof. do Col- 
legio de França, embora se falle de muitos outros; assim, 
por exemplo, n'elle se diz que a duzentas léguas da ilha de 
Santiago «... achámos muitas aves feitas como garçoees, e 
quando vêo a noute tiravam contra o susoeste muito rri^as 
como aves que hiam pêra terra e neste mesmo dia vimos 
huuma baléa, e isto bem oytocentas léguas em mar ( 4 ). 

E mais adiante diz «... As aves d'esta terra sam asy 
mesmo como as de Portugal, corvos marinhos, guayvotas, 



( 1 ) Hartmann — Les singes du cAnlhrofioides, pag. 3. 

( 2 ) Hoeffer — Hist. de la Zoologie, pag. 76. 

( 3 ) Elementos de ^oologie, pag. 282. 

( 4 ) c í^o feiro da Viagem de Uasco da Gama, pag. 3. 



ioó 



REVISTA DE SC1ENCIAS 



rrolas c cotovias, e outras muitas avees, e a terra he muito 
sadia e temperada e de boas ervas» í 1 ). 

E já que falei de Vasco da Gama e do roteiro da pri- 
meira viagem á índia não deixarei em silencio um facto que 
n'elle se refere relativamente á existência de phocas ou lobos 
marinhos em regiões d^onde parece que inteiramente desap- 
pareceram. 

Já em tempos mais remotos, antes de Vasco da Gama, 
as phocas tinham sido encontradas em grande quantidade, 
não só na costa d'Africa occidental mas até no archipelago 
da Madeira. Major conta na Vida do Infante D. Henrique 
que quando João Gonçalves Zarco explorava uma das ilhas 
que o compõem foi ter a uma enseada onde havia grande 
quantidade de lobos marinhos que cá sua chegada se refu- 
giaram n'uma caverna que lhes servia de habitação e que por 
este facto foi denominada camará dos lobos ( 2 ). 

Azurara na sua obra, por tantas razões notável, 
Chronica das descobertas e conquistas da Guiné, refere-se 
muitas vezes á existência de lobos marinhos na parte occi- 
dental d'Africa e diz que eram em tal quantidade nas regiões 
visinhas do Rio do Ouro que com os seus despojos se com- 
merciava. Adentrada do rio, em hua coroa, diz Azurara, ha- 
via grande numero d'estes animaes, calcula que seriam cinco 
mil, e muitos foram mortos pelos primeiros aventureiros por- 
tuguezes que visitaram aquella paragem. 

Um servidor do Infante, chamado Jorge Gllz e outro que 
o acompanhava, trouxeram para Portugal muito azeite e 
pelles de lobos marinhos; e Azurara conta também que Go- 
mes Piz. trouxe «muytas pelles de lobos marinhos, de que 
perfez carrego a seu navyo e tornousse para o reyno.» 

Parece que o commercio dos Portuguezes para além do 



( d ) Loc. cit., pag. i3 1 
( 2 ) Loc. cit., pag. 5. 



NATURAKS E S0C1AES I 07 



cabo Bojador se estabeleceu antes do meado do scculo xv, 
importando-se o ouro em pó, os escravos e as phocas. 

Cremos que ficará sufficientemente demonstrado, depois 
do que acabamos de escrever, que o habitai das phocas era 
muito mais extenso no século xv do que é actualmente. Jul- 
gamos, egualmente, que ficarão bem esclarecidos por estas 
linhas os versos dos Lusíadas: 



Por elle o mar remoto navegamos 
Que só dos seus phocas se navega. 

G. 1, Est. lii. 



que não encerram, como alguém pensou, uma asserção filha 
unicamente da phantasia do poeta, mas uma verdade, um 
facto zoológico que nos parece bem averiguado. 

Camões é sempre exacto no que diz, quer se tracte d'uma 
manobra náutica, d'um promenôr geographico, d'um dado 
scientifico; isto tem sido escripto muitas vezes para que in- 
sistamos n esta affirmação, mas o facto que acabamos de 
referir mostra, além d'isso, conjunctamente com outros, que 
os Lusíadas foram escriptos á vista do roteiro de Vasco da 
Gama, ou com pleno conhecimento de todos os episódios, até 
mesmo dos mais insignificantes, que n elle se relatam. 

No canto quinto, por exemplo, lá vem mencionada a pa- 
ragem e aguada feita na ilha de Santiago, o caso acontecido 
a Fernam Velloso com os cafres da Angra de Santa Helena 
contado circumstanciadamente no roteiro. 

Mas não é somente Vasco da Gama que nos informa 
dos animaes com que deparou na sua longa peregrinação. 
E raro o navegador que nos não falia cTeUes e das plan- 
tas, e dos phenomenos naturaes que o impressionaram. 
D. João de Castro, no seu Roteiro de Lisboa a Goa, não se 
esquece de ir registrando o que a este respeito se lhe offe- 
rece, e diz, que nas alturas da ilha da Ascenção, encontrara 



I08 REVISTA DE SCIENC1AS 



diversas aves, a saber: rabiforcadas, grayaes e outras a 
que os marinheiros chamam tinhosas (*). 

O notável naturalista e illustre professor snr. Barbosa 
du Bocage, consultado pelo distinctissimo professor e esta- 
dista Andrade Corvo, que foi quem annotou e publicou o 
referido roteiro, acerca da determinação das aves que D. 
João de Castro menciona, conjectura que algumas d^ellas 
pertenceriam ao género Sterna, e que outras representariam 
as espécies denominadas Tachypetes aquila, Linn., e Phae- 
ton actherius, Linn. 

Mais adiante, diz o glorioso vice-rei : «este dia vimos 
muitas aves a que chamam pardellas, as quaes não vimos 
noutra paragem, somente nesta e nas Canareas; tem estas 
aves as barrigas brancas e as costas pardas, donde parece 
que tomarão ho nome» ( 2 ). 

O snr. Barbosa du Bocage pensa que seriam talvez re- 
presentantes do Puffinus Kuhli, ou doutras espécies que 
menciona. 

No Roteiro de Goa a Diu, refere- se também por vezes 
aos animaes que encontra nas terras que vae percorrendo. 
Assim, na descripção da ilha e cidade de Goa, diz: «A 
terra produze grandes arvoredos e muitas ervas; nam vive 
nela algum género de feras, porem cria infenidade de ser- 
pentes venenosas, entre as quais se acham umas cobras 
pequenas, que matam supitamente com ho bafo, e ou- 
tras a que chamam de capello ( 3 ), cujo morso he irremedia- 



(*) Roteiro de Lisboa a Goa, pag. i3y-i38. 

( 2 ) Loc. cit., pag. 162. 

( 3 ) A denominação Cobra de capello é corrente em grande parte 
da índia, onde dominámos. Haeckel, na sua Viagem d índia, conta 
que no jardim de Paradenia, em Ceylão, ouvira um rapasito gritar este 
nome á vista duma Naja tripudians. Este facto, assim como o apon- 
tado pelo barão de Hubner, no seu livro Viagem em volta do mundo, 
onde refere que encontrou a palavra poriugueza pão na lingua japone- 
za, (o barão de Hubner foi por algum tempo embaixador da Allemanha 



NATURAES E SOC1AES I OO, 



vel (*). Ha evidentemente exaggero, não tanto com respeito 
á cobra capello cuja malignidade é bem conhecida, mas com 
relação ao que se conta das outras. Diz-me o snr. dr. Bet- 
tencourt Ferreira, que se tem dedicado ao estudo dos reptis 
da índia, no Museu Nacional de Lisboa, que existe em Goa 
uma cobra pequena, a Echis carinala, Schnd., muito vene- 
nosa, matando segundo Frager (Boulanger, Rept. ofBritsh., 
índia, 1890) uma ave em dois minutos e um cão em quatro 
horas. E claro que a expressão o matam supitamente com 
ho bafo», significa apenas o altíssimo perigo que parece de- 
rivar das suas mordeduras. 

No Roteiro do mar Roxo, aponta também em mais de 
uma conjunctura, quaes as aves que vio pelo caminho; os 
alcatrazes, os rabos de junco e outros que diz serem da 
feição de Ayuões. 

Porém, uma das notas mais interessantes de D. João 
de Castro sobre assumptos zoológicos, é, sem duvida, 
aquella em que se refere ás Medusas do Mar Vermelho. 
Diz que viu por este mar hunas Alfarrequas a que também 
chamam agoas maas, (esta denominação popular das medu- 
sas é corrente na costa ao norte do paiz) as maiores que 
tem visto; porque não eram de menos grandura de rodei- 
las, e descreve : a sua cor é muito branquaça, e alvaçãa. 
E como se fosse um zoologo assignalando o habitat d'uma 
espécie, diz que nam passam de Toro para baxo, com o que 
não querem occupar reino estranho; mas contentarense com 

em Portugal) testemunho evidente da nossa influencia, d'outras eras, no 
império japonez, e est'outro aíTirmado por Jacquemart na sua Historiei 
da Cerâmica, em que diz que a louça ordinária se chama na China bu- 
caro (púcaro?) e que esta palavra é portugueza, consolam-nos do que 
vemos no paiz, onde Casamança se escreve Casamance, Arguim se es- 
creve e lê á franceza Arguiu, Kola se escreve com K e não com C, 
etc, onde as denominações dos logares e das coisas dadas outrora pe- 
los portuguezes se vão estrangeirando prosodica e orthographicamente. 
i 1 ) Roteiro de Goa a Diu, pag. 8. 



110 REVISTA DE SCIENC1AS 



a sua morada antiga, que lie do Toro até Soe%. E logo, 
saindo destes limites, se acham infinitas pequenas, e da sorte 
das outras, e andam, e nacem pello mar ( 1 ). 

E tempo, porém, de deixar os roteiros de D. João de 
Castro onde tantos assumptos e tão altos e diversos se nos 
offerecem, para procurar n'outros auetores algumas das in- 
teressantíssimas notas zoológicas que por elles se encontram 
esparsas. 

Os tubarões (em Portugal e neutros paizes são diver- 
sas as espécies que se designam por esta palavra ou pelas 
que a significam nas differentes línguas) são acompanhados 
nas suas campanhas e viagens por duas, e talvez mais, es- 
pécies de peixes, um que lhe serve de guia, de piloto, (d^s- 
te habito lhe deriva o nome, Naucrates duetor) e outro que 
para atravessar incólume os perigos e canceiras da vida ou 
por qualquer outra razão, vae com elle, aferrando-se-lhe á 
pelle. Este ultimo não é um parasita, está isso provado. 
Os três peixes constituem uma dessas curiosas associações 
d'animaes. ás vezes de diversas classes, como por exemplo, 
a de certos crustáceos (Pagurus) que vivem em communi- 
dade com uma anémona do mar ((ylctinia) e com um verme 
(Nereido), e em que nem sempre o papel de cada associado 
é perfeitamente definido para os observadores. 

O professor Van Beneden conta que dissecara no £ Sr/- 
íish Museum alguns exemplares de Rcmora, o pretendido pa- 
rasita do tubarão, e que lhes encontrou no estômago peixes 
inteiros, fragmentos de crustáceos, ctc. ( 2 ). 

O padre Gaspar Affonso, a que já nos temos referido, 
diz na Relação da viagem da nau S. Francisco que os tu- 
barões são acompanhados por uns peixes a que chamam 
romeiros (é o nome vulgar do Naucrates duetor) vivendo 
das migalhas que a elles lhes cahem da boca, tendo, porém, 



(*) Roteiro do Mar Roxo, pag. 244. 
( 2 ) Commensanx et parasites, pag. 24. 



NATURAIS E SOCIAKS I I I 



todo o cuidado para que não lhe aconteça também servir 
de pasto ao companheiro, de se lhes segurar ao dorso con- 
trapostos á boca, que vae por baixo. 

Aparte o engano, attribuir a uma só espécie costu- 
mes que pertencem a dois peixes bem diversos, não deixa 
de ser realmente curiosa esta narração feita, a três séculos 
de distancia, da outra, a de Van Beneden. 

De resto o erro que o padre Gaspar commetteu creio 
que tem sido perpetrado por mais d 'uma vez, pois o illustre 
professor belga diz que algumas vezes as duas espécies teem 
sido confundidas e tomadas tão somente por uma ( 1 ). 

Não vale talvez a pena referir as noticias, muitas vezes 
circumstanciadas, dos hábitos e formas de outros animaes, 
por exemplo, da Preguiça, dos Tatus (que os Brazis cha- 
mam Zatus), das Zungas (Pulex penetrans) do Manatim ou 
Peixe Boi, das emas e camaleões, etc, de que os portu- 
guezes teem certamente a prioridade da descripção, na maio- 
ria dos casos, pelo menos. 

Não valerá também muito accentuar os factos referidos 
por escriptores estrangeiros acerca d'animaes trazidos pelos 
nossos antepassados, d'outros continentes para a Europa, 
como por exemplo o chamado porco da índia, Cavia aperea 
do Brazil, ou de animaes da Europa levados para a Ameri- 
ca, por exemplo as vaccas e bois de que descendem os gran- 
des rebanhos das Pampas, e que foram importados pelos 
portuguezes. Tudo isso serviria apenas para avolumar um 
escripto que, pela índole da publicação a que se destina, 
não deve ser muito desenvolvido; mas não queremos fe- 
chal-o sem reivindicar para um chronista nosso um facto 
que Darwin refere e que apparece aos olhos de muitos como 
uma novidade em primeira mão. 

Darwin põe em relevo a intelligencia dos animaes, e 
tratando dos crustáceos, do Birgus latro em particular, diz 

(*) Loc. cit. 



112 REVISTA DE SCIENC1AS 



que vive nas ilhas de coral, que é muito grande e que faz 
um ninho n'um buraco profundo com fibras tiradas dos co- 
cos. Diz mais que este crustáceo se alimenta dos fructos 
cahidos dos coqueiros, arrancando-lhe a casca fibra a fibra, 
começando sempre pela extremidade em que se encontram 
as três depressões oculiformes. Abre em seguida uma d'ellas 
batendo-lhe com as suas pesadas patas-maxillas e extrahe 
o fructo andando em volta com as patas posteriores ( 1 ). 

A noticia que Fr. João dos Santos dá na sua Ethiopia 
Oriental não deixa duvida que se tracta do mesmo crustá- 
ceo, e, não sendo tão minuciosa, é na essência a mesma : 
tão concordes são as duas que dir-se-ia que uma fora mol- 
dada na outra, e para não ser acoimado de demasiada ce- 
gueira pelas nossas coisas que pareça levar-me a encare- 
cei-as, e a vir interpetrar forçadamente o que se acha des- 
cripto, transcrevo para aqui as próprias palavras do escri- 
ptor, não sem dizer primeiro, que íoi nos baixos denomina- 
dos das Chagas, n'uma viagem da índia para Portugal, que 
os hábitos do Birgus latro foram observados: 

(( Havia mais n'estas ilhas uma casta de caranguejos da 
terra, que viviam em covas, os quaes eram tamanhos quasi 
como uma rodella, cujas pernas e boccas eram de tanta 
grandeza, que abarcavam uma palmeira, e subiam por ella 
acima, e cortavam um cacho de cocos com a bocca ( 2 ), e 

(*) La descendance de ího>rme, t. I, pag. 359- 

( 2 ) Dizemos patas-maxillas traduzindo patles-machoires, porque 
não diremos boccas como o clássico que citamos? Dizemos carapaça tra- 
duzindo carapace porque não diremos casca? Não diz Camões: 

Na cabeça por gorro tinha posta 
Huma mui grande casca de lagosta. 

G. vi., Est. xvii. 

É verdade que em compensação, porém, escrevemos corbeille e 
outras palavras estrangeiras que nunca aportuguezámos, esquecendo-nos 
ou ignorando que corbelha é portuguez de lei. 



NATURAES E SOCIAES I I 3 



deixando-se cahir de cima no cháo, tornavam a descer 
pela palmeira abaixo, e tirando-lhe as cascas com as boccas 
abriam todos os cocos, e comiam-lhe o miolo» (*). 

Fr. João dos Santos não diz que os Birgus procurem 
a extremidade que tem as três depressões para os abrirem, 
mas cita um facto que não revela, a meu ver, menos intelli- 
gencia, trepar ás arvores para colher os cachos, não espe- 
rando pela queda dos fructos. 

Estes facíos, relativos ao Birgus latro, observados por 
Ch. Darwin, teem sido transcriptos em diversas obras e en- 
tre outras n'uma de Romanes, Uintèlligence des animaux ( 2 ), 
mas não me consta que jamais alguém se lembrasse de ci- 
tar o notável chronista da Ethiopia Oriental. 

N'este mesmo livro, encontra-se também noticia d\imas 
aves gigantescas que tenho bem fundadas razões para crer 
que eram Aepyornis quasi implumes. Extinctos na actuali- 
dade, vê-se pela descripção que vae em seguida, que exis- 
tiam em Sofala ha quasi trezentos annos : 

« N'este tempo sahiram em terra alguns marinheiros a 
buscar lenha, e fructas pelos matos, que estão ao longo das 
praias; d^nde trouxeram dois pássaros novos cobertos 
inda de pennugem branca, que acharam no ninho, mui si- 
milhantes a águias nas unhas, olhos e bico; mas na gran- 
deza do corpo muito maiores, que grandes águias. Tinham 
nove palmos de comprimento da ponta de uma aza até á 
outra, que lhe eu mandei medir por façanha. Os marinhei- 
ros os mataram, por se não poderem ainda crear sem mãe, 
e fizeram uma grande panellada de sua carne, que come- 
ram. D^onde se pôde claramente colligir, que estes pássaros 
depois de chegarem á sua perfeita edade, devem ser de es- 
pantosa grandeza » ( 3 ). 



( d ) Loc. cit., 2. a parte, pag. 358. 

(2) Loc. cit., t. I, pag. 222. 

( 3 ) Loc. cit., t. II, pag. 225. 



114 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Aristóteles é apontado como um dos mais antigos pre- 
decessores de Darwin por ter escripto que se trava guerra 
entre os diversos animaes que vivem n^uma determinada 
região, se porventura se nutrem dos mesmos alimentos, e 
que se estes escasseiam, a lucta se estabelece até mesmo 
entre os indivíduos da mesma espécie; assim entre as pho- 
cas d'um mesmo logar, batem-se os machos contra os ma- 
chos, as fêmeas contra as fêmeas e também mais ou me- 
nos encarniçadamente os novinhos d\im e d'outro sexo. 

N'estas palavras, escriptas no tomo IX da Historia 
dos animaes do celebre philosopho grego, está patente o 
principio da lucta pela vida, apregoada e defendida pelos 
valiosos e copiosos argumentos exhibidos por Ch. Darwin. 

O principio da variabilidade das espécies, outra pedra 
sobre que assenta o transformismo, foi exposto pelo padre 
Gaspar Affonso no anno da graça de i5g6. 

Á parte os exemplos que são maus, imbuídos d^rros, 
que uma velhice de três séculos talvez desculpe, todavia 
é perfeitamente claro e nítido que elle admittia que as es- 
pécies podessem variar. E para que se possa discorrer 
com perfeito conhecimento sobre esta affirmação, aqui deixo 
transcripta a passagem do auctor a que me reporto: 

«... Vimos mais huns passarinhos, que depois de se 
enfadarem de ser Borboletas, e de viver em tão baixo e tão 
imperfeito estado, com dezejo de subir e valer, que athé 
nos brutos parece que reina, se passão a outro mais alto, 
e mais perfeito, fazendo-se passarinhos muito lindos, e de 
cores muy louçans, de que ha muitos na nossa quinta, que 
no modo de voar, e tomar pouzo não podem todavia enco- 
brir quem forão em outro tempo. 

«Cuja metamorfose, ou transformação crerá facilmente 
quem crer a do cão do Japão, que enfadado tão bem de 
ser Cão na terra, se vay tão bem a seo parecer melho- 
rar, e fazer peixe no mar, que eu vi, e tive nas mãos com 
metade da conversão já feita em Lisboa, que os nossos 



NATURAES E SOCIAES I I 5 



padres de lá mandarão no armo de 1 676, pouco mais ou 
menos». 

Paremos uns momentos para pôr em relevo que das 
linhas transcriptas um só facto resulta; é o seguinte: que 
o auetor admitte a possibilidade de transformação, não de 
uma espécie neutra mas d'especies d'uma classe, em outras 
d^ma classe ou ordem diversa. Mas prosigamos e vere- 
mos que os Santos Padres e Doutores da egreja confirmam 
o principio da variabilidade das espécies d'uma maneira 
que não admitte duvidas; deixaremos a passagem sem com- 
mentarios, sublinhando apenas algumas palavras ou phrases 
na parte que continuamos a transcrever. 

«Crera isto facilmente S. Basilio, e ajuntara estes dous 
exemplos, (acima transcriptos) se os soubera, ao seo, com 
que elle prova a resurreição na Homilia oitava do seo Hexa- 
meron, por estas palavras : Que dizeis vós, pergunto 
(diz o Santo) os que não credes a S. Paulo sobre a mu- 
dança, que diz ha de hever na resurreição? se vós vedes 
tantas aves do ar mudarem também suas formas, como se 
conta também d^quelle bicho da índia, que tem dous cor- 
nos, e este se converte primeiro em Lagarta, depois an- 
dando o tempo, se faz bicho de seda, e nem ainda perse- 
vera n^sta forma, mas hindo-se aquellas molles pellinhas 
de seus cominhos pouco e pouco alargando á feição de azas, 
se faz doesta maneira finalmente ave. 

«Crera-o tão bem S. Gregório, o qual na oração quinta 
de Theologia, fallando da variedade de nascimentos e gera- 
çoens com que a natureza produz os animaes, diz o seguin- 
te : Dizem, que se gêrão não só as mesmas cousas das mes- 
mas, e diversas de diversas ; mas tão bem as mesmas de 
diversas, e diversas das mesmas. E ajunta logo, como 
mayor maravilha da natureza : que ha animaes, em que a 
natureza se quer mostrar tão magnifica e poderosa, que dei- 
xando de ser os que são de huma espécie, se passão e conver- 
tem em outra». 

* 



IIÓ REVISTA DE SC1ENC1AS 



Estas ultimas palavras, pelo valor da afirmativa que 
encerram, como que fazem esquecer a ingenuidade d'alguns 
exemplos e argumentos anteriores, e provam, como tudo 
que deixo escripto, que o espirito dos portuguezes não era 
propenso apenas ás emprezas guerreiras e marítimas; e que 
tanto preoccupava os nossos maiores metter uma lança em 
Africa, engastar um pelouro n'um panno de fortaleza ini- 
miga, como a observação dos phenomenos naturaes e a 
descripção dos seres orgânicos dos paizes que visitavam. 

Ahi estão as chronicas e os roteiros a attestal-o, ahi 
está Santa Maria de Belém ostentando nos seus pórticos, 
nas suas columnas, na renda de pedra que cobre os seus 
muros, a origem do thema dos seus ornamentos, a flora de 
paizes distantes. Oxalá nós imitássemos ao menos n'este 
campo aberto, o da sciencia, os nossos antepassados e não 
continuássemos contando somente o que fizeram, que os 
nossos avós descobriram, que foram grandes, que foram 
heroes, a quem nos pergunta o que somos, para dizermos 
afinal que nada valemos; exactamente como os gansos da 
fabula de Kriloíf, o fabulista russo, que a tudo respondem 
e só isto respondem : que descendem dos salvadores do 
Capitólio para confessarem por fim que elles, porém, nada 
teem feito. 

Lisboa. 



Balthazar Ozorio. 



TRADIÇÕES 
POPULARES PORTUGUESAS 



O QUEBRANTO 



Um diccionario português define quebranto: «doença r 
desfallecimento do corpo ou mal que, segundo a crendice 
popular, se communica pelo olhar de certas pessoas e espe- 
cialmente dos feiticeiros ás creanças e animaes»; e os outros 
livros da mesma categoria dão definições similares. 

Em verdade, o povo distingue duas espécies de que- 
branto : o que resulta do mao olhado ou mao olho e o que 
resulta das palavras de louvor ou elogio, dirigidas princi- 
palmente a uma creança, comquanto nem sempre se appli- 
que á segunda a designação de quebranto. Começarei a 
minha exposição das crenças populares relativas ao que- 
branto por esta segunda espécie. 

i. Quando, ainda com muito boas intenções, se dirige 
a uma creança ou se pronunciam deante d'ella (ou mesmo 
na ausência), palavras de louvor como: está muito crescida! 
é muito bonita 1 é muito esperta! é uma rosal etc, a creança 
fica embruxada ou com quebranto. 



Il8 REVISTA DE SC1ENC1AS 



2. O meio para evitar que esse mal succeda á creança 
consiste em juntar ao louvor as palavras: «benza-a Deus» 
ou outras equivalentes. 

Esta crença está muito espalhada no país, mas é sobre- 
tudo vivaz nas províncias do norte. 

Ha todavia, entre o povo, espiritos fortes que zombam 
da crença, alterando a formula na seguinte : 



Benza-a a Deus, não a lamba o gato; 
Se a lamber, fica farto. 



Affirmam-me, não obstante, que no Algarve essa for- 
mula é empregada a serio. 

«Quando se vê uma creança a primeira vez, diz-se : 



Benza-te Deus, 

Bons olhos te vejam 

E os mãos quebrados sejam.» 

(J. Leite de Vasconcellos, Era Nova, t. I, p. 5461). 



3. As palavras elogiosas dirigidas a um objecto ina- 
nimado podem também ser causa da sua destruição. Assim 
contaram-me que tendo uma dama um bello espelho na sua 
sala, este lhe foi muito gabado por uma outra que a visitou 
e claramente revelou a inveja de possuir um egual ; e que 
mal a visita saiu, o espelho estalara, fazendo-se em mil pe- 
daços. 

> 

4. Ha pessoas cujo olhar tem a propriedade de fazer 
mal ás outras pessoas ou aos animaes em que se fita: e 
as ultimas adoecem (sobretudo as creanças) e morrem, se 
não se lhe acode; o mesmo succede aos animaes. Algu- 
mas vezes o mao olhado não só faz adoecer as pessoas, mas 
ainda lhe acarreta toda a espécie de infelicidade. 



NATURAES E S0C1AES I I 9 



5. Ha pessoas que teem o mao olhado sem saber que 
o teem e que portanto produzem involuntariamente o mal ; 
outras fazem propositadamente o mal com o olhado, sobre- 
tudo por inveja. 

Essas crenças estão muito espalhadas entre nós. 

6. O mao olhado pode incidir também sobre as coisas 
inanimadas, sobre as propriedades ruraes, por exemplo. 

7. a Quebranto : — é o estado de abatimento em que 
alguém se acha. Ha-o bom e mau; o primeiro quando se 
louvam dotes da pessoa quebrantada, sem os abençoar; o 
segundo quando é dado por olho invejoso.» (J. de Torres, 
no Almanach do Archipelago Açoriano para 1868, p. 11 3. 

8. O quebranto dado por olho invejoso distingue-se 
por suscitar bocejos repetidos. (Idem, lbid.) 

Vejamos agora quaes são os meios prophylacticos e cu- 
rativo contra o quebranto, conhecidos do nosso povo. 

9. As fi&as, que se fazem de metal, marfim, osso e 
sobretudo de azeviche (variedade de linhite), são os meios 
prophylacticos mais usados contra o quebranto; vêem de- 
pois as moedas furadas que se trazem ao pescoço, os cha- 
velhos que se penduram ás portas das casas, do curral, 
no carro de bois, nos mastros do barco i 1 ) e outros amu- 
letos. 

10. « Azeviche e cominhos pendurados ao pescoço ou 
á cintura preservão de quebranto ou mal de olhado.» (Fr. 



(*) Nos mastros das embarcações do Tejo, chamadas fragatas, 
vê-se esse appendice, a que os zombeteiros chamam barrete do arretes, 
suscitando assim as iras dos tripulantes. 



120 



REVISTA DE SCIENC1AS 



João Pacheco, Divertimento erudito, t. III, p. 712. Lisboa, 

1741). 

11. «Quando ha algum nascimento de racional, ou ir- 
racional, deve ao pescoço do recem-nascido pôr-se uma figa 
para o livrar do quebranto.» (oAlmanach do oArchipelago 
oAçoriano para 1868, p. 11 3). 

12. «É bom pregar uma ferradura nas portas das ca- 
sas, pela parte de fora, para livrar de quebranto.» Con- 
siglieri Pedroso, Superstições pop. port. in Positivismo, t. III, 
p. i3 (n.° 108). 

i3. «Doença em creança do berço ou mesmo adulta é 
quebranto. Tira-se juntando as mães quatro pedaços de 
chita, quatro d'algodão, quatro de pannos de lã, quatro de 
sapatos velhos, quatro de páo do ar, quatro raminlps de 
aroeira, quatro de rosmaninho, quatro de alecrim e deitam 
tudo nas brasas. Pelo fumo passa-se o doente para se cu- 
rar.» (Freguezia d'Anciães de Baixo, concelho de Santa- 
rém, in Almanach de Lembranças para 18 j /, p. 233. 

14. «Para curar as creanças de quebranto passam-se 
por uma meada de linho.» (Pedrógão, in oAlmanach de 
Lembranças para 186 p, p. 317). 

15. «Para livrar de quebranto as creanças pequenas é 
bom pôr-lhes ao pescoço um cordão de seda preta com os 
seguintes objectos enfiados: um sino saimão, três vinténs 
em prata furados, uma argola, um dente de lobo, uma meia 
lua e uma figa.» (Gons. Pedroso, Ibid, p. 1 54, n.° 314) 

16. «Dizem que contra o quebranto ha algumas pes- 
soas (que quasi sempre são mulheres, supposto que eu já vi 
hum homem que o fazia) que benzem ; e que este he o uni- 



NATURAF.S E SOCIAES 121 



co remédio que ha. Para este eíYeito he preciso que a pes- 
soa quebrantada esteja na presença da que ha de benzer; 
ou que pelo menos esta tenha á sua vista alguma cousa per- 
tencente á pessoa, que tem o quebranto, v. g. hum colete, 
camiza, vestia, ou, pelo menos, hum lenço. Estando então 
qualquer destes trastes na presença da benzedeira, começa 
esta a dizer secretamente muitas palavras, que não pode 
deixar de ser uma enfiada de parvoíces, e despropósitos, e 
entra juntamente a abrir a boca, e a affeitar huns espregui- 
çamentos, cuspindo, e com outras ridículas visagens acaba, 
dizendo, que tinha hum grande quebranto, e que bem lhe 
custava tirar-lho, mas que tenha fé, que fica livre delle ; que 
se defume em tantos bocadinhos de mecha, tantos de azeviche, 
tantas folhas de louro, e outras ridicularias, assinando nu- 
mero certo aos bocadinhos de cada cousa.» (Invectiva cri- 
tica contra as bruchas, siganas, e benzedeiras, etc, exposto 
tudo numa carta que escreveu ***. Lisboa, 1763. Na 
Offic. de Ignacio Nogueira Xisto. Folha volante). 

17. «A cura (do quebranto) é empregar uma cruz de 
rosário, ou ramo d^alecrim verde, como hyssope, asper- 
gindo em cru\ sobre o quebrantado; tudo acompanhado 
d'algumas orações. D'estas tem as pessoas criticas mais 
desabusadas feito como satyra a seguinte formula compen- 
diosa : eu te tiro o quebranto gg com três pães no ventre gS 
co/;? três palhas alhas £g e três maravalhas gg e três cabeças 
d'' 'alho £g que eu tinha para semente.,, e da origem de tal 
formula contam certa historia mui comprida da mulher que- 
brantada, que ante o marido tinha fastio de morte, mas 
que na sua ausência lhe papava os pães e os alhos nas 
açordas 1» (J. de Torres, in Almanach do Archipelago Aço- 
riano para 1868, p. 11 3). 

18. ((O dedo pollegar tem a virtude de talhar a md 



122 REVISTA DE SC1ENCIAS 



olhadura, fazendo três cruzes na testa, dizendo em três noi- 
tes successivas: 

Dois t'o escantam 
Três t'o tiram, 
Que são Padre, Filho 
Espirito Santo. 

(Bragança. — Theophilo Braga, povo portuguez, f. II, p. y3. Lisboa, 1886). 

19. «Para tirar-se mao olhado deve rezar-se a se- 
guinte oração: 

Deus te fez, 

Deus te creou ; 

Deus te desolhe 

De quem mal te olhou; 

Se é torto ou excommungado, 

Deus te desolhe do seu mao olhado. 

(Consiglieri Pedroso, Ibid. t. IV, p. 215, n.° 540). 

20. Para talhar a má olhadura faz-se o seguinte : 
Molha-se o dedo pollegar no azeite de uma lamparina, por 
exemplo, fazem-se três cruzes na testa e diz-se : 

De dous t'o deu 
Três t'o tiram que são 
Padre, Filho e Espirito Santo. 

O operante defuma-se então com alecrim e ha de repe- 
tir a mesma cousa três noites». (Idem, Ibid, p. 282, n.° 
63 4 ). 

21. Para talhar o quebranto (formula inédita?) : 

Tu, fulano, tens quebranto, 
Quem t'o deu, quem t'o daria; 
Talhe-t'o Deus e a Virgem Maria. 



NATURAES E SOCIAES J23 



Reza-se um P. N. e uma A. M. Bota-se agua numa 
tijella e lança se na tijella uma brasa e dizem-se aquellas 
palavras. Se for quebranto, a brasa vae ao fundo, senão 
sobrenada. Indo ao fundo, repetem-se as orações e as pa- 
lavras nove vezes e o doente rica curado. (Minho). 

22. Para talhar o quebranto: 



Deus me deu, Deus mariou, 

Deus me desde de quem dada me botou. 

As pessoas da Trindade são três, 

Teem poder e pode. 

D'onde este mal vem para la torne. 

Jesus, nome de Jesus m'ajude, 

Que é o santo de virtude. 

Eu te talho bicharia e bruxaria. 

(Minho.) 



No Douro e Minho diz-se das creanças que teem ca- 
marás verdes que estão com o bichoco (ou bicho) e levam- 
se a quem saiba talhar o bichoco. O bichoco é attribuido 
a influencia da lua, a uma espécie de quebranto influído por 
aquelle planeta, mas também a quebranto doutras origens. 
Para essa perturbação digestiva das creanças ha na lingua 
o termo afito. Curvo Semedo, fallando d^clle, - diz : «Ainda 
que as velhas e a gente ignorante attribuam as taes came- 
ras ou vómitos verdes a effeitos da Lua a que chamam 
qfito. (Polyanthea medicinal, I, i5, 58). E noutro lugar: 
«Costumam cahir as crianças facilmente na doença do afilo 
pelas indigestões e cruezas do estômago.» [Atalaia da vida, 
4). A palavra afito deriva de afilar (composto de fitar) e 
mostra por tanto a correlação com o quebranto pelos olhos, 
ou porque a creança fite a lua ou seja fitada por alguém 
que tenha o poder de quebrantar. 



124 



REVISTA DE SCIENC1AS 



23. Mandam-se os quebrantos para o mar coalhado. 
O povo tem uma certa noção vaga da existência do 
oceano glacial que liga talvez ás regiões infernaes. 

(Continua). 



F. Adolpho Coelho. 






VARIA 



LABORATÓRIO MARÍTIMO D'AVEIRO 



(Con'inuação) 



Creada a receita para execução do actual projecto, resta escolher 
o local em que se assentasse o laboratório, que deve preencher os se- 
guintes fins : 

i.° — Ser de fácil accesso em tcdo o tempo; 

2.° — Ter communicação direc'a e continuada com o mar ; 

3.° — Achar-se perto de uma nascente ou deposito d'agua doce 
para alimentação da machina de vapor e até para experiências relativas 
á influencia da salsugem das aguas no desenvolvimento das espécies pis- 
cicolas ; 

4. — Possuir, nas proximidades, terreno facilmente adaptável a um 
viveiro, onde possam permanecer os animaes sujeitos a experiências e 
onde facilmente se apanhem aquelles que para tal effeito forem preci- 
sos e para as remessas que haja a fazer para os estabelecimentos scien- 
tificos que os peçam ; 

5.° — Encontrar-se em fácil accesso com um cães em que se possa 
embarcar, sem diíficuldade nas explorações de pesca que haja a empre- 
hender ; 

6.° — Ser d'uma construcção económica e rápida e amplo bastante 
para que ahi se possam executar observações referentes aos phenome- 
nos physicos, chimicos, mineralógicos, botânicos e zoológicos que se 
dão nas aguas ; 

7. — Ter casa para habitação do empregado technico, que deve 
permanecer continuamente no laboratório ; 

8.° — Possuir compartimentos em que os alumnos das escolas do 



I2Ó REVISTA DE SC1ENC1AS 



paiz ahi sigam cursos práticos de piscicultura e de zoologia, como com- 
plemento indispensável do que aprenderem theoricamente. 

O local que satisfaz a todos estes requisitas na região de Aveiro 
denomina-se Castello ou Forte da Barra (desenho n.° i) e a elle se re- 
feriu já outro trabalho ( T ). 

Com effeito, em todo o tempo é accessivel, pois que se liga com 
Aveiro por meio da estrada distrital n.° 71 — Barra de Aveiro a Avel- 
lans de Caminho, e portanto, fácil seria o accesso do mencionado labo- 
ratório aos alumnos de zoologia da Universidade de Coimbra e Poly- 
technica do Porto, por isso que, achando-se Aveiro a cerca de duas 
horas de caminho de ferro de qualquer d'aquellas cidades e encontran- 
do-se o laboratório projectado a 8:700 metros da estação do caminho 
de ferro, em menos de quatro horas de jornada se attingiria aquelle es- 
tabelecimento, accrescendo que por módico preço se obteem vehiculos 
que efTectuem o transporte de passageiros da estação de Aveiro até ao 
Forte da Barra. 

Embora o local designado não tenha communicação directa com 
o mar, pois que está a i:35o metros da linha da costa, ao sul da estrada 
acima designada acha-se a foz do braço da ria conhecido pelo nome de 
ria de Mira, (desenho n.° 1) não differindo a agua que ali corre d'aquella 
que se obtém no mar, tanto sob o ponto de vista da salsugem como das 
demais propriedades physicas que uma analyse, perfunctoria é certo, 
permittiu observar. Demais, o mencionado braço da ria, communican- 
do directamente com o canal da barra de Aveiro e achando-se sujeito 
ao regimen de maré?, que no referido local attingem uma altitude de 
i m ,94, está. por assim dizer, nas mesmas condições que o Oceano. 

No sitio do Forte da Barra construiu-se um deposito d'agua potá- 
vel (desenho n.° 1 e 3) onde fazem aguada os navios surtos n'este porto 
e que abastece a pequena população operaria d'aquella localidade, de- 
vendo observar-se que aquella agua vem de um poço situado a uma 
distancia de 1040™, o e do qual é ella tirada por meio de um moinho 
de vento. O poço que fornece a agua nunca secca, tendo também dado 
agua para grande numero das habitações da praia do Pharol, para os 
operários e serviços de construcção d'aquelle edifício e ainda para a 
machina de vapor destinada a mover a compressora do ar para a sereia 
assente no musoir do molhe do sul da barra. Demais, a agua que se 
encontra no deposito referido é a melhor que existe n'aquelle local e 
com todos os característicos de uma agua de boa qualidade, pois que, 
além de filtrada por areia, que forma o fundo e paredes do poço, dis- 



í 1 ) Vid. Engenheria e Archiíectura, 1.° armo, pag. 27, col. l. a 



NATURAKS E SOCIAKS 



I27 



solve perfeitamente o sabão, cose bem os legumes e não tem sabor nem 
cheiro. 

Quando, por ventura, qualquer temporal destruísse o moinho que 
tira a agua do poço, sempre se poderia chegar até próximo d'este para 
o que bastaria percorrer 1:587 metros com wagonetes carregados de 
pipas, que se encheriam com extrema facilidade^ como por vezes já tem 
suecedido. 

Decerto não estão melhor servidos os laboratórios de Roscoíf e 
Banyuls, pois que n'aquelle uma cumprida cisterna, construida de nivel 
e muito perto da machina. com as aguas das chuvas cahidas nos telha- 
dos, permittia formar um reservatório d'agua doce para alimentação do 
gerador (*) e em Banyuls, não bastando a agua das chuvas para alimen- 
tação das caldeiras de vapor, foi preciso adquirir um terreno para n'elle 
abrir um poço ( 2 ). 

Do lado norte da estrada já referida (desenho n.° 1) encontra-se 
um terreno alagado e vestígios de uma antiga motta que pôde aprovei- 
tar-se para a vedação do viveiro a que- acima se allude e que ficaria 
com uma área de 42466 m2 ,5o e um volume d'agua de mais de vinte mil 
metros, sendo fácil, quando se pretendesse maior cubo d'agua, effectuar 
dragagens no fundo constituído de lodo e areia do projectado viveiro. 

Indispensável é este annexo de um laboratório marítimo nos casos 
d'aquelle que se projecta, que deve ser principalmente considerado 
como uma escola em que a industria vá aprender a imitar os processos 
scientificos ali praticados. Embora não seja parte integrante d'uma es- 
tação aquicola «é certamente um auxiliar precioso para os estudos phy- 
siologicDs; ali podem conservar-se facilmente os animaes submettidos 
ás experiências » ( 3 ;. 

Ainda, porém, quando só para trabalhos de zoologia pura se ap- 
plicasse o laboratório que se projecta, indispensável ahi seria o viveiro, 
para que em todo o tempo se podessem effectuar as remessas de ani- 
maes para demonstração nas aulas de zoologia. Este ultimo serviço ad- 
quiriu em Roscoíf uma grande importância fornecendo mais de vinte 
cursos scientificos, tanto de França como do estrangeiro, conforme 
n'outra parte se indicou ( 4 ) e tendo attingido em quatorze annos um to- 
tal de 1:099 remessas que na sua maior parte se effectuam no inverno 
porque o calor é pouco favorável ás viagens dos animaes. Em RoscofF, 
porém, nem sempre se pôde proceder á apanha dos animaes requisita- 

(!) Vid. H. fie Lacaze-Duthiers. — Archives cit, pag. 2G3. 

( 2 ) Vid. H. de Lacaze-Duthiers. — Archives cit., pag. 203. 

( 3 ) Vid. H. de Lacaze-Duthiers. — Archives cit., pag. 275. 

( 4 J Vid. Engenheria e Architeclura, 1.° anuo, pag. 27, col. 2. a 



128 REVISTA DE SCIENC1AS 



dos, sendo o estio a mais favorável estação para este trabalho e portanto 
aquella em que se faz provisão de animaes para remetter no inverno 
para as aulas de zoologia ( 1 ). Em Banyuls também se construiu um vi- 
veiro que devia estar acabado em 1891 e, embora desde i885 até 1800 
se expedissem 1:014 bocaes para as aulas de zoologia, o snr. professor 
H. de Lacaze-Duthiers espera que maior desenvolvimento terá aquelle 
serviço quando terminarem as obras do viveiro e este bem forne- 
cido ( 2 ). 

Como annexo que é, não se conta, porém, a despeza a fazer com 
esta obra nos limites da verba acima determinada para a construcçáo do 
presente laboratório. 

«Ignora-se nos portos bem organisados, escreve o snr. H. de La- 
caze-Duthiers, os inconvenientes e diíficuidades de embarques que apre- 
sentam as praias de seixos ou d'areia, principalmente com barcos de 
quilha e, como antes da construcçáo do laboratório o ancoradouro de 
Fontaule era tão insuííiciente quanto possivel, bastantes difficuldades tí- 
nhamos quando era preciso ir á pesca. 

«Hoje, quando os barcos da estação (ha três destinados ás diver- 
sas espécies de pesca) té^m que receber pessoas do laboratório que de- 
sejam ir ao mar, vêem encostar ao pé do terraço e é com extrema faci- 
lidade que se embarca; também quando as embarcações regressam das 
dragagens vindo amarrar ao molhe, cada qual pôde ir procurar nas re- 
des o que deseja, sem ter os aborrecimentos que determina a precisão 
de tomar um batel para ir a bordo. 

E principalmente quando se tracta de partir com o material do 
escaphandro, pesado e difficil de manobrar, que todos nós apreciamos o 
bom serviço que nos faz o molhe construido pelas Pontes e Calçadas » ( 3 ). 

No desenho n.° 3 claramente se vê uma rampa de madeira que fa- 
cilita o embarque exactamente em frente do laboratório projectado e em 
local onde só em temporal de sudoeste é que é difficil fazer as opera- 
ções de carga e descarga, que então podem ter logar sobre a motta do 
viveiro em local que para tal ílm ali se projecta. Assim fica em todo o 
tempo preenchida a quinta condição imposta ao laboratório indicado. 

Existe no local do Forte da Barra um edifício em que se acham 
installadas as ofíicinas das obras da barra de Aveiro, (for,a, estaleiro, 
depósitos de madeira, cal e puzzollana), em outro edifício encontra-se a 
officina de marinheiro e os materiaes para construcçáo, utensilios e fer- 
ramentas acham-se distribuidos por quatro depósitos conforme se vê na 

( 4 ) Vid. H. de Lacaze-Duthiers. — Archives cit., pag. 288. 

( 2 ) Vid. H de Lacaze-Duthiers. — A rchives cit., pag. 329. 

( 3 ) Vid. H. de Lacaze-Duthiers- .4 rshives^ cit pag. 301. 



NATURAES E SOCIAES l 2<) 



planta que constitue o desenho n.° 3. Além d'ísso as madeiras necessá- 
rias para o concerto dos barcos acham-se n'um viveiro, a quinhentos 
metros do local em que se encontra o estaleiro Com esta disposição, que 
a força das circumstancias obrigou a conservar até hoje e que foi devida 
ás pequenas dotações que sempre couberam ás obras da Barra e Pia 
d'Aveiro tornou-se indispensável o concurso de guardas nocturnos e o 
serviço, que poderia ser desempenhado por um só ferramenteiro, teve 
que distribuir-se por dois guardas de deposito, accrescendo que o trans- 
porte das madeiras desde o viveiro até ao estaleiro, embora se faça em 
wagonetes, exige para a operação da carga muito mais gente do que se- 
ria precisa com a disposição de que mais adeante se tractará. Pequena 
economia trará certamente a disposição adeante indicada, pois que 
pouco excederá a cem mil reis annuaes ; mas, ainda assim, é um ar- 
gumento mais em favor da adaptação do edifício já referido a um labo- 
ratório marítimo. 

Com efTeito, de alvenaria se construíram as paredes das forjas, es- 
taleiro e depósitos acima indicados, bem como a habitação do ferramen- 
teiro que ali reside e em excellente estado se encontram para que se 
possa dar ao edifício o pé direito de que carece pelo novo projecto. 

Demais a não serem 72,94 metros cúbicos de parede a demolir 
já para conveniência de divisões interiores, já para dar relevo á fachada 
do edifício ou para melhor o amoldar ao fim que se tem em vista, tudo 
o mais se aproveita, o que representa no custo do prédio uma econo- 
mia de 268$o35 reis. 

O desenho n.° 3 representa a planta do andar térreo do novo edi- 
fício designando-se ali as paredes a construir de novo e aquellas que 
devem ser aproveitadas ; e demolidas e para evitar despezas que não te- 
riam immediata justificação, respeitou-se a largura de 7 m , 10 da ala de 
oeste do edifício emquanto que mede 9 m , 10 a do lado de leste. Nos al- 
çados das fachadas lateraes (desenhos n.° 5 e 6) evidencia-se esse facto 
que destroe um pouco a belleza do edifício ; mas a modéstia da installa- 
ção que se pretende, justifica esta derogaçáo das regras da esthetica 
que, demais em todo o trabalho só foram respeitadas quando d'ellas não 
resultava sensivel augmento de despeza. Dar á ala de oeste a mesma 
largura da de leste significaria a demolição de 34,262 metros cubico s 
d'alvenaria e reconstrucção de y3 tu ,5o, o que se traduziria n'uma des. 
peza de i36$i95 reis que assim se economisam. 

Fossando á descripção das disposições do edifício encontra-se que 
elle se compõe de um corpo central e duas alas, em que se distribuem 
os diversos compartimentos necessários para os estudos zoológicos e 
oceanographicos, justificando-se as disposições adoptadas á medida da 
descripção e quando isso fôr conveniente. 

10 



HO REVISTA DE SCIENC1AS 



No corpo central do edifício com porta independente para a rua 
ha um compartimento com 8™, 6o de comprimento por 9 metros de lar- 
gura, que se destina a museu e bibliotheca. Visto tratar-se de um esta- 
belecimento de ensino pratico deve ter-se em vista concentrar no refe- 
rido museu tudo quanto diga respeito á ria e ás industrias d'ella depen- 
dentes. Ahi haverá, além de toda a bibliographia referente á ria e costa 
litoral d'Aveiro, modelos reduzidos á escala de barcos moliceiros, mer- 
canteis, saleiras, bateiras e outras embarcações usadas n ! esta ria e em 
cada um dos modelos expostos estarão bem visíveis as indicações esta- 
tísticas e commerciaes, concernentes á embarcação, ás suas applicações, 
numero de pessoas com que costuma ser tripulada, etc. Do mesmo modo 
os apparelhos de pesca, que difficilmente possam pelo seu tamanho ser 
contidos na sala, serão reduzidos, e em cada um d'elles escrever-se-ha a 
parte de pescaria que ganha o apparelho, sua applicação e modo de ma- 
nobrar, dimensões das diversas malhas, quando as tenha com pedaços da 
rede como piêce à conviction, estampas e photo^raphias relativas ao ap- 
parelho de pesca que se observa, dados estatísticos referentes ao numero 
dos apparelhos que n'esta região se empregam. Os peixes, molluscos 
crustacos e outros animaes dissecados, as algas creadas na ria também 
teriam uma noticia breve allusiva a cada exemplar exposto e junto a 
elle de maneira que se podesse fazer ideia clara do que se observava. 
Uma indicação bibliographica completaria a noticia mencionada. O mes- 
mo succederia para os exemplares mineraes e demais productos da ria, 
taes como o sal, a soda e outros que industrialmente d'ella se extrahíssem 
seriam também expostos nas diversas transformações por que passassem, 
acompanhando cada transformação de uma breve noticia explicativa e 
ligando as diversas noticias umas ás outras por meio de referencias Os 
dados estatísticos relativos a cada industria e as indicações bibliographi- 
cas que podessem obter -se fariam parte de cada noticia. Poderá obje- 
ctar-se que é pequeno o espaço reservado para semelhante museu e bi- 
bliotheca, mas convém observar que, além dos 2i m ,6o de comprimento 
linear das paredes podem collocar-se á vontade n'este recinto i5 mezas 
para leitura, restando ainda uma superfície de 26 metros quadrados que 
se aproveitaria com estantes n'uma exposição com 36 metros lineares. 
Quando, porém, o museu e bibliotheca tivesse a felicidade de tomar um 
desenvolvimento tal que não coubesse no recinto que lhe é destinado, fá- 
cil seria, como se indica no desenho n.° 2, reservar para es>e effeito 226 
metros quadrados de terreno que ao edifício agora projectado se ligariam 
por uma passagem envidraçada em que poderia fazer-se um jardim d^n- 
verno. Infelizmente não é d'esperar que a ria e litoral d esta região at- 
tinjam em breve tamanho desenvolvimento que não cheguem os 7i m3 ,40 
de superfície reservados para museu e bibliotheca. 



NATURAES E S0C1AES IM 



Doze metros e nove mil cento e cincoenta centímetros quadrados 
conta a superfície do laboratório oceanographico, a que fica annexo 
com n Q,2 ,395o o laboratório especialmente destinado ás observações e 
experiências de physica e chimica, interpondo-se entre os dois laborató- 
rios um gabinete com 7 ,1,2 ,i75o para o chefe dos trabalhos oceanogra- 
phicos. Rasões de symetria apenas deram porta independente para o 
laboratório oceanographico sendo preciso, para attingir o das investiga- 
ções phvsicas e chimicas, passar do museu por um corredor com 14 
metros de comprido ou percorrer em todo o seu comprimento os i3 m , 20 
de sala de estudo, que se acha contigua áquelle compartimento. Em 
todo o caso não parece que «seja indispensável dar ao laboratório de 
physica e chimica porta para a rua, visto que as investigações a que se 
entregar não passarão do complemento d'outras oceanographicas, mo- 
tivo pelo qual será por intermédio d'aquelle laboratório que serão rece- 
bidos os exemplares que tiverem que submetter-se aos estudos de phy- 
sica e chimica. 

Em frente dos três compartimentos acabados de indicar ficam cin- 
co casas destinadas para arrecadações e officinas, com uma superfície 
total de 32, m2 n5o, podendo três d'ellas pela sua área de pouco mais de 
5 metros quadrados ser destinadas para mezas de investigações particu- 
lares quando os quatro compartimentos a esse fim destinados, de que 
adeante se fallará, forem para isso insuflicientes. 

A sala de estudo, em que serão dados os cursos práticos comple- 
mentares dos de zoologia das nossas escholas superiores, em que se fa- 
rão prelecções de piscicultura e trabalhos de zoologia, tem uma área de 
8o m2 ,52, pois que conta 6 m , 10 de largura e i3 m ,20 de comprimento. 

A seguir d'esta sala e no extremo oeste do edifício encontram-se 
quatro compartimentos com quatro metros quadrados e meio cada um, 
que se destinam para as mezas para investigações particulares. Doze 
d'estes compartimentos contava o laboratório de RoscofTem 1891, além 
das seis mezas com destino aos alumnos da Sorbonne e em Banyuls, no 
mesmo anno, existiam oito. Embora seja gratuita nos dois laboratórios 
indicados a occupação dos referidos compartimentos, contendo três me' 
zas, estantes em que se encontram os frascos de vidro precisos para o 
trabalho, um microscópio, uma lente composta e uma certa quantidade 
de reagentes havendo no aquário uma tina correspondente ao numero do 
compartimento de trabalho e até os tanques, se se reconhecer necessá- 
rio; (*) entende o snr. Rocha Peixoto que, na estação d'Aveiro, deve- 
riam, a exemplo do que succede em Nápoles, alugar-se os compartimen- 
tos alludidos, o que constituiria um auxilio no custeio das despezas cor- 

(*) Vid. H. de Lacaze-Duthiers — Archives cit., pag. 268. 



132 REVISTA DE SCIENC1AS 



rentes do laboratório projectado e, também que por parte das escholas 
que desejassem aproveitar-se dos recursos que lhes prestaria o laborató- 
rio se desse a cedência de uma percentagem das referidas dotações a ti- 
tulo de arrendamento de meza. (*j Propositadamente se collocaram no 
actual projecto numa extremidade do edifício os compartimentos alludi- 
dos para que os sábios, os zoologos, os physiologistas, es histologistas, 
em summa os naturalistas que recorrerem a este estabelecimento po- 
dendo-o percorrer inteiramente, tenham uma entrada independente para 
os compartimentos que escolherem e se isolem do resto do edifício quan- 
do isso lhes convenha. Se a affluencia de investigadores particulares for 
tal que não bastem os quatro indicados compartimentos, como acima se 
disse mais três salas podem ser para tal effeito reservadas, embora não 
com as condições de independência d'aquellas de que acaba de se tra- 
ctar. 

Voltando ao museu e bibliotheca, d'onde qualquer visitante pôde 
sahir com ideias claras e positivas da região litoral e alagada d'Aveiro 
e caminhando para leste encontram se no edifício central três compar- 
timentos destinados ao director do laboratório preparador é ao archivo 
e contabilidade. 

Escusado será justificar as duas primeiras divisões mas a terceira 
constitue uma originalidade d'este projecto tanto mais precisa comtudo 
quanto é certo que d'ella resultará um rendimento que pôde attingir ci- 
fra importante com que se melhorem as installações do presente estabe- 
lecimento. 

O jornal Êngenheria e Architectura em 1891, transcrevendo algu- 
mas palavras do vice-presidente da sociedade malacologica de França 
precedia-as das seguintes, que teem orientado todo este trabalho; &mas 
não é apenas a um alvo de sciencia especulativa que podem visar tão 
úteis estabelecimentos, por isso que o campo que lhes está aberto é vas- 
tissimo, ainda no programma que, sob o ponto de vista da alimentação, 
lhes traça o snr. Locard» ( 2 ) e como explicação do pensamento ali corn- 
udo o mesmo jornal, no anno corrente, dizia «tanto em Aveiro como no 
resto do paiz não convergem os capitães senão com difficuldade para as 
emprezas industriais, já por falta de iniciativa, já pelos maus resultados 
que de muitas se teem evidenciado. Náo deve portanto esperar se que os 
capitães se tentem com a piscicultura, sem que os factos manifestem as 
vantagens remuneradoras dessa industria e só com algarismos e medi- 
ções é que se conseguirá tornar palpáveis aquellas vantagens. 

«Um estabelecimento cuja probidade scientifica não possa ser posta 

(!) Vid. Rocha Peixoto — Estações d' Aquicultura, pag. 16. 

( 2 ) Vid. Êngenheria e Architectura — 1.° anno (1891) pag. 27, col. l. a . 



NATURAES E SOCIAES I j 3 



em duvida, como é aquelle cuja creação propõe o snr. Rocha Peixoto, 
será o único capaz de justificar os trabalhos piscicolas e de estabulação. 
De facto com pequeníssimo dispêndio poderá o industrial fazer ali ou 
mandar fazer as experiências que lhe consintam medir bem e bem estu- 
dar tudo quanto lhe convém saber antes de arriscar os seus haveres e ao 
mesmo tempo observar industrialmente o rendimento provável da ope- 
ração a que se abalança» ( 1 ). 

O compartimento destinado ao archivo e contabilidade será por- 
tanto o escriptorio de consultas dos proprietários d'esta região que quei- 
ram emprehender trabalhos de piscicultura e que pagariam, por uma ta- 
beliã estabelecida, o preço das suas consultas exactamente como succe- 
de com os advogados, médicos, architectos e outros. O vão inferior da 
escada que dá accesso á habitação do preparadDr ou empregado que 
permanentemente residir no laboratório conterá as estantes precisas 
para os serviços de contabilidade e consultas que não se limitariam po- 
rem aos trabalhos acabados de indicar, mas ainda a manter, como em 
Roscoff e Banyuls os registos dos frequentadores que na Bretanha attin- 
giram o numero de 450 zoologos até 1891, emquanto que Banyuls era 
visitado em i883 pelos naturalistas de Tolosa, sob a direcção do snr. 
Barthélemy, professor da faculdade de sciencias d^quella cidade, em 
setembro de 1887, pela secção de sciencias naturaes da Associação fran- 
ceza para o progresso das sciencias, por duas vezes com io3 pessoas 
pela Sociedade das sciencias de Béziers, em 1890 pela Associação pyre- 
naica, pela Sociedade botânica de França em 1891, pelos alumnos da 
Sorbonne e ainda pelos professores KorotnefF, Kowalvesky, Patricio Ged- 
des, Veldon, Aiers, Van Beneden, Delboeuf, Léon Frédericq Wegman 
Yung, Apostelides, Marion, e Packard que de Roma escrevia ao snr. H. 
de Lacaze-Duthiers : «O laboratório e o seu arranjo parecem-me um 
perfeito paraíso para o estudioso porque não posso conceber uma região 
mais convenientemente socegada para o zoologo marítimo. Parece-me o 
melhor sitio de reunião d'ínverno que a Europa offerece ao estudioso ( 2 ). 

Também aos serviços de contabilidade seriam encarregados ostra, 
balhos de remessa d'aaimaes para museus, indivíduos e estabelecimentos 
de instrucção do paiz e estrangeiro que os reclamassem e ainda elles pre- 
parariam aos sábios que quizessem fazer investigações particulares os 
"compartimentos necessários para que, se tivessem previamente dado no- 
ticia do assumpto dos seus estudos, logo que chegassem, como em Ros- 
coff, encontrassem os animaes desejados sobre a meza do trabalho que 

(*) Vid. Eagenheria e Architectura — 2.° auno, vol. 2.°, paginas 338 
COl. 2. a 

( a ) Vid. H. de Lacaze-Duthiers — Archives cit., pag. 328. 



134 REVISTA DE SC1ENCIAS 



lhe fosse destinada e nas respectivas prateleiras os reagentes precisos, 
microscópios, instrumentos d'anatomia e histologia, tubos d'ensaio 
etc. ( 2 ). 

Cento e cincoenta e dois metros quadrados se destinam para a sala 
dos aquários, que conta 19 metros de comprimento e fica paredes meias 
com a casa das machinas, a que se seguem duas arrecadações para os en- 
genhos de pesca tendo a primeira uma área de 5i n,2 ,2o e a outra 28 m2 ,4o. 

Em demasia conhecidas são as experiências que desde i83o se ini- 
ciaram com relação á benéfica influencia das plantas nos reservatórios 
de peixes, mas se podem as plantas entrar como elemento indispensáveis 
e até como motivo ornamental nos recipientes que teem por fim a ex- 
posição dos animaes aquáticos, o mesmo não succede, as mais das vezes, 
nos laboratórios maritimos em que ha necessidade de seguir continua- 
mente as diversas phazes da vida do animal submettido a exame e por- 
tanto evitar sempre as occasióes em que possa occultar-se ás investiga- 
ções já quando permanecem sob os rochedos artificiaes que costumam 
formar-se com pedras porosas e escorias, já quando se refugiam de 
baixo das plantas fiuctuantes como as Callitriches aquática, Ranuncu- 
lus fluitans ; nadantes como o Polamogeton natans ; submersas como a 
Natas majoi que costumam collocar-se nos aquários d'agua doce assim 
como as Uivas, Chondrus e outras nas aguas salgadas as quaes em 
breve tiram á agua a translucidez necessária para que proveitosamente 
se sigam as experiências. 

É certo que se pôde deitar nos aquários alguns molluscos, como 
as Planorbas e outros, que se sustentam d'algas e cujas ovas alimenta- 
riam os peixes, attenuando-se d'esta maneira o desenvolvimento das 
confervaceas e algas e demais plantas, mas não se remediariam ainda 
assim senão parcialmente os inconvenientes apontados, pois que a puri- 
ficação das aguas, assim obtida, não basta quando se tracta de aquários 
como o que se projecta e cujas proporções o não podem comparar com 
os de estudo de que se tem tractado. 

Dois systemas de construcção se tem seguido até hoje para esses. 
Um baseia-se na alimentação por meio d'agua continuamente renova- 
da, outro introduzindo de vez uma quantidade sufíiciente de liquido, 
que se regenera ou agitando-o por meios mechanicos que ponham as 
molleculas liquidas em contacto com o ar athmospherico ou injectando 
misturas d'agua e ar no liquido contido no aquário, de maneira que se 
produzam turbilhões de finas bolhas d'ar, em resultado da força ascen- 
cional dos gazes humedecidos que se injectam. 

No aquário do Trocadero que se construiu em Paris em 1878 e 

(!) Vid. H. de Lacaze-Dnthiers — Archives cit., pag, 267, 



NATURAES E SOCIAES I 3 5 



em 1884 se transformou em escola de piscicultura, que dirige o snr. 
Housset de Bellesme, acima citado, o snr. engenheiro Barois seguiu o 
systema da corrente d'agua continuada e o mesmo succcdc nos labora- 
tórios do snr. professor H. de Lacaze-Duthiers, que na sua memoria 
tão profusamente citada n'este projecto, á saciedade prova a necessidade 
de arejar a agua em que devem viver os animaes submettidos á expe- 
riência, pois que diz: «nos tanques do aquário, repuchos d'agua com 
três metros d'altura, determinam uma agitação e arejamento extrema- 
mente favoráveis á vida. Enormes Afthysias n'elles viveram durante 
muitos mezes, dava-se-lhes de comer e ellas conservavam-se perfeita- 
mente,, crescendo muito. 

«Algumas tremelgas também por muito tempo e muito bem ali 
viveram, os molluscos reproduzem-se perfeitamente nos tanques. Mas 
ha um facto especial que sem duvida convencerá. 

« Quando o meu sábio collega e amigo, o professor Léon Fréde- 
ricq, veio a Roscoíf estudar o systema nervoso dos oiriços tomou como 
objecto das suas investigações o grande e magnifico Echinus sphoera> 
que abundantemente se pesca nas cercanias de Roscoff. 

«Estava então o laboratório na casa mobilada da praça da Egreja, 
em cujo jardim tinha construido um aquário envidraçado em que só dis- 
púnhamos da agua que a braço elevavam os dois marinheiros do labo- 
ratório. Como já disse, era o estado primitivo. Com esta agua que, já 
se vê, só com alguma parcimonia se gastava, durante pouquíssimo 
tempo viviam os ouriços e o meu collega precisava a toda a pressa fazer 
as suas experiências logo depois da vinda dos animaes pescados ao largo, 
porque quasi todos morriam no dia seguinte ou ainda antes. 

«Com os repuchos dagua do novo aquário durante muitos mezes 
viveram individuos da mesma espécie. De resto é o que também se 
observa em Banyuls onde os tanques pouco profundos, com repucho 
ao centro, são excellentes, quasi que poderia dizer os melhores vivariuns 
porque nelles com a-maxima facilidade se prolonga a vida. 

• Ainda é no aquário, desde que apresenta estas boas condições, 
que o meu collega da Sorbonne, o professor Yves Delage, fez as suas 
curiosas exp eriencias sobre as funcçóes das bolsas otolithieas dos crus- 
táceos ( l ). 

Para que não fique, porém, duvida acerca da influencia benéfica 

que o ar exerce sobre a vida dos animaes continua: «a conservação d'um 

aquário, para que sempre haja animaes em bom estado, é dispendiosa, o 

que muitas vezes se não percebe. Abundante e fresca deve ser a agua 

que se lhes fornece, numerosos cuida los exigem os animaes que até á 

( 4 ) Vid. H. de Lacazj-Duthiers — Archivcs cil., pag. 976. 



I36 REVISTA DE SCIENC1AS 



sua perfeita acclimação devem continuamente ser substituídos. A prL 
meira e mais impDrtant? d'estas oruUçÕ^s é a renovaçãa continua da 
agua, executada de certa maneira. Debaixo d'umi pressão de 10 metros 
a agua do mar cahindo do reservatório nas tinas impelle deante de si 
uma grande quantidade de finas bolhas d'ar pulverisado, formando como 
que um nevoeiro, e o arejamento do meio em que admiravelmente se 
acclimatam e perfeitamente vivem os mais diversos animaes fica assim 
garantido i 1 ). 

O aquário do jardim d'acclimatação do Bosque de Bolonha segue 
o systema da injecção d'ar que se produz da seguinte maneira «Aprovei- 
ta-se a agua trazida pela canalisação que alimenta o bosque de Bolonha 
submettendo-a a uma grande pressão que a agua transmitte quasi inte- 
gralmente a uma quantidade d'ar. Este logo que o deixam escapar-se 
actua sobre uma porção da agua de mar, contida num cyiindro fechado, 
que se encontra por debaixo do aquário, obrigando- a a subir e cjm 
grande força introduzir-se com um ténue jacto em cada reservatório ( 2 ).» 

No aquário do bosque de Bolonha a agua regenera-se fazendo em 
seguida passar o excesso d'ella por um filtro de carvão muito apertado 
d'onde vae ter a um grande reservatório de ferro fundido forrado de 
gutta-percha. D'este reservatório é que a agua volta para o cyiindro fe- 
chado em que soffre a pressão do ar para tornar a subir para o aquário. 

Para que se mantenha constante a temperatura do liquido os cylin- 
dros alimentadores estão enterrados de maneira que a agua não ultra- 
passa n'elles a temperatura de 16 o que é approximadamente a da agua 
do Oceano. 

Se em Paris é necessário esta regeneração da agua do mar filtran- 
do-a e guardando-a, o mesmo não succede no caso presente e por isso 
escusar-se-hia o mechanismo dos filtros e reservatório se se empregasse 
o systema acabado de indicar. 

Ora deve observar-se que no systema usado em Banyuls sur-Mer 
teve que excavar-se um reservatório com i3o metros cúbicos no alto da 
colina ( 3 ) a que se encosta aquelle estabelecimento e em Roscoff foi so- 
bre o morro granítico da batteria de Cruz que se construiu o deposito 
com i25 metros cúbicos que permitte que haja jactos d'agua com três 
metros d'altura ( 4 ). E' certo que o deposito d'agua de Banyuls pôde ali- 
mentar o aquário durante mais de uma semana, o que daria um gasto 



(*) Vid. H. de Lacaze-Dathiers— Archives cit., pag. 307. 

( 2 ) Vid. J. Pizzetta — Líaquarium tfeau douce [et d ! eau de mer, 
pag. 219. 

( 3 ) Vid. H. de Lacaze-Dathiers — Archives cit., pag. 303. 

( 4 ) Vid. H. de Lacaze-Duthters-.á/-c/i;<;í>s cit., pag. 201. 



NATURAES E SOCIAES I 37 



máximo de 16 metros cúbicos de agua por dia e por consequência sobre 
a casa das machinas facilmente se poderia estabelecer um deposito para 
os gastos diários. Na hypothese, porém, de um desarranjo na machina 
de vapor, em breve permaneceria o laboratório sem agua que o alimen- 
tasse com abundância, e claro é que em estabelecimentos d'esta ordem 
se justifica até o desperdício d^gua. 

Demais, a agua collocada num recinto em que continuadamente se 
queimariam grandes porções de combustível, em breve subiria a uma tem- 
peratura que a tornasse imprópria para a alimentação dos aquários. 

Ora como a agua, pelo próprio trabalho dos êmbolos das machinas 
elevatórias, perde uma porção do ar que contém e portanto carece de 
agitação ou de pressão d'ar para de novo se aerificar (como claramente 
se conclue pela ultima transcripção da memoria do snr. professor de 
Lacaze-Duthiers), seria indispensável crear um deposito bastante elevado, 
o que só com grande dispêndio se conseguiria, attenta a natureza super- 
ficial do solo. 

Será, portanto, um systema diverso que se empregará no laboratório 
projectado. 

Atravez da estrada abrir-se-ha, a um nivel inferior ao das maiores 
baixa-mares, um pequeno túnel por onde. a agua irá ter ao subsolo da 
casa das machinas, onde se construirá um poço com uma superfície de 4 
metros quadrados. 

Uma bomba que se moverá nas mesmas condições que a machina 
elevatória comprimirá o ar á pressão de uma athmosphera ou athmos- 
phera e meia e será esse ar comprimido que, pela sua força expansiva, 
comprimirá a agua de mar contida na canalisação, obrigando-a assim a 
subir para alimentar os reservatórios e os trcs tanques de espera que te- 
rão uma superfici? de 2 0, m2 23. 

Dos aquários, tanques e tinas de que adeante se fallará, as aguas 
excedentes serão, por um systema de canalisação, esgotadas para o mar. 

Resta ainda fallár das disposições especiaes na sala dos aquários. 

Como poderia achar-se conveniência nos estudos zoológicos em 
investigar a influencia das Zosteras, Fucus, Laminarias, Uivas, Zygne- 
mas, Potamogeton, Ruppias, Posidonias e outras plantas das famílias 
Najadeae, Algae, Halorageae, etc. preciso se tornava que, na disposi- 
ção dos reservatórios, se prcvisse essa circumstancia, mas de maneira que 
nunca as plantas podessem tomar tamanho desenvolvimento que prejudi- 
cassem os estudos e os animaes. Reservou- se portanto o lado da sala 
exposto ao norte para ahi se construírem os aquários permanentes, que 
assim ficam ao abrigo dos raios quentes do sol e de uma luz demasiado 
viva, que são as condições para o desenvolvimento rápido das plantas 
alludidns. 



11 



I38 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Do lado do sul ficam seis tinas-aquarios para estudo, conforme as 
«que o snr. professor H. de Lacaze-Duthiers descreve e nas quaes se 
podem dispor um microscópio sustentado por um braço comprido, os 
papeis para apontamentos, desenhos, etc, tudo de maneira que possa o 
observador estudar os animaes com a maior facilidade l 1 ). 

Para que os observadores não sejam incommodados pelos visitan- 
tes, uma grade de ferro separará as tinas do resto da saia dos aquários, 
em que dois tanques ellipticos e um circular, com uma superfície total 
superior a 20 metros, manterão os animaes destinados ás expedições, de 
que acima se fallou, substituindo-se d'esta maneira os tanques alimenta- 
das com os esgotos do aquário que existem em Banyuls e onde os ani- 
maes provam a sua vitalidade antes de serem mandidos para as escho- 
las que os pedem (2). 

Para terminar esta descripção das disposições a que deve satisfazer 
este laboratório seria preciso tratar da illuminação que aqui, como em 
Banyuls, só pôde ser fornecida pela electricidade, visto que nada justi- 
fica a creação d'uma fabrica de gaz na pequena localidade conhecida 
pelo nome de Castello da Barra, e muitos annos se passarão ainda antes 
que a praia do Pharol tome um desenvolvimento de tal ordem, que alli 
se torne precisa a illuminação. 

A machina de vapor destinada a mover as bombas de elevação d'a- 
gua e compressão do ar poderia actuar os dynamos precisos para a illu- 
minação e portanto inutilmente se alongaria esta descripção com um tra- 
balho de installação corrente e que a todos os edifícios se applica hoje 
em dia. 



(1) Vid. H. de Lacaze Duthien — A^chives cit., pag. 30S. 

(2) Vid. H. de Lacaze-Duthiers— Arcfiives cit., pag. 309 e 310. 



Os monumentos públicos teem alma e voz, 
faliam, ensinam, educam. 

Snr. Dr. António Cândido. — Discursos e 
conferencias. 



V 



Escolhido o local para o laboratório marítimo cTAveiro e justifica- 
das as disposições n'elle tomadas, como não devem as obras da barra e 
ria d'Aveiro ficar privadas das officinas e depósitos que este projecto 
desloca da casa que actualmente occupam, tornava-se preciso escolher 
outro local em que modestamente se installassem aquellas officinas e 
dispondo-as de maneira que podessem dispensar-se os guardas a que 
acima se alludiu. 

Nos desenhos indica-se o local que fará esse fim se escolhe e que 
tem uma arca de 3.75o, m2 o. Esse local ficará totalmente cercado por 
uma grade de madeira em que se abrirão três portas, uma de lado de 
W. para a entrada geral dos operários e duas do lado de L. para o mo- 
vimento das madeiras no viveiro e para o dos barcos a concertar no 
estaleiro. Duas outras portas do lado de leste, abertas nas paredes dos 
edifícios de que adeante se tratará, pol-os-hão facilmente em communi- 
cação com a ria, tanto para a recepção das madeiras como para o movi- 
mento da officina de marinheiro 

A via férrea de serviço, assente sobre o molhe do sul, é modificada 
em direcção, como se vê nos já mencionados desenhos, e por meio de 
placas giratórias todo o serviço das officinas se faz com a via férrea e 
no recinto d'ellas se pôde guardar todo o material circulante das obras. 



I4O REVISTA DE SCIENC1AS 



Isto posto, passar-se-ha á descripção das officinas c depósitos que se 
projectam em substituição dos que deixam o logar para o laboratório 
maritimo d'Aveiro. 

Partindo do norte do recinto mencionado encontra-se, em primeiro 
logar, um viveiro com a superfície de 5oo, m2 o, e que se destina a subs- 
tituir aquelle que vae indicado no desenho n.° 1 e de que precedente- 
mente se faliou. E' esse viveiro fechado do lado de leste por uma porta 
com 6 metros de largura e que se abre fazendo-a correr por um systema 
de contrapezos ao longo dos montantes de madeira que formam as hum- 
breiras da porta. Com dois cadeados se fechará a porta como vae indi- 
cado no desenho, de maneira que os contrapezos só trabalharão 
depois do impulso recebido apoz a abertura dos cadeados. A porta assim 
manobrar-se-ha como uma janella de guilhotina e pela altura a que fica 
dará legar a que um trabalhador embarcado possa remover facilmente 
as madeiras êm deposito, transportando-as, por fluetuação, até junto do 
plano inclinado do estaleiro. 

Marginando o viveiro das madeiras, e do lado do sul, haverá um 
cães com 5 metros de largura, em que se assentará uma via férrea para 
serviço do viveiro, se isso fôr de reconhecida necessidade. 

Um deposito para madeiras em que o ar circulará com grande fa- 
cilidade, como se vê no desenho, seguir-se-ha parallelamente ao cães e 
viveiro. Esse deposito terá a superfície de 3o3, m2 84 e communicará com 
a ria e estaleiro. As portas d'este deposito serão a dois batentes e gira- 
rão sobre dobradiças, aliiviando-se o pezo supportado por estas por 
meio de roldanas que trabalharão sobre carris apropriados. 

Em angulo recto com este deposito e junto da porta acha-se a casa 
do ferramenteiro. Uma das salas d'esta casa, situada no andar térreo, 
com a superfície de i4, m 84, será destinada para deposito de ferramentas 
que exigem bom accondicionamento ou cuidados de conservação quando 
com ellas se não trabalha. 

Em seguida ao pateo com 8, m 40 de largura que dá accesso ao es- 
taleiro, fica a officina dos ferreiros com uma superfície útil de 171, m2 o 
podendo alli trabalhar três forjas e as respectivas safras, havendo local 
disponivel para a machina de furar, torno e logar para mezas, para os 
pequenos trabalhos de serralheria que costumam fazer se n'esta officina 
(concertos das engrenagens e rodas do moinho de tirar agua, dos cossi- 
netes dos wagons de serviço, etc.) 

Em angulo recto com esta ultima officina e parallelamente ao de- 
posito de madeiras ficará com uma superfície utilisavel de 29i, m2 6o, a 
officina de marinheiros que tem a seu cargo o feitio e concerto de velas 
para barcos, medição e falcassa dos cabos para ostagas, sirgas e demais 
pertences das embarcações, chicotes e amantes de bate-estacas, etc. 



NATURAES E SOCIAES I/JI 



No meio cTcstes edifícios, com uma superfície de 600 metros, ficará 
o plano inclinado em que se concertarão e fabricarão os barcos neces- 
sários para as obras. 

Esse plano inclinado cerrar se-ha do lado da ria por meio de uma 
porta que correrá sobre roldanas e carris apropriados parallelamente ao 
longo da grade que pelo lado de leste limita o estaleiro, abríndo-se ape- 
nas quando houver precisão de deitar algum barco á ria ou de d'alli re- 
ceber aquelle que precise de concerto. 

D'este modo, num recinto do qual, para o serviço ordinário, apenas 
se abrirá diariamente a porta do lado de O., ficarão contidas as offi- 
cinas e principaes depósitos das obras da barra d'Aveiro, e com a dis- 
posição que se lhes dá dispensar-se-hão os guardas nocturnos e guar- 
das de deposito de que actualmente ha que lançar mão, embora de uso 
antigo esses guardas sejam sempre escolhidos entre aquelles trabalhado- 
res que nas obras se inutilisaram e a quem moralmente se é obrigado a 
dar oceupação. 

Pelos desenhos que constituem os projectos de officinas se vê que 
se não attende por forma alguma a condições architectonicas e apenas 
se teve em vista construir barato. 



Em arcbiteclura o calculo, a geometria e a 
mechamca teem importância capitai. 

Eugène Véron. — Vesthétique. 



VI 



Passar- se- ha agora aos cálculos de resistência que hão de justificar 
as dimensões adoptadas nas diversas peças componentes dos edifícios pro- 
jectados. 

CALCULO DOS V1GAMENTOS PARA A COBERTURA DO EDIFÍCIO 
CENTRAL PARA O LABORATÓRIO 

Em primeiro logar é preciso conhecer os pezos que teem que 
aguentar as pernas d'asr.a e que, além da cobertura de telhas, são 

Caibros e barrotes, cujas dimensões trans- 

versaes costumam regular por . . 0,08 X 0,11 

Terças, "cujas dimensões transversaes cos- 
tumam regular por . . ... 0,2 X o,3 

Ripas, cujas dimensões transversaes costu- 
mam regular por 0,1 X 0,01 5. 

Como se sabe o ripado prega-se de maneira que entre duas ripas 
consecutivas medeie a largura de uma ripa e portanto para cobrir i, m2 
de ripado gasta- se um volume de ripas igual a 

o,5 X i,o X o,oi5 = o, m3 oo75. 



NATURAES E S0C1AES I 4 3 



Posto isto deve observar-se que as pernas d'asna, que formam os 
ângulos diedros do telhado pelo encontro dos planos inclinados que no 
plano horisontai se orientam em angulo recto, teem um desenvolvi- 
mento igual a 



'O' 



V 5, m o2 -j- 5, m o 2 4- 2, m 52 = 7 , m 5o. 

Mas ahi a armação não está completa porque o tirante não liga as 
pernas de uma mesma asna nem sustenta pau de cumieira e prumo nem 
é aguentado por escora. 

Demais, os barrotes que hão de sustentar o ripado são de compri- 
mento variável, pois que crescem proporcionalmente, á medida que se 
afastam do vértice do angulo tetraedrico formado pelas paredes adjacen- 
tes e pelos planos inclinados e consecutivos do telhado. 

Dando aos caibros um afastamento de o, m 5o, o médio terá um des- 
envolvimento que se deduzirá das formulas seguintes : 

Desenvolvimento das pernas d'asna, segundo o rectilineo do diedro 
formado pela cumieira 



Vò, m o 2 -f- 2, m 5 2 = 5, m 59. 

Desenvolvimento do caibro médio procurado 

2 5 
*= 5 ^ X 5,59 = 2,795. 

Achado o desenvolvimento do caibro médio seguir-se-ha que o 
pezo dos caibros, que carregam a viga será, no caso do emprego do 
pinho : 

2 X 9 X 2,795 x 0,08 X o,u X 553 = 244,^829. 

Sobre estes caibros haveria que pregar o ripado que recobriria, 
para cada pendor, uma superfície 



5X— 9 = i3, mS 975 



2 

e portanto para os dois pendores 

2 X i3, mí 975. 
Como acima se viu, para recobrir com ripado uma superfície de 



144 REVISTA DE SCIENC1AS 



i, m o gasta-se um volume de madeira de o," 1 0075 e portanto o ripado de 

pinho pezarâ : 

2 X 0,0075 X 553 X í 3,975 = u5,»<922. 

Empregando a telha de systemâ marselhez, cujo pezo por metro 
quadrado de recobrimento é de 60 kilos, seria a viga sobrecarregada 
ainda com 

2 X r 3,975 X 60 = 1677,0. 

Collocando o forro pendente dos caibros, seria o pezo d'elle 

2 X i3,975 X 0.02 X 553 = 309,128. 

O pezo total, fazendo abstracção da pressão do vento, de que 
adeante se tractará, será portanto. 

Caibros ..... . ■ 244^829 

Ripado 57,961 

Telha 1677,000 

Forro . 309,128 

Total , . . 2.288,918 

Sejam 2.3oo kilos ou 307 kilos por metro corrente. 

Ora a peça cuja resistência se pretende estudar não se encontrando, 
como acima se viu, no caso de uma perna d'asna, mas no de uma viga 
sustentada em apoios que não estão de nivel e carregada com cargas 
que crescem proporcionalmente a partir de um dos apoios, é nestas con- 
dições que deve estabelecer-se o calculo. 

Para esse effeito deve entrar-se n'uma analyse prévia da distribui- 
ção das cargas provenientes dos caibros, ripado, telha e forro. 

Sendo de o, 5o o afastamento de caibro a caibro, medido sobre as 
paredes do edifício, o tamanho delles crescerá segundo a proporção 
arithmetica 

-f- 0,559. 1,118. 1,677. i,236. 1,795 5,59 

cuja razão é 0,559 e o pezo d'elles formará também uma progressão ari- 
thmetica, cujo primeiro termo será 

-f- 0,559 X 0,08 X 0,11 X 553 = 2^7203176 

e cuja razão será também ..,..,. 2,7203176 



NATURAES E SOC1AES 



M5 



As áreas triangulares limitadas pela tacaniça ou intercepção dos 
planos dos dois pendores e por um dos caibros também crescerão, con- 
forme se verá pelo calculo seguinte, em que se designarão as áreas sue - 
cessivas a partir da menor pelas lettras a 1 , a 2 , a% . . 



«i = — 0,559 X o,5o x = 0,13975 



a 2 = — X 2 X 0,559 X 2 X o,5o = 0,55900 = 0,13975 X 4 



H = — X 3 x °,^9 x 3 X o,5o = 1,25775 = o, 13975 X 9 



a 4 = — X 4 X 0,559 X 4 X o^5o = 2,236oo = o,i3o75 x 16 
2 

a 5 -= — X 5 X 0,559 X 5 X o, 5o = 3,49375 = o,i3975 X 25 



a 10 = — - X ro x o,559 X 10 X o, 5o = 13,975 = 0,13975 X 100. 

Vê-se, pois, que cada uma das áreas é igual á menor multiplicada 
pelo quadrado do numero que indica a ordem do caibro que limita a 
área, começando a contagem pelo caibro menor. 

Sendo os pezos do ripado, telha e forro funcçâo das áreas acaba- 
das de calcular, os pezos d'estes materiaes augmentariam segundo o cres- 
cimento d'estas áreas. 

Bastaria pois para obter qualquer área, procurar a lei segundo a 
qual crescem os quadrados dos números inteiros e multiplicar em se- 
guida a área menor pelo valor que para o quadrado desse a formula. 
Ora sabe-se que a differença entre os quadrados de dois números con- 
secutivos é 

(n -f- i) 2 — n 2 = 2 n -f- r 

que forma a razão de uma progressão arithmetica crescente quando n 
fôr positivo e cuja razão é 2. 

12 



I46 REVISTA DE SCIENC1AS 



Posto isto os valores de um termo, a somma de n termos e ou- 
tras propriedades calculam-se pelas formulas sabidas das progressões, 
concluindo-se d'aqui que os valores dos pezos cresceriam segundo uma 
lei conhecida. 

Dá-se, porém, n'este problema uma simplificaçã) para o valor das 
cargas, se se observar que todas seguem a mesma direcção e portanto 
se a primeira se distribue n'um triangulo, a segunda e as outras que se 
seguem correspondem a trapézios limitados por dois caibros consecuti- 
vos e pela intercepção dos pendores do telhado entre si ou tacaniça e 
com as paredes. 

Posto isto conclue-se que ficando constante uma das dimensões de 
qualquer área (no caso presente que se mede segundo o nivel superior 
da parede) e variando apenas o valor médio dos lados parallelos dos 
trapézios devem estas áreas crescer também em progressão arithme- 
tica. 

E' de facto o que suecede pois que as áreas formam progressão, 
como de resto é sabido por theoremas elementares 



~ o ; i3o75. 0,41925. 0,69875 



cuja razão e 0,27950. 

Calculando portanto o pezo que recobre o triangulo formado pela 
intercepção dos pendores, pela intercepção d'um d'elles com a parede e 
pelo menor caibro, fácil é saber o valor de todas as outras áreas. 

O pezo do ripado será para os dois pendores 

2 x 0,0075 X 553 x o,5o x — — - = 1,15922625. 



O pezo da telha 



2 x o,5o x — — - X 60 = 16,77. 



O pezo do forro 



2 x o,5o x - — - X 0,02 x 553 = 3,03127. 



Fácil será obter a razão das progressões arithmeticas que darão os 
pezos que actuam sobre as diversas áreas. 



NATURAES E SOCIAES 



M7 



Visto que a razão da progressão que dá o crescimento d'ellas é 
0,2795, serão as seguintes as razões para as progressões que dão 

os pezos do ripado 2 x 0,0075 x 553 x 0,2795 — 2,3184525 
os pezos da telha 2 x 60 x 0,2795 = 33,54 

os pezos do forro 2 x 0,02 x 553 x o 2795 == 6,18254. 



Como porém já se viu anteriormente, a grandeza dos caibros que 
limitam as áreas trapezoidaes componentes cresce segundo uma progres- 
são conhecida 



-f o 559'. 1,118. 1,677. 2,236. 2,795. 3,354 3,9i3. 4,472. 5,o3i. 5,59 

e portanto por meio de theoremas conhecidos, depois de calculados os 
pezos para a área triangular limitada pelo menor caibro, se vê que todos 
os outros pezos são o produeto dos conhecidos pela série de números 
impares e porisso a razão das progressões dos pezos será igual ao do- 
bro dos pezos já achados; isto é: 

para a progressão que dá os pezos do ripado 

2x1,1 5922625 = 2,3184525 
para a progressão que dá os pezos da telha 

2 X 16,77 = 33,54 

para a progressão que dá os pezos do forro 

2X3, 09127 = 6,18254. 

Por isto formar-sc-ha o quadro seguinte : 



148 



REVISTA DE SC1ENCIAS 



Designação 

dos 
materiaes 



Caibros 

Ripado .... 

Telha ...... 

Forro .... . 



Toial... 



16 77 
3 091270 



2 a área 



3. a arca 



Valores dos 



<]. área 



5, a área 



2.72031760 5.44063520 8 16095280 10.88127040 13.6015Í 
1.JÕ922625 3.47767875 5.79613125 8.11458375 10.43303625 



50.31 
9.273810 



83 85 

15 456350 



117.39 
21 638890 



23.74081385 68.50212395 113.26343J05 158.02474415 202 786054.5 



150.93 
27.821430 



A somma das progressões que formam o quadro também eslá em 
progressão, como se sabe, e a razão é a sorr.ma das razões de todas as 
progressões componentes ; isto é 

r — 2,7203176 -f 2,3i84525 -j- 33,54 -f- 6,18254 
= 44,7613101. 

Para simplificar os cálculos pôde substituir- se a progressão achad;i 
por outra, cujos valores em números inteiros serão 

-r 23. 68. u3. i58. 2o3. 248. 293. 338. 3S3. 428 



cuja razão c 45 e a somma iguala 2255 ; isto é, pezo menor do que o que 
se deduz da hypothese dos valores médios, visto que differe d'aquelle em 
3V 91 8. 

Isto posto, reduz- se o problema ao seguinte: 

Calcular as dimensões de uma viga apoiada nas extremidades e 
actuada per forças obliquas, formando um angulo constante com a fi- 
bra media d'ella e situadas no plano de symetria da mesma viga As for- 
ças satisfazem ainda ás seguintes cond ; çóes : 

i.° Crescem segundo uma progressão rrithmetica dada. 

2. Estão equidistantes entre si. 

3.° N'um apoio não actua força alguma mas no outro encontra-se 
a de valor máximo. 

Como as forças se inclinam todas igualmente sobre a viga, são pa 
rallelas e portanto fácil é achar-lhe a resultante e o ponto de appli- 
cacão. 



NATURAES E SOCIAES 



149 



pezos para: 








6. a área 


7- a arca 


S. a área 


9« a área 


lo. a área 


lf. 32190560 
12.75148875 
184.47 

34.003970 

í 

247.54736435 


19.04222320 
15.06994125 
218.01 
40.186510 


21.76254080 
17.388^9375 
215.55 
46.369050 


24.482F5840 
19.70681625 
285.09 
52.551590 


27.2O317G00 
22.02529875 
318.63 
58.734130 


292.30867445 


337 069.38455 


381.83129165 


426.59260475 



O valor da resultante é a somma das forças ou 2255 kilos e o ponto 
d'applicação, seguindo-se o processo graphico de substituir as forças to- 
das por duas, conforme indica o snr. engenheiro Maurice Levy (Statique 
graphiqne, vol. i.°. pag. 5o) e procurando a resultante d'essas duas 
acha-se, a contar do apoio inferior, a distancia de 4,625 e pelo calculo en- 
contra-se o valor de 4,609. 

Adoptar-se-ha este ultimo valor. 

Seguindo uma analyse idêntica á qje indica o snr. engenheiro 
Collignon (Traité de jnécanique, 2. e edition, 2. vol., pag. 582), pôde 
conhecer-se immediaiamente a força de reacção horisontal do apoio in- 
ferior : isto é: 



R 



2255 X projecção horisontal de 5.59 



2. 



Ora o valor da projecção horisontal de 5, m 59 é 
5,59 x v/7,58- 2T5 2 



cp = 



7,5 



= 5, m 277 



e portanto 



R = 5949,8175 seja 595o kilos. 



O apoio inferior reage contra as forças que lhe transmitte a viga, 
Chamando S aquella reacção, que pôde decompôr-se em duas ou« 



150 REVISTA DE SCIENC1AS 



trás, uma horisontal S x e outra vertical S y será S.< igual e opposta á 
reacção horisontal do apoio superior e portanto 

S x = — R = — 595o kilos. 

A reacção vertical S y deve equilibrar o pezo e portanto 
S y = — P = — 2255 kilos. 

Considerando agora a viga como sujeita a duas forças, uma que 
lhe é perpendicular e outra que se dirige no sentido longitudinal d'ella, 
decompôr-se-iam para isso as forças R e P, ficando a viga submettida a 
uma força longitudinal 

T=Px^fRx 7 4 8 = 6368,5 
7,5 7,5o 

e o momento máximo de flexão (^bresse Résistence des matériaux, 2. e 
ed., pag. 89) 

Xi » ^ x 7 ^x^ (7,5 - 5,5 9 ) = 3o3o )4 i8. 
2 7,5 3,75 

Applicando a formula geral de resistência 

h x X 1 , T 



e 



2 1 ^ n 



no caso de uma viga com o, 33 de esquadria encontra-se 

p — 564464 

por metro quadrado. 

Passando agora ao calculo do vigamento no caso do perfil com- 
pleto, suppôr-se-hão a^nas afastadas uma das outras de i, m o de maneira 
que cada uma sustentará as cargas seguintes: 

2 barrotes com 0,08 x 0,11 x 5,59 X' 553k = 5 4 406352 

1 caibro com 0,08 x o, 1 1 x 5,59 X 553 = 27,203176 

1 pau de fileira com 0,2 x o, 3o x 1,00 x 553 = 33, 180000 

1 terça com 0,2 x o,3o X 1,00 X 553 = 33, 180000 
2, m2 795 de ripado com um volume por m 2 de 

o, m3 oo75 x 553 = 11,5922625 

5, m2 59 de telha com 60 kilos de pezo por m 2 = 335_,40oooo 
5, m2 59 de forro de pinho com a espessura de 

o,oí5 x 553 = 77,281750 

572,2435405 






NATURAES E SOCIAES I $ I 



Sejam 58o kilos. 

Deve ainda ter-se em vista o pczo dos solhos que carregam o ti- 
rante e dos estuques que pendem do mesmo ttr-inte. 

Passando á averiguação d'esse pezo, sabe-se, em primeiro logar, 
que o solho de pinho da terra tem o,025 de espessura e portanto o pezo 
d'elle será 

9, m 2 x 1,0 x o,025 x 553 = i2j. k ig. 

Os tarugos terão as mesmas dimensões transversaes que a altura 
dos tirantes, mas suppondo-os n'uma primeira approximação, com o, 33 
de esquadria e havendo 7 tarugos, o seu pezo será 

7 x o.33 x o.33 x 1,0 x 553 = 42i, k 552. 

Seguindo uma analyse idêntica á de um projecto que elaborei para 
um edifício para repartições publicas em Aveiro, o pezo do fasqueado 
para estuque será 

^ X 1,00 x o,oi3 x 553 = 33, k i39 

e o pezo do estuque por metro quadrado 65, k 4 ou sejam 
9,2 x 1,00 x 65, k 4 = 601, k 68. 

Escusado é ter em conta o pezo das paredes divisórias, cujo pezo 
pela analyse feita no projecto já indicado é de 187/24 por metro qua- 
drado, pois que se hão de dispor de modo que não sobrecarreguem os 
tirantes ficando para tal effeito na prumada das divisórias dos andares 
inferiores. 

Logo o pezo total que sustentaria o tirante seria 1755, k 8o5. 

Mas para que possa aproveitar-se o vão do telhado para arruma- 
ções, adoptar-se-ha o typo conhecido pelo nome de armação de tirante 
levantado (entrait retroussé dos francezes) elevando-se este i, m 5o acima 
da horisontal do pé das pernas d'asna. 

Abstrahe-se assim do pezo dos solhos e estuques, fasquiados e ta- 
rugamentos acima calculados. 

Isto posto, por meio de formulas conhecidas e raciocínios sabidos, 
a reacção vertical exercida pelo muro no topo da perna d'asna decom- 
põe-se em duas ; uma V de direcção vertical áquella perna d'asna e outra 
C no sentido d'ella. 



152 REVISTA DE SC1ENCIAS 



O valor da primeira 



V^58ox 



2 x 5,59 



e como a perna d'asna ha de ter uma secção rectangular vem para 
R B 600000 

bh2 m ' 5.5o x i,5 1 



co c 5,5o x 1,5 1 

= 580 X 4,6 X r X r~ r X 



6 ™ 2,5 5,59 600000 

ou simplificando e fazendo as operações 

bh2 = 0,0 j 6008 

dando uma esquadria de 0,26 x 0,24. 

bh 2 — 0,016224. 

Pela consideração do equilíbrio entre a reação vertical do muro, 
a tracção do tirante e a carga sustentada pela perna d'asna, conclue-se 
que a tracção exercida sobre o tirante é 

T = 58o x — = i334 kilos. 
4 

Demais o tirante trabalha também á flexão, em resultado do pró- 
prio pezo e attribuindo ao pinho o pezo especifico de 553 kilos por me- 
tro cubico, como anteriormente se tem convencionado, vem 

bh _-* 3 X 553 X çHã 2 x b . 
J 600000. 

Para que o tirante aguente, deve ter uma secção que resista aos 
esforços de tensão e flexão e aquella sabe-se que é 

bh= l334 



600000. 



Quanto aos esforços de flexão que hão de, conforme acima se viu, 
satisfazer á equação 

bh -: 3 X 553 x Q^T 2 X b. 
600000, 



NATURAES E S0C1AES 153 



Sommando portanto os segundos membros das duas equações e 
simplificando 

bh - ? ° 208 ' 8S b + , 667 - 
3ooooo iooooo 

5 
Attribuindo abo valor de — h, vem 

7 

h == 0,24 
b = 0,18. 

O tirante comtudo, por causa das samblagens, terá como dimen- 
são vertical o valor acabado de achar. 

O calculo do prumo depende de considerar-se o tirante como uma 
viga apoiada em três pontos e com dois tramos iguaes. 

N'este caso o prumo sustenta os 5/S do pezo total do tirante e as 
pernas d'asna sustentarão os 3/8 restantes. 

Chamando S ao pezo sustentado pelo prumo, vem 

5 
S = — — o, 38 x 0,24 x 3,63 x 553 

o 

= 11.5,99728 seji 1 16 kilos. 

Como as necessidades da construcção obrigam a dar ao prumo uma 
dimensão igual á da perna d'asna que com elle se assambla e que ess a 
mesma dimensão se observa na face que fica de esquadria com aquella 
para ahi se samblarem as escoras, concluirse-ha que o prumo terá uma 
dimensão de 0,24 x 0,24, embora apenas trabalhe a 4^96 por centíme- 
tro quadrado. 



INFLUENCIA DO VENTO 



Nos cálculos precedentes não se contou com a influencia do vento 
sobre o telhado. 

Poderia comtudo applicar-se, como num projecto já mencionado, 
a theoria da pressão mutua dos fluidos e dos sólidos no movimento re- 
lativo d'estes e que é conhecida pelo nome de resistência dos fluidos. 

Seguir-se-hia uma analyse idêntica á do problema tractado pelo fal- 

13 



154 REVISTA DE SCIENC1AS 



lecido snr. engenheiro Bresse (Hydraulique, 2. e edition, pag. 408), limi- 
tando-se apenas o calculo a procurar o valor da pressão dynamica 



U2 

7T O cos a — 



que representa também a reacção que um plano exerce sobre a veia 
fluida. 

E' certo que teria que formular-se uma hypothese para o valor de 
Q e discutila em seguida procedendo assim como para os casos do tra- 
balho de uma roda hydraulica de costado ou roda hydraulica superior. 

Também poderia substituir-se esta analyse pela que dá o snr. en- 
genheiro Collignon (Trai té de mécaniqne, 4. vol., pag. 3o6 e seguin- 
tes) ; mas esse calculo, além de se applicara superfícies animadas de um 
movimento de rotação, só para pequenas velocidades é que consente o 
emprego da formula 

R = A V2 

que, de resto, o próprio snr. engenheiro Collignon faz notar que não dif- 
fere da formula que dá o valor da pressão dynamica senão na substitui- 
ção da velocidade absoluta U pela velocidade relativa V da veia fluida 
com relação ao plano. 

Poderia usar-se da formula empirica de Hutton 

R = o, 1 1 77 A v 2 (sin (3) "' 

em que 

R é a pressão dynamica desenvolvida pela corrente aérea 
u o pezo do metro cubico d'ar em movimento 
A a superfície sobre que incide o fluido 
v a velocidade da corrente d'ar 

3 o angulo por ella formado com a direcção do vento 
ij. é um expoente que varia com o angulo 3 e cu j° valor se re- 
presenta por 1,84 cos 3. 

Embora o snr. engenheiro Collignon, ao expor a presente formula 
aconselhe que se dê uma ligeira inclinação a subir ao eixo motor dos 
moinhos de vento, a que ella se applica principalmente «por isso que o 
vento segue á superfície do solo uma direcção levemente descendente» 
(Traité de mécanique, vol. 4. , pag. 3o6) não indica, porém, o valor do 
angulo formado pela trajectória das molleculas fluidas com a horison- 



NATURAES E SOCIAES 1^ 



tal, mas já o snr. engenheiro Maurice Levy para a grandeza mais vul- 
gar cTesse angulo dá o valor de io.° (Staiique graphique, 2. édition, 
i.° vol., pag. 262). 

Conseguintemente 

(3 == i5° 12' 9/' + io° = 25° 12/ 9'/ 

O valor do pezo do metro cubico d'ar em movimento, que é pre- 
ciso conhecer para entrar na formula, deduzir-se-hia de condições for- 
necidas pela barometria e thermometria. Lançando mão dos conhecidos 
c oefficientes de Bouvard, por isso que nem as leis de Kaemtz nem as de 
Móhn dão relações entre a direcção do vento e a pressão barométrica, 
concluir- se-hia que, predominando em Aveiro os ventos do quadrante 
NW, a pressão barométrica attinge então, segundo Bouvard, o valor 
de 759,78. Seja o valor normal 760 milimetros. 

A relação entre a direcção do vento e a temperatura não sendo co" 
nhecida n'esta localidade tomar-se-ha com O. Eisenlõhr 12. para esse 
valor por ser o mais elevado que aquelle auctor indica para o vento 
norte. 

Com estes dados conclue-se que 

7T = 1/24 

quando em repoiso, havendo que modificar este pezo por meio de um 
coeficiente que tenha em conta o movimento do fluido. 

Depende esse coefficiente das observações da velocidade do vento, 
que, além das condições meteorológicas, variam também conforme as 
disposições dos terrenos sobre que passam as massas fluidas. 

Entrando em linha de conta com essa velocidade, ter-se-hiam todos 
os elementos para calcular o valor da pressão dvnamica do vento, se- 
gundo a formula empirica de Hutton. 

O snr. engenheiro Maurice Levy propõe para calcular a pressão 
normal exercida pelo vento (Statique graphique, vol. i.°, pag. 262), a 
formula 

p = 0,1 13 V. 2 sin 2 (a + 10) 

e d'ella deduz uma tabeliã que, para o caso actual, dá por metro qua- 
drado para a componente vertical q da pressão normal 

q = 64/75 

que augmentaria as cargas calculadas com mais % 2 kilos em números 
redondos. 



156 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Não convindo, por uma razão de economia entre outras, accres- 
centar muito mais as dimensões transversaes das peças da armação, com. 
o extremo inferior do prumo ligar-se-hão, por meio de linhas, as extre- 
midades das pernas d'asna. 

D'esta maneira o tirante passará a trabalhar também á compressão 
como se fosse composto de duas escoras. 

As forças que actuam sobre a armação são : 

O pezo total uniformemente distribuído de 

58ok 4- 362k ^ 942 k 

. As reacções dos apoios da armação. 
As forças interiores desenvolvidas para equilibrar as applicadas. 
Por uma analyse idêntica á que precedentemente se fez, o valor da 
força vertical que actua sobre cada perna d'asna é 

V = 77 5, k i 7 

O valor do momento de inércia dividido pela distancia da fibra mé- 
dia á fibra mais fatigada isto é — será 
° n 

bh 2 __ 0,027199 
IT^ 6. " 

Dando á viga uma esquadria de o,3i X 0,29 

bh 2 = 0,027869. 

O tirante trabalha á tracção e á flexão e portanto deve resistir ás 
forças d'estas duas ordens. 

Para a flexão o tirante está nos casos de uma viga assente em três 
apoios equidistantes que, além do pezo próprio, deve sustentar o do pezo 
do forro, sejam 70 kilos por metro corrente. 



Logo 



51 
n 



= 7^X_4^ 2 =l8 5.*i5. 



O valor da tensão é 

_ 920 X 4,6* - , ., 

T = :n - = 2n6 kilos. 



NATURAES E SOC1AES I 57 



De maneira que se podem diminuir lhe as dimensões reduzindo-as 
a 0,20 x 0,29. 

O prumo tendo as dimensões de 0,14 x 0,14 trabalhará a 9489 ki- 
los e as linhas que soffrem uma tensão 

\/^ -4- i^ 2 

quando se lhes der a esquadria de 0,14 trabalham apenas a 4,^494 se- 
jam 4^5. 

CALCULO DOS VIGAMENTOS PARA COBERTURA 
DO EDIFÍCIO LATERAL DE LESTE 

Afastando ainda as asnas de i, m o umas das outras, cada uma sus- 
tentará os seguintes pezos : 

2 barrotes com 0,08 x 0,11 x V '10.1b + 4 X 553 = 47,982704 

1 caibro com 0,08 x 0,11 x 4,93 X 553 = 23,991352 

1 pau de cumieira 0,2 x o, 3 x 1,00 X 553 = 33,i8o 

1 terça com 0,2 x o, 3 x 1,00 X 553 = 33, 180 

-2, m2 47 de ripado pezando 4^1475 por m. 2 = 10,244325 

4, m2 93 de telha marselheza pesando 6o k por m 2 = 295,80 

Total . . . 444,378381 
Pressão do vento 4,93 x 64,75 319,2175 

763,5958 
Sejam 800 kilos. 

Deve ainda ter-se em vista que do tirante pendem os estuques, 

cujo pezo por metro quadrado é de 65, k 4 dando portanto uma carga de 

4, m2 5 ripado a 4,^1475 por m. 2 = 18,66375 
9, m2 o de estuque a 65, k 4 por m. 2 = 588,6 

Total . . . 607,26375 

ou sejam 70 kilos por metro corrente. ' 

A. tensão exercida sobre o prumo é, como se sabe pelo theorema 
dos três momentos applicado á viga sustentada sobre três apoios equi- 
distantes 



5 

2 s = — x 70 x 9,0 = 393,75 



seja 2 S = 394. 



1^8 REVISTA DE SC1ENCIAS 

O impulso no vértice da armação é 

T = (800 + A 7 o x 4,5) j^g = 2 685,k 9 3 7 5 

seja T = 2686 kilos. 

A compressão produzida pejo pezo sobre a perna d'asna é 

N = (800 +-70X 4,5) a ^ 9 2Q = I47i> k 296875 

seja N = 1472 kilos. 

O momento de flexão é para a perna d'asna 

RI 800 X4,5 c , •, 

— = = 45o kilos 

n o 

e para o tirante 

RI 70XÍ5 2 Q , 

- = / — 8^~ = 177,1875 

Sejam 178 kilos. 

As pernas d'asna tendo de esquadria 0,18 x 0,16 trabalharão a 
571944 kilos. 

O tirante com 0,18 x o, i3 trabalhará a 173300. 

O prumo tendo que ter de esquadria a menor dimensão achada 
para a perna d'asna ainda contando o pezo do próprio prumo e o da 
parte que lhe cabe sustentar do tirante, trabalha muito longe do coefli- 
ciente de segurança. 

Para o edifício lateral de W o vão sendo apenas de 7,10 concluese 
que as dimensões acabadas de calcular são mais que suíficientes para a 
armação que ha de cobril-o. 

CALCULO PARA O V1GAMENTO DO PRIMEIRO ANDAR 

O afastamento das vigas será de i, m 2o de eixo a eixo e como se 
ignora a priori o pezo d'ellas visto que vão calcular-se-lhes as dimen- 
sões, usar-se-ha da formula seguinte, cuja deducção já foi dada a pu- 
blico (Revista de Obras Publicas e Minas. vol. XIX, pag. 40). 

[ jpa + **a«/(h) ] h = R 
2 F (h) 

na qual fi o pezo que a viga tem que sustentar por metro corrente 



NATURAES ESOCIAES I ■$ 9 



2 a o comprimento da viga entre os apoios isto é 9,'" o 
w o pezo por unidade de volume da madeira a empregar no vi- 
gamento sejam 553 kilos por metro cubico visto empregar-se o pinho 
h a altura da viga. 

Como se tracta de secções rectangulares a altura da viga pôde li- 
gar-se com a espessura pela formula 

e = 0,7 h. 

R é o limite da resistência á tensão positiva ou negativa sejam 6 
kilos por centímetro quadrado. 

f(h) é a expressão geral da secção transversal da viga ou no caso 
presente 

f{h) = 0,7 ÍÃ 

F(h) é a expressão do momento de inércia a qual para um rectân- 
gulo, como no caso actual é, 

F(h) = — bhs = JL h*. 
12 120 

Para poder trabalhar com a formula resta procurar o valor de p. 
O solho de pinho tem 0,025 de espessura e portanto o seu pezo 
será para cada viga 

9, m o x 1,20 x 0,025 x 553 = 149, k3i. 
Os tarugos afastados de metro em metro pezam todos 

8, m o x 1,20 x o. 3o x o. 3o x 553 = 477,1792. 
O fasquiado pezará 

^- x 1,20 x o,oi5 x 553 = 44,1793 

O pezo do estuque por metro quadrado sendo 65, k4 será no total 

9,0 x 1,20 x 65, i<4 = 706,32. 

O pezo das paredes divisórias, por uma analyse idêntica á d'um 
projecto acima referido, é por metro quadrado de 188 kilos e os aposen- 
tos que ficam por cima do museu teem que separar-se'por paredes 



IÓO REVISTA DE SCIENC1AS 



d'essa natureza. A espessura das vigas que sustentam aquellas paredes 
determinará a das demais do edifício. 

Por consequência haverá vigas que sustentarão paredes divisórias 
longitudinaes com 5, m 5o d'altura produzindo um pezo de 

2 x 5,5o x 1,20 x i88 k = 2481,6. 

Transversaes com 

9,00 x 5,5o x 1,20 x i88 k = 11167,2. 

Logo o pezo a sustentar pelas vigas será por metro corrente 1669^69. 
Sejam para attender ás sobrecargas 1:800 kilos. 
Substituindo os valores na formula, vem 

70000 h 3 — 3919 h 2 — 4o5o = o. 

D'onde h = 0,41. 

Logo a viga terá uma esquadria de 0,41 x 0,29. 
Se" agora se quizer saber a que coefficiente trabalha a viga basta 
empregar a formula 

P 1 Rbh 2 



4 6 

e d'ella se conclue que aquelle coefficiente apenas attinge 4,^985. 

CALCULO DOS VIGAMENTOS PARA COBERTURA 
DO DEPOSITO DE MADEIRAS 

As asnas afastamse n'este caso 3, m 70 para se apoiarem sobre os 
eixos das pilastras. Cada asna sustenta 

2 barrotes com 0,08 x 0,11 x V44 2 -j- 2, o 2 X 553 = 471,06752 

5 caibros com 0,08 X 0,11 X 4^4 X 553 = 1177,66880 

1 pau de fileira 0,2 X o,3 X 3, 70 X 553 = 122,76660 

1 terça com 0,2 X o,3 X 3,70 X 553 = 122,76600 

4,84 X 3,7 de telha mourisca pesando 140 kpor m. 2 = 2507,12000 
Pressão do vento, segundo a normal a superfície 

4,84 X 3,70 X 64,75 = 1159,54300 

Total . . . 556o,93i32 
Sejam 5,700 kilos. 



Laboratório Marítimo de Aveiro 




LEGENDA 



—Salas para intestigaçfies par- 
ilaref. 

b — Sala d*<rsludo. 
e— Laboratório de phjsica e chi- 

d— Gabinete dis < hefe< dos labo- 

e— I aboraiorio oreanographico. 
/-Museu e biblioihcca. 
í-Gahioetc do diretor. 
A— Gabinete do preparador. 
i— Contabilidade i irchivo. 
fc— Satã dos aquários, tanques c 

■ 



NATURAES E SOCIAES l6l 



O impulso que se transmitte como tensão ao tirante é 

T = 570o X — = 12540. 
' 2,0 

A compressão sobre a perna d'asna - 

N = 5700 X 4 ' 4 = 6897. 
' 2 X 2,0 y/ 

O momento de flexão para a perna d'asna 

RÍ- 5 7 oo X -# = 3i35 
n ' 8 

Uma esquadria de o, 36 X 0,28 fará trabalhar a perna d'asna a 
586776 kilos por metro quadrado. 

Uma esquadria de 0,28 X 0,20 para o tirante apenas o fará traba- 
lhar a 223929 kilos. 

CALCULO DOS V1GAMENTOS PARA COBERTURA 
DAS OUTRAS OFFICINAS 

As asnas afastam-se n'este caso 2, m 20 e cada uma sustenta 

2 barrotes com 0,08 0,11 X 4,84 X 553k = 471,06752 

3 caibros com 0,08 0,11 X 4,84 X 553k = 706,60128 
1 pau de fileira 0,2 o, 3 X 2,20 X 553k = 72,99600 
1 terça com 0,2 0,3 X 2,20 x 553 k = 72,99600 
4,84 X 2,2 de telha. mourisca pesando 1,40^ por m. 2 = 1490,72000 
Pressão do vento 4,84 X 2 > 2 X 64,175 = 689,45800 

Total . . . 35o3,8388o 
Sejam 38oo kilos. O impulso T é 



T = 38oo x — = 836ok 



A compressão 



N = 38oo X - 4 '? 4 - - 4 5 9 8k 
2 X 2,0 ^ y 

O momento de flexão para a perna d'asna 

„. I 38oo X 4,4 u 

R -r = ã~~^ = 2090^ 

n o 

Uma perna d'asna com o, m 24 X o, ,n 32 trabalha a 570124 kilos. 
Um tirante com 0,24 X 0,17 trabalha a 204902 kilos. 



Consagrar todas as forças reaes ao serviço 
de todos. 

E. Littrk. — Cunseroation, Réoolution et 
Positivisme. 



VII 



As despezas a fazer com a execução d'este projecto constam dos 
capítulos seguintes : 

Excavaçõcs 35$43o 

Alvenaria a demolir 2^261 

Alvenaria a construir 2.007I432 

Cantaria e mezas para aquários ii3$ioo 

Emboço guarnecimento, caiação, enchimento de tectos e 

estuques 478^946 

Canalisaçóes de prés e ferro 190^239 

Cobertura do edifício . . 655$458 

Carpinteria 4.587^521 

Serralheria' . . i20#85S 

Pintura ...... 485^866 

Obras accessorias (viveiro de madeira, deposito de madei- 
ras, casas do ferramenteiro, das forjas, ofíicina de 
marinheiro e vedação de madeira nas novas officinas 

i 

para as obras da barra d'Aveiro 3. 683^760 

Obras complementares (viveiro do laboratório com suas 
escadas d'accesso, vedação de madeira ao longo das 
mottas e estrada e eclusa para renovação d'agua e 
entrada de peixe, machinas de vapor, de compressão 
d'ar, bomba de elevação d'agua, dynamos e appare- 
lhos de illuminação eléctrica 3.639H126 

Total . . . i6:ooo$oocv 



NATURAKS E SOCIAES [63 



No fim do segundo capitulo desta memoria, ao tractar-se do preço 
que deveria custar o laboratório de Aveiro, concluiu-se que deveria ex- 
ceder-se a quantia de seis contos de réis pelo facto de se reservar n'este 
estabelecimento logares especiaes para os estudos oceanographicos. 

No quarto capitulo demonstrou-se que não devia contar-se com a 
verba constante do capitulo do orçamento denominado obras complemen- 
tares e da mesma maneira se deve proceder com a importância das 
obras accessorias com que o laboratório marítimo não tem relação al- 
guma. 

D'esta maneira o custo d'este será apenas de 8.677I111 reis, o 
que, ao juro de 6 % ao anno se amortisaria em 20 annos pagando-se 
annuidades de 756$5t8 réis. 

Para a totalidade do orçamento a annuidade seria, ainda ao mesmo 
juro e no mesmo prazo, de 1.394^987 reis. 

No quarto capitulo deste trabalho indicou-se porém o meio de 
crear receita que amplamente compensa todas as obras projectadas, pois 
que ainda restaria um saldo de i3. 402^120 réis. 

A área occupada pelo edifício para laboratório maritimo e oceano- 
graphico é de 877, m2 28 contando n'esta superfície á que se destina para 
habitações particulares no primeiro andar. Cada metro superficial de 
caza fica portanto pela quantia de 9^891 réis, preço modesto ainda para 
uma habitação. 

Ao terminar este trabalho, que tentei tomar tão impessoal quanto 
possivel, seja-me permittido recordar estas phrases de um grande mathe- 
matico que foi um grande philosopho. «A igualdade da instrucção que 
pôde esperar-se que se attingirá, mas que deve bastar, é aquella que 
exclue toda a dependência quer voluntária quer forçada. 

No estado actual dos conhecimentos humanos indicaremos os meios 
fáceis de abranger esse alvo mesmo para aquellas que só podem consa- 
grar ao estudo um curto numero dos seus primeiros annos e no resto da 
sua vida algumas horas vagas. 

Mostraremos que por uma feliz escolha dos próprios conhecimen- 
tos e dos methodos de os ensinar se pôde doutrinar todo um povo em 
tudo aquillo que cada homem carece de saber para a economia domes- 1 
tica, para a administração dos seus negócios, para o livre desenvolvi- 
mento da sua industria e das suas faculdades para conhecer os seus di- 
reitos, defendel-os e exercel-os, para se instruir nos seus deveres e bem 
cumpril-os ; para julgar as suas acções e as dos outros segundo os seus 
próprios conhecimentos e não ser estranho a nenhum dos sentimentos 
elevados ou delicados que honram a natureza humana ; para não depen- 
der cegamente d'aquelles a quem é obrigado a confiar o cuidado dos 
seus negócios ou o exercício dos seus direitos ; para ficar em estado de 



1 64 REVISTA DE SCIENCIAS 



os escolher e vigiar ; para não ser a victima d'aquelles erros populares 
que atormentam a vida com temores supersticiosos e esperanças chime- 
ricas ; para defender-se dos preconceitos só com as forças da razão, em- 
rim, para escapar ao prestigio do charlatanismo que fabricaria armadi- 
lhas contra a sua fortuna, a sua saúde, a liberdade das suas opiniões e da 
sua consciência a pretexto de enriquecel-o, cural-o e salval-o. .. Evi- 
denciaremos tudo quanto uma applicação mais geral, mais philosophica, 
das sciencias do calculo a todos os conhecimentos humanos deve au- 
gmentar-lhes a extensão, a exactidão, a unidade no conjuncto systematico 
d'estes conhecimentos. Faremos notar de que maneira em cada paiz, 
uma instrucção mais universal dando a maior numero de homens os co- 
nhecimentos elementares que podem inspirar-lhes não só o gosto de um 
género d'estudo, como a facilidade de o fazer progredir, se juntará 
áquella esperança (*) ; de que modo esta augmentará ainda se uma abas- 
tança mais geral consentir a maior numero de indivíduos que se entre- 
guem a estas oceupações por isso que effectivamente, a custo nos paizes 
mais esclarecidos, a quinquagesima parte d'aquelles a quem a natureza 
concedeu talento recebem a precisa instrucção para o desenvolver e, 
d'esta arte, o numero de homens destinados a fazer recuar os limites da 
sciencia por meio das suas descobertas deve então crescer n'esta mes- 
ma progressão. Mostraremos de que maneira esta igualdade de instrucção 
e aquella que deve estabelecer- "se entre as diversas nações accelera- 
riam a marcha da sciencia cujos progressos dependem de observações 
em maior numero repetidas, em mais vasto território espalhadas, apon- 
taremos tudo quanto d'ahi terão que esperar a mineralogia, a botânica? 
a zoologia e a meteorologia ; em uma palavra que enorme despropor- 
ção ha para estas sciencias, entre a fraqueza dos meios que já nos con- 
duziram a tantas verdades úteis e a grandeza d'aquelles que o homem 
então poderia empregar. Exporemos quanto nas próprias sciencias, em 
que as descobertas são o único premio da meditação, a vantagem de se" 
rem cultivadas por maior numero de homens ainda pôde contribuir 
para o progresso d'ellas pelo aperfeiçoamento dos detalhes que se mos- 
tram por si á simples reflexão e que não exigem aquella energia cere- 
bral de que necessitam os inventores» ( 2 ). 

Êm esboço ficou desgraçadamente o vastissimo programma traçado 
pelo marquez de Gondorcet nos fins do século passado ; mas se ainda 
a humanidade está longe da perfectibilidade que para ella previa aquelle 



(1) de que a sciencia se não esgota. 

(2) Vid. Gondorcet. — Esquisse d'un tableau historique des Progrès. 
de 1'esprit humain in Bibliothèque National e, 37. e volume, pag. 71, 76 e 
seguintes. 



NATURAES E S0C1AES 165 



sábio, as sciencias naturaes já começam a ter uma cultura, que de cada 
vez se tornará mais intensa. Por isso, ao emprehender e executar este 
trabalho, tentei contribuir com um modestíssimo aperfeiçoamento de de- 
talhe para os estudos oceanographicos em Portugal. 

Possa realisar o que ahi fica cm projecto e julgarei ter justificado 
por esta vez a epigraphe do presente capitulo d esta memoria. 

Aveiro, 1 de junho de 1893. 



J. M. de Mello de Mattos 

Engenheiro. 



BIBLIOGRAPHIA 



Les terrains permique, triasique et jurassique à Timor et 
à Rotti, dans 1'archipel indien (*). 

Un géologue suisse, M. Rothpietz, vient de publier une description 
des fossiles découverts par un naturaliste hollandais, M. A. Wichmann, 
dans les iles de Timor et de Rotti. M. Wichmann se rendait à lile des 
fleurs, mais les difficultés de la traversée le firent sejournér à Kupang, 
et-il en proíita pour étudier les environs de cette ville. 

On savait depuis i865 qu'un petit ruisseau de 1'ile de Timor, nom- 
mé Ajer mati, contient des fossiles paléozoiques, qui avaient été attribués 
au Carbonique, ( 2 ) et au Triasique, tandis que les nouvelles récoltes, 
beaucoup plus abondantes, mettent hors de doute qu'il s'agit d'un gise- 
ment permique. 

Cette íormation n'afrleure pas sur Tile de Rotti. mais les éruptions 
boueuses amènent au joar des fossiles démontrant qu'elle existe au dessous 
des roches affleurants. 

Les espèces reconnucs jusqu'à ce jour montem à une soixantaine, 
dont 41 sont rigoureusement dérerminables. De ces 41 espèces, 22 sont 
spéciales à Timor, les 19 autres permettant une comparaison avec le Pa- 
léozoique des autres contrées, comparaison qui fait voir de grands rap- 
prochements avec le Permique de linde et de 1'Arménie. 

L'ile de Rotti contient par contre des affleurements d age triasique, 
appartenant au faciés aipin. Ge sont des calcaires contenant en quantité 
des empreinjes des genres Monotis et llallobia, comme c'est le cas dans 
les Alpes orientales et en Sicile. 

Ces calcaires se trouvent dans la partie septentrionale de Tile, tan- 
dis que la partie orientale presente des volcans boueux, dont les cones 
de déjection contiennent des fossiles jurassiques. 

Ces fossiles jurassiques appartiennent à 14 espèces, dont 4 seule- 
ment sont en état de conservation suffisamment bon pour permettre une 
détermination certaine. Néanmoins ils font voir que plusieurs étages du 
jurassique se trouvent representes dans le sous-sol. Ce sont : le Lias in- 
férieur, le Lias supérieur. la base et le sommet du Jurassique moyen, et 
probablement aussi la base du Jurassique supérieur. 

P. C. 

(!) Rothpietz. Die Perm — Trias— unrf Jura — Formation auf Timor und Roiti im 

indischcm Archipel. (Palaeontographica, vol. 39, pa?. "57-106. pi. IX-XIV), 1S92. 

( 2 ) Beyrieh. Uebcr cine KtJiljnkãlkfdun.i vuii Timor. Abhandl. Akad. — Berlin 
x86í. 



NATURAE S ES0C1AES 167 



M. Paulino de Oliveira — Catalogue des insectes du Por- 
tugal. Coleoptcrcs. 8.°, 393 pag. — Coimbra 1892 <" 

O inventario da fauna entomologica portugueza é dos mais incom- 
pletos entre nós, facto este para reparo se attendermos a que os inse- 
ctos, como os molluscos, são, d^rdinario, os que despertam a curiosi- 
dade dos amadores e iniciam os primeiros passos dos que, ao deante, 
acabam per se entregarem a um dos vastos departamentos da Historia 
Natural. Conchas e borboletas, eis por onde mais frequentemente se co- 
meça ; as facilidades de encontro e de caça, o encanto da côr e da forma 
explicam, certamente, o motivo d'esta verificada tendência dos princi- 
piantes que, ou persiste mais tarde sob um aspecto todo erudito e exclu- 
sivo, ou deriva em outro ramo onde o naturalista poisa então e definiti- 
vamente a observação e dirige a actividade. Em Portugal, entretanto, se 
a malacologia tem deveras prendido por periodos mais ou menos exten- 
sos a attenção dos estudiosos, não acontece o mesmo com o que diz res- 
peito á entomologia. Excluídas as investigações do snr. Fernando Mat- 
toso sobre os orthopteros e a monographia acerca dos odonatas que o snr. 
A. Girard" publicou n'esta Revista, pouco mais ha para menção, a não 
ser a vasta obra iniciada pelo snr. Paulino de Oliveira e que agora ap- 
parece compendiada num volume de cerca de 400 paginas. Collecçóes, 
citam-se poucas: as d'este auetor (Coimbra), as dos snrs. Braga Júnior 
(Porto), Carvalho Monteiro (Lisboa) e duqueza de Palmella (Lisboa). De 
sorte que, trabalho verdadeiramente de vulto e que, pela facilidade do 
seu accesso, representa deveras o mais valioso serviço ao conhecimento 
da fauna entomologica nacional, é o do illustre professor de Coimbra. 

Desde 1876 que o sábio director do Museu da Universidade vem 
colligindo coleopteros por todo o paiz, e das suas observações e colhei- 
tas andavam por ahi esparsas, em varias revistas scientiflcas, as interes- 
santes nótulas agora reunidas em volume. Ao cabo de treze annos de 
pesquiza — que ainda presegue — o snr. Paulino de Oliveira, com uma 
rara persistência servida por não menos raras qualidades de observação, 
alcançou reunir 2:329 espécies de cicindelideos e carabideos portugue- 
zes, distribuídos por 660 e tantos géneros. E comprehende-se, em face 
d'estes números, a al!a importância que assume tam ampla contribuição 
para a litteratura zoológica do paiz, pensando-se que, precisamente 
neste ramo, era ella por demais exeassa em materiaes. O Catalogo dos 
insectos de Portugal, iniciado pelos coleopteros, é pois um dos mais 
prestimosos subsídios que n'estes últimos tempos teem surgido em maté- 
ria de Sciencias Naturaes. 

Registrando o apparecimento d'este livro e já que se aceusou a 
pouca sympathia que a colleccionação dos insectos tem despertado no 
paiz, é interessante extractar ainda do prefacio do Catalogo os seguin- 
tes trechos que são toda a auto-biographia d'um espirito simples, d'uma 
vida simples, com ambições simples, escripta tam despretenciosamente 
e com tanta sinceridade que nem sei onde mais me quede: se ante a fe- 
licidade bem authentica d'este bucólico, se em face da ingenuidade com 
que elle nos conta e ensina a ser, entre os homens e as cousas, mais 
contente ou mais resignado. 

«Muitas vezes perguniam-me para que serve isto ^ Que proveito se 
tira do estudo dos insectos? Desgraçadamente vejo pessoas, com uma 
fortuna e intelligencia que não possuo, que se oceupam de negócios que 



IÓ8 REVISTA DE SCIENC1AS 



lhe transtornam o espirito, enfraquecem o corpo e não lhes purificam a 
alma. Esquecerão que a morte vem quando menos se espera? Não re- 
flectem que ha um dique certo c intransponível para a; ambições huma- 
nas ? Julgam obter a gloria eterna da vida futura, em troca do inferno 
que preparam n'esta com enormes ambições. Não os percebo, e parece 
que também não logro fazer -me comprehender. Mas estão á sua von- 
tade ; eu também estou. Fazem-me feliz, os meus insectos». 

E adeante: <«E' necessário ter bem presente que a nossa duração é 
ephemera. Aquelles que podem limitar as suas ambições ao que geral- 
mente se consegue alcançar com commodidade para o corpo, tranquilli- 
dade para o espirito e sem remorso para a alma, encontram o ceu n'este 
mundo e decerto que não preparam um inferno para o outro». E fazendo 
sentir de novo que a excursão pelo campo e pela montanha dá a saúde 
ao corpo e a pacificação ao espírito, conclue : «E quanto ao destino da 
alma julgo nada temer do estudo dos insectos, pois que não faço mal a 
ninguém com a minha vida de naturalista». 

N'estes extractos se denuncia nitidamente, e do mesmo passo, a 
feição moral e estudiosa do sympathico naturalista que, no seu cândido 
egoísmo, tem, a um tempo, a fortuna bem rara de ser útil a todos nós 
e feliz e contente comsigo mesmo. 

R. P. 



Paul Choffat — Description de la faune jurassique du 

rORTUGAL, Classe des céphalopodes. I. e ' e série : Ammonites du Lusitanien de 
la contrée de Torres Vedras, 4. , 82 pag. c XiX est. — Lisbonnc, 1895. 

Precedendo o estudo estraiigraphico da região jurássica que com- 
prebende a cadeia de Montejunto e aí regiões mais baixas limitadas a 
leste pela bacia terciária do Tejo e ao sul pelo cretacico que se estende 
do Tejo ao Oceano, o snr. Choffat oceupa se n'esta sua memoria da 
fauna ammonitica do lusitaniano, formação que corresponde ao Malm 
inferior, como o Malm superior corresponde ao portlandiano e ao ptero- 
ceríano da Europa central N'uma introducção faz leves referencias es- 
tratigraphicas á região d'onde provêem os cephalopodes descriptos, a"s 
indispensáveis, para esclarecimento da monographia. Segue-se lhe a des- 
cripção das espécies, muitas das quaes são novas para a sciencia. Re- 
mata o trabalho com considerações estratigraphicas e um Índice alpha- 
betico das espécies mencionadas. 

R. P. 



Paul Choffat — Description de la faune jurassique du 
Portugal.. Mollusques lamellibranches, i. fere ordre : 

Siphonida. 4. , 39 pag. e IX es'. — Lisbonnc, 1S93. 

E' o primeiro fasciculo da monographia cujo titulo vae indicado e 
que continua confirmando a dedicação, sem intercadencias, do illustre 
geólogo suisso, ao estudo do solo portuguez. 

R. P. 



A Revista tem recebido as seguintes publica- 
ções dfalguma das quaes se occupará na sua secção 
bibliographica: 

A bibliotheca da Sociedade Martins Sarmento em i8çy, 

8.°, 23 pag. Porto, 1894. 
i. er Congrès international de la presse. Rapport de la Se- 

ction portugaise, 8.°, 47 pag. Lisbonne, 1894, 



Annaes de Sciencias Naturaes, tom. I, n.° s 1-3. Foz tio 
Douro, 1894. 

Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, serie 13.*, 
n. os 3 4. Lisboa, 1894. 

Boletim da Sociedade Br oteriana, tom. XI, n. os 1-3. Coim- 
bra, 1893. 

Boletim da Sociedade Martins Sarmento, tom. I, n. os 1-2. 
Guimarães. 1894. 

Jornal da Sociedade pharmacentica lusitana, tom. V, da 
serie 10. a , n. os 4-5. Lisboa, 1894. 

O Instituto, tom. XLl, n. os 8-12. Coimbra, 1894. 

Portugal agrícola, tom. V, n. os 1-12. Lisboa, 1893-94. 

Revista de obras publicas e minas, tom. XXV, n. os 291-2. 
Lisboa, 1894. 

Revista de Guimarães, tom. XI, n.° 2. Porto, 1895. 

Revista jurídica, n. 08 24-25. Porto, 1894. 

Bulletin de la Société des sciences historiques et naturelles 
de Semitr, 2. a serie, n.° 7. Semur, 1894. 

Feuille des jeunes natur alistes, tom. XXIV, n os 284-6. Pa- 
ris, 1894. 

Revue mensuelle de 1'Ecole d' Anthropologie, tom. IV, n. os 
5-6. Paris, 18Q4. 

Bulletin de la Société vaudoise des sciences naturelles, tom. 
XXX, ri. 114. Lausanne, 1894. 

Bulletin de la Société belge de microscopie, tom. XX, n. os 
7-8. Bruxelles, 1894. 

Bulletino di paletnologia italiana, tom. X, n. os 1-3. Parma, 

l8 94- 
Bulletino dei Real Comitato Geológico d' Itália, tom. XXV, 

n. os 1-2. Roma, 1894. 
Atti delia Societd italiana de scienze natur ali, tom. XXXIV, 

n.° 4. Milano, 1894. 
\ erhandlungen der Bcrliner Gesellschajt Jur Anthropolo- 



gie, Ethnologie und Urgeschichte, fases, de janeiro- 

março de 1894. Berlim, 1894. 
Verhandlungen der kaiserlichkoniglichen zoologisch-bota- 

nischen Gesellschaft in Wien, n. os de março e julho 

de 1894. Wien, 1894. 
Abstracts of the proceedings of the geological Society of 

London, n. os 618, 620, 624 e 627. London, 1894. 
Bulletin de Vlnstitut égyptien, serie 3.*, n. os 7-8. Le Caire, 

1893. 
Anales dei Instituto fisico- geográfico y dei Museo Nacional 

de Costa Rica, tom. IV. San José da Costa Rica, 

1894. 
Actes de la Société scientifique dn Chili, tom. IV, n.° 1. 

Santiago, 1894. 

MIM MM IIMIIMI II IMII MUI ■■■■■■ illll ■■■■■■ ■■ II II M 1 1 Ml ■ 1 1 1 1 1 1 M 1 1 ■ I M M 1 1 ■ II 1 1 M II II Ill Ill III 

REVISTA 

DE 

SCIENCIAS NATURAES E SOCIAES 

Fti£>liea.çã,o trimestral 



Condições de publicação 

A REVISTA sahirá regularmente quatro vezes por 
anno, em fascículos de 48 pags., 8.° 

PREÇOS DA ASSIGNATURA 
Portugal : 

An no ou serie de 4 números ...... i$200 reis 

Numero avulso. ........... 300 » 

Paizes comprehendidos na união postal í 

Anno . . . . . . . . . ....... 8 fr. 

Numero avulso. 2 » 

Para os outros paizes que não fazem parte da união, aceresce o 
porte do correio. 

A correspondência deve ser dirigida a Rocha Peixoto, 
na Academia Polytechnica. — PORTO. 

PORTO — Typògraphia Occidental 



Il/lr- //, 



7j 



REVISTA 



DE 






I* 11 1> 1 i c a. <? si o trimestral 

.DIRECTORES 

WENCESLAU DE LIMA 

Director da Eschola Meclico-Cirurtcica do Porto 



RICARDO SEVERO 



Engenheiro civil 



ROCHA PEIXOTO 

Natt ralista adjuncto ao Gabinete de Geologia 
da Academia Polvtechnica 



Yolume terceiro — N.° 12 

()] «ER1E — N.° 4) 




PORTO 

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO ChARDRON 

CASA h D I T o I' A 

M. I.UGAN. ^UÇCESSOR 



i8< 



13 



SUMMARIO 



MEMORIAS -ORIGINAES 

Tradições populares portuguezas'. O quebranto, por F. Adol- 

pho Coelho. . . . . ..... . . . pag. 169 

Maleriaes para, a archeologia da comarca de Barcellos, por 

F. Martins Sarmento . . . / . . . . . . . pag. 186 

VARIA 

Ús trabalhos recentes acerca da piscicultura cm Portugal ',' por 

Mello de Mattos . . . . . . . . ... . pag. 199 

BIBLIOGRAPHIA 

Lá laile du silex au XIX siècle, de M. Vieira Natividade, por 

Fonseca Cardoso . . ..... . . . . ; pag, 2i3 

Lusitanos, ligúrts e celtas, de F. Martins Sarmento, por 

F.C. . . . . . . . ■ ,- . . . . . . . . pag. 214 

Appendice ao catalogo dos crustáceos de Portugal existentes no 

Museu Nacional de Lisboa, de Balthasar Osório, porR. P. pag.. .21 5 

Estudos ichthyologicos acerca da fauna dos domínios porta guc- 

'■'ses ria Africa, de Balthasar Osório, por R, P. . . . pag. 2i5 

Melhodos usados na Estacão zóolog-ca de Nápoles, de Salva- 
dor Bianco, por R, P. . . . . . . . . . . pag. 216 

Notice sur les cephulopodes cies cotes de VEtpagne, de Albert 

Girard, por R. P, "'. . . . . . ... . . . pag. 216 

Les cephalopodes dês ites Açores et de file de Madère, de Al- 
bert Girard, por R. P. . . . . . ..... pag. 2í6 



TRADIÇÕES 

POPULARES PORTUGUESAS 



O QUEBRANTO 
II 

Comquanto quasi não sejam necessárias provas de que 
a crença do quebranto é velha em Portugal, indicarei algu- 
mas das allusões que a ella se encontram na litteratura. 

FernancTEscalho leixey mal doente 

con olho mao tão coitad'assy 

que non guarrá, cuyd'eu, tan mal se sente, 

per quant'oj'eu de don Fernando vi ; 

ca Ihi vi grand^lho mao aver 

e non cuydo que possa guarecer 

d'est'olho mao, tant'é mal doente. 

{Cancioneiro d.i Vatican.i, ed. Monaci, n.* 984). 

Na postura sobre superstições da Gamara municipal de 
Lisboa de 1 385 lê-se : «Nem escante olhado» ( 1 ). 

Querey dar-lh' algum conforto 
poys jsto nam vem d'olhado, 
mas d'oulharem 
meus olhos quem me tem morto. 

(Cancioneiro de Rezende, t. I, pag. 119, ed. Stuttgart). 

(*) Publicada por Joseph Soares da Sylva, Colleçam de documen- 
tos com que se authorisam as Memorias para a vida del-rey D. João L 
Lisboa, 1734, doe. 3j. 

lá 



170 REVISTA DE SC1ENCIAS 



Como ahi houve bóos olhos, 
houve-os mãos para mim. 

Anonymo (pub. por Birckman, na ed. da Menina e Moça. Colónia, 1559)* 

Math. Porem trazeis algum pato? 
Tes. E quanto dareis por elle ? 
Hui ! e elle revolve o fato: 
Olho mao se metta nelle. 

Gil Vicente, Auto da Feira, t. I, pag. 181, (ed. Hamb.) 

« ConVé bonito e dourado, temem não lhe dê quebran- 
to». (Jorge Ferreira de Vasconcellos, Eufrosina act. V, 
se. 2. 

Gil Vicente traz um ensalmo contra o quebranto, de 
caracter verdadeiramente popular : 

Estava Santa Anna ó pé do loureiro ; 

Veio o Anjo por mensageiro. 

Vae-te á porta do ouro, 

Acharás teu parceiro ; 

Tira a roca e abraça-o primeiro, 

Vae Joaquim após o carneiro, 

E naquella hora que Deus verdadeiro 

Concebeo Anna em limpo celleiro, 

A Santa Maria rezam o salteiro, 

Que já o quebranto cahiu no ribeiro. 

Comedia de Rubena, t. II, pag. 13, (cã. Hamb.) 

No Escriptorio avarento de D. Francisco Manuel de 
Mello diz um vintém: «eu furado campey ao outro dia por 
Vintém de S. Luis, bom para o ar, para enxaqueca, quar- 
tans, afíicto, mal de olhos, quebranto e mulheres de 
parto» (*). 

(*) Apolo gos dialogaes (Lisboa, 1721), pag. 98. Em vez de affi- 
cto a edição tem afflicto, onde, creio que com pouca razão, se leu 
afflato. 



NATURAES E S0C1AES 



I 7 I 



III 



Em verdade a crença de que nos occupamos aqui per- 
tence ao numero d'aquellas de que temos muito antigos tes- 
temunhos e provas de que se acham muito espalhadas pelo 
mundo. Isso explica facilmente o facto de ter sido já ob- 
jecto de Vários estudos especiaes (*). 

Seja qual fôr a origem remota d'essa crença, é alta- 
mente provável que para nós ella derive da tradição clás- 
sica, em particular da romana, fundida com a celto-iberica. 
Compare-se o que nos diz sobre essa tradição um archeo- 
logo com o que fica colleccionado acima: 

«A palavra grega e a palavra latina ([3aaxavía, fasci- 
num, fascinus) que teem provavelmente a mesma raiz, desi- 
gnam em particular a influencia perniciosa que uma pessoa 
pôde exercer sobre tudo o que a rodeia sem recorrer a ne- 
nhuma cerimonia, a nenhuma formula magica, algumas ve- 
zes até sem a sua vontade ter nisso a menor parte. E 1 o 



( T ) Os mais importantes são, para a antiguidade clássica, o de Otto 
Jahn, Ueber den Aberglauben des boesen Blicks bei den Allen in Bericht 
ueber die verhandliingen der Leipziger Gesellschaft der Wissenschaf- 
ten, i855, e o de J. Tuchmann, La fascination, publ. na Mélusine a par- 
tir do num. 8 do vol. II. de que infelizmente não tenho presentes todos 
os artigos, e que estuda a crença em todo o mundo e em todos os tem- 
pos de que ha memorias, [gnoro se o auctor colheu alguns testemunhos 
portugueses, além dos lexicologicos que cita no primeiro artigo. Das 
obras que tenho presentes occupa-se ainda, com desenvolvimento, do 
assumpto H. Ploss. IJas Ktnd, 2. a ed. vol. I, 139 a 143. Vi ainda um 
bom artigo no Dictionnaire des antiquités grecques et romaines de Sa- 
glio e Daremberg, infra citado. 

Depois de compostas estas notas, tive occasião d'examinar alguns 
artigos mais de Tuchmann e verificar que de Portugal só cita Rodericus 
à Castro, Medicus-Politicus, 2o5 — 10. Hamburgo, i6o3. In Mélusine, 
t. II, (1884-85), col. 411-413. 



172 REVISTA DE SCIENC1AS 



caracter próprio d 'essa acção funesta, o que a distingue de 
todos os outros malefícios (devotio, imprecado, magia). 

«Por isso a crença na fascinação, ou, como se diz na 
Itália, na jettaiura, foi para os antigos causa de receios 
contínuos; abundam nos museus objectos de toda a espécie 
a que elles attribuiam a virtude de preservar contra esse 
perigo . . . 

«No espirito dos antigos o género de malefício chamado 
fascimim podia produzir-se pela intervenção da palavra, 
ainda quando o a uctor do damno não tinha vontade de fa M 
zer mal. Desde tempos immemoriaes suppunham os gregos 
que uma felicidade excessiva excitava a invejVdos deuses 
(Nemesis); devia haver todo o cuidado em não dar Jogar a ella 
por palavras imprudentes, que teriam manifestado dema- 
siada confiança em si mesmo ou simplesmente grande satis- 
fação do presente. Por isso os elogios immoderados eram 
capazes de attrahir a malevolencia dos deuses contra o que 
é o objecto d'elles; as creanças, em primeiro logar, que 
seus pães estremeciam a toda a hora, podiam ser prejudica- 
das na saúde, na existência até, por louvores hyperbolicos 
que aquelles lhes prodigalisavam; era mister proceder nisso 
com moderação. . . 

« Ghegou-se, por consequência, a considerar um louvor 
immoderado como um artifício empregado pela inveja ou o 
ódio para attrahir sobre outrem a cólera celeste; era o que 
se chamava fascinare língua. . . 

«Mas era sobretudo pelo olhar que podia exercer-se a 
nfluencia maligna; por isso, de ordinário, a palavra f ascinum 
designa mais particularmente o mao olho (o-f6aX[xòç ?uov7]póç, 
<p6ovspóç, oculus malignus^ invidus). ímaginava-se que o olhar 
de certas pessoas tinha a propriedade de consumir como 
a chama (urere) os corpos a que se dirigia... Essa crença 
estava tão fundamente arraigada nos espíritos que até pas- 
savam por ter mao olho creanças de peito, incapazes de pro- 
ferir uma só palavra. 



NATURAES E S0C1AES 



'73 



«De modo geral, o mao olhado destruía toda a felici- 
dade da victima; podia attingi-la não só na sua pessoa, 
mas nos seus bens e em tudo o que lhe era querido. Ma- 
tava de doença o gado e as aves de capoeira.. . . 

x Todos os meios que se tinham imaginado para se pre- 
servar do mao olhado {praefascinandis rebus) tinham sido 
inspirados pela mesma ideia : obrigar o olhar fascinador a 
voltar-se, oppondo-lhe um objecto indecente (áxoTrov, iurpe) 
ou ridículo (yeXoíov, ridicuhnn). Pensa va-se que esse signal 
de desprezo neutraiisava os efTeitos dos sentimentos de que 
se estava carregado. Tratava-se de mostrar que se estava 
prompto a pagar o mal com o mal. E' o que explica que 
as palavras ftaaxavía e fascinum, que designam a fascinação, 
foram empregadas num sentido absolutamente contrario para 
designar o remédio.» 

Fazia-se, para evitar a fascinação a figa com a mao ou 
trazia- se uma figa esculpida em marfim, metal, etc. A figa 
representa a união dos órgãos genitaes dos dous sexos. 

Parece também que se simulavam, para o mesmo fim, 
com os dedos as chaves dum animal. 

Havia ainda outros meios, entre os quaes a figura d'um 
phallus, os quaes parece não terem hoje echo em a nossa 
tradição, e todos elles podiam ser reforçados com palavras 
consagradas, entre as quaes só lembrarei a expressão grega 
sppe, vae-te á desgraça, por lembrar o nosso arre, por ven- 
tura sem ligação etymologica com aquella. 

O uso dos amuletos contra o mao olhado, (alem dos 
que figuravam figas), como moedas furadas, e outros com 
um olho esculpido era muito vulgar (*). 



( 1 ) G. Lafaye, Diciionnaire des anti quites grecques et romaines, 
s. v. fascinum. Veja-se também o art. fascinum no Dictionary ofGreeli 
and Roman Anliquilies de W. Smith. (London, 1870). 



174 REVISTA DE SCIENC1AS 



Lembrarei ainda que os gregos e os romanos tinham 
palavras para desviar o quebranto quando comprimentavam 
alguém pela sua saúde, belleza, etc: rctpòç xov(j> tyjv vé^satv (vá 
para o cão a vingança); absit invidia verbo. 

Não é meu intento extender as comparações alem da 
antiguidade clássica. O trabalho, como já indiquei, acha-se 
feito de modo muito competente por Tuchmann, que indica 
a existência da crença na fascinação já entre os chaldeos, os 
assyrios, os antigos egypcios. 

Parece-me inacceitavel que essa tradição, encontrada em 
quasi todos os povos da terra, partisse d 'um só ponto, 
d'um só centro ethnico, da Chaldeia, por exemplo. Como 
tantas outras, nasceu muito mais provavelmente de modo 
independente em diversos povos e em diversos tempos, 
graças a motivos psychologicos communs, d^m lado a ideia 
da nemesiSj já acima exposta, d'outro a ideia de que o olhar, 
que impressiona e atemorisa até, quando incendido pelo ódio, 
pela cólera, pode produzir mal mais ou menos considerável 
naquelle sobre quem incide. A ideia d'emanaç5es partindo 
do olhar devia também concorrer para a formação da cren- 
ça. Pelo olhar crê-se penetrar na alma alheia e a alma é 
considerada, nos estados primitivos do espirito humano comq 
material, ou quasi material, como tendo cheiro, forma, po- 
dendo ser saboreada, comida. Pelos olhos, pois, poder-se- 
hiam communicar exhalações maléficas da alma. Dados os 
dois pontos de partida, muito geraes, todas as outras par- 
ticularidades se derivavam d^elles facilmente pela mechanica 
psychologica. 

A ideia de que os objectos obscenos, como taes, são bons 
prophylacticos contra o mau olhado, conforme indica Lafaye, 
tem base sem duvida; mas não deve esquecer-se que o phal- 
lus é um symbolo primitivo da fecundidade, da vida e como tal 
se opporia a acção de agentes destruidores, e que o acto de 
copula e de geração subsequente, figurado na figa, está muito 
longe de ter tido no começo o caracter obsceno que mais 



NATURAES E SOCIAES 175 



tarde se lhe attribuiu; ao contrario, a geração identificada á 
producção do fogo pela fricção de duas peças de madei- 
ra, (*) é como ella um acto sagrado. 

As figas vieram a servir como expressão de repulsão, 
de reprobação, de desprezo. E' nesse sentido que se serviu 
d'ellas D. João de Castro, como se lê na seguinte passagem 
de Gaspar Correia, que se refere à guerras em Bardez e Sa- 
lsete, a que não acudiram o capitão e moradores de Goa, 
dizendo faze-lo por acatamento do governador que espera- 
vam : 

«Chegado este catur a Baçaim com este recado, ouve 
o Governador (D. João de Castro) muyta paixão porque nom 
passarão além a dar nos mouros; ao que lhe logo mandou 
reposta em que lhe muyto estranhou nom fazer o primeiro 
conselho; e escreveo carta á camará, muyto se queixando 
consentirem passar taes injurias em suas barbas, e que se 
deixarão de o fazer por acatamento de seu mandado, que 
por isso lhe dava muytas figas pêra todos que tomarão tal 
achaque, por nom passarem a deitar os mouros fora da ter- 
ra. E que pois erão meninos que o nom sabião fazer, sem 
mandado de seu pay, que estivessem assy até que lhe viesse 
dar a mama; que elle logo viria acodir aos seus meninos e 
ás molheres que estavão em Goa, onde cuidarão que tinha 
homens. E na carta lhe mandou muytas figas pintadas» ( 2 j. 

IV 

A crença do quebranto não é exclusivamedte popular 
como muitas outras; foi compartilhada por numerosos espi- 
rito, mais ou menos cultos, de diversos tempos. 

(*) Vid. H. Cohen, in Zeitschriftfúr Volherpsychologie, t. VI, 
pag. n3 ss. 

( 2 ) Lendas da índia, t. IV, pag. 616, ed. R. Felner. 



I76 REVISTA DE SCIENC1AS 



No século v antes da nossa era, buscou Demócrito pro- 
var com argumentos racionaes a realidade do quebranto. O 
bom Plutarcho, no século 1 da nossa era, volta á carga num 
capitulo especial dos Symposiaka, e, partindo do ponto de 
vista em que hoje se collocam muitos homens de sciencia 
para não rejeitarem in limine certos phenomenos reaes ou 
pretendidos reaes, não quer que a priori se elimine do cir- 
culo da investigação o maravilhoso. 

As explicações de Plutarcho apresentam o mesmo cara- 
cter fundamental que os motivos populares primitivos do 
quebranto, apenas desenvolvidos pela reflexão. Segundo elle, 
dos olhos dos que fascinam sahem imagens que são inteira- 
mente privadas de sentimento e d'acção e que levando to- 
dos os caracteres da maldade e da inveja d'aquelles de que 
emanam, os imprimem e transmittem áquelles que preten- 
dam encantar e vão produzir no seu corpo e na sua alma 
funesta perturbação. Essas concepções ligam-se á theoria da 
visão dos antigos, segundo a qual sahiriam dos olhos como 
que irradiações que iriam palpar os objectos. Eis porque 
Plutarcho nos diz que o órgão da vista, naturalmente muito 
movei, exhala, com o espirito luminoso que d'elle sahe, uma 
virtude ignea de maravilhosa actividade que faz que o ho- 
mem experimenta e opera muitos effeitos sensíveis. Se as 
paixões se incendeiam em nós e por vezes de súbito sob a 
impressão dos sentidos, porque não crer que inversamente 
o olhar possa servir d'agente á nossa vontade e realisar ex- 
teriormente, por uma virtude secreta, o que sentimos no 
fundo da alma? 

A discussão mesma de Plutarcho revela a existência de 
espiritos fortes, no seu tempo, que se riam do quebranto. 

Na idade media a crença é acolhida, por assim dizer, 
universalmente. Vejamos o que sobre ella nos diz uma grande 
auctoridade da igreja. 

«Super illud ad Galat. 3 Quis vos fascinavit veritati 
non obedire? dicit Gloss. (Ordinária) quod quidam habent 



NATURAES E SOCIAES 



177 



óculos urentes, qui solo' aspectu inftciunt alios, cl maxime 
pucros: Sed hoc non esset nisi virtus animae posset mate- 
riam corporalem immutare. Ergo homo per virtutem suae 
animae potest materiam corporalem immutare. 

«... Ad secundam dicendum, quod fascinationis cau- 
sam assignavit Avie. ex hoc, quod matéria corporalis nata 
est obedire spirituali substantiae magis, quam contrariis 
agentibus in natura. Et ideo quando anima fuerit fortis in 
sua imaginatione, corporalis matéria immutatur secundum 
eam : Et hanc dicit esse causam oculi fascinantis. Sed sup. 
ostentum est (I quaest. 1 10, art. 2) quod matéria corpora- 
lis non obedit substantiae spirituali ad nutum, nisi soli 
Creatori. 

«Et ideo melius dicendum est, quod ex forti imaginationa 
animae immutantur spiritus corpori conjuncti: Quae quidem 
immutatio spirituum maxime fit in oculis, ad quos subtiliores 
spiritus perveniunt. Oculi autem inticiunt aerem continuum 
usque ad determinatum spatium: Per quem modum specu- 
la, si fu^rint nova, et pura contrahunt quamdam impurita- 
tem ex aspectu mulieris menstruatae, ut Arist. dicit in lib. 
de som. et vig. (seu liber de insomniis, qui Mi annectitur, 
cap. 2. tom. 2). Sic igitur cum aliqua anima fuerit vehe- 
menter commota ad malitiam, sicut maxime ih vetulis con- 
tingit, efficitur secundum modum praedictum aspectus ejus 
venenosus, et noxius, maxime pueris, qui habent corpus te- 
nerum, et de facili receptivum impressionis. Possibile est 
etiam, quod ex Dei permimissione, vel etiam ex aliquo pacto 
oceulto cooperetur ad hoc malignitas daemonum, cum qui- 
bus vetulae sortilegae aliquod foedus habent (*). 

Os nossos velhos médicos dissertam gravemente sobre 
o quebranto. 

Zacuto Lusitano discute os seguintes pontos: i.° se ha 

( d ) S. Thomae Aquinatis Summa totius theologiae 1 part. Ques- 
tio cxvn art. 111. 



I78 REVISTA DE SC1ENCIAS 



fascinação natural, o que admitte ; 2. que seja; 3.° quaes 
as suas qualidades (qualis 51 tf) ; 4. quaes as suas differen- 
ças ; 5.° se alguns nascem fascinadores por natureza, o que 
também admitte ; 6.° quaes os seres mais sujeitos á fascina- 
ção; 7. se ha remédios contrários á fascinação; 8.° se ha 
fascinação por pacto demoníaco, do que não duvida. 

« Fascinado, diz elle, duobus modis contingit, animali 
virtute uno; cacodaemonis malefício altero. Illam dari, re- 
centiorum communis fere comprobavit opinio; non enim 
Graeci solum, sed Latini, et Árabes, dari fascinum in re- 
rum natura, argumentis evidentissimis coacti constanter as- 
seruere. . . 

« Oculis autem maximè fascinado fit, quod quae vene- 
num habent, magna ex parte in extremis gestant, quae 
morsu feriunt, in capite, ut chersydrus, haemorrhois, mu- 
raena, vipera, etc. quae ictu in cauda, ut scorpius/ Deinde 
quia facilius conceptum venenum intenti ad nocendum ex ocu- 
lis eiaculantur, quod sine cute sint» ( 1 ). 

Vejamos agora o que nos diz sobre a matéria o bom 
fr. Manoel d'Azevedo. 

«Fascinação, ou olhado, he hú. mal produsido do espi- 
rito do fascinante, saindo pelas porosidades do corpo, & 
principalmente dos olhos, que corrompe o temperamento da- 
quelle sujeyto, a que foy dirigido o tal espirito visivo, impri- 
mindo-lhe hua qualidade maligna, & peçonhenta, & mortife- 
ra, porem naturalmente, & principalmente se for acompanha- 
da com inveja. Esta definição, ainda que não seja absoluta, 
explica comtudo a naturesa da Fascinação, & se poderá cha- 
mar quasi descriptiva : pois diz que é causada de espirito 
que sahe da bocca, ou dos olhos. E assi fascinar propria- 
mente é olhar com um aspecto melancholico, turvo e car- 
rancudo por meio de algua inveja; e assi este espirito ma- 

(*) Zacuti Lusitani, Mediei et Philosophi praestantissimi Ope- 
rum Tomus primus. Lugduni, 1667, pag. 5o9~5i2. 



NATURAES E S0C1AES 179 



levolo misturando-se com os espiritos, e humores do corpo 
aonde entra, os altera, destempera, e corrompe de sorte, 
que de súbito o corpo cae, e mostra o mal, e damno que 
recebeu. 

«E ainda que a definição diga que é espirito saido 
do corpo, e olhes, é só porque comprehenda a Fascina- 
ção natural, e não a diabólica, que esta se fará só pela vir- 
tude do Diabo, permittindo-o Deos, como abayxo se pro- 
vará.» 

Esse auetor diz-nos que as mulheres e principalmente 
as velhas donzellas e viuvas são mais certas no dar olhado 
e fascinação que os homens, o que busca explicar á sua 
maneira. 

«Que haja natural virtude de fascinar, e dar olhado 
não se pode negar; porquanto se tem visto muitos homens 
que sem saberem o que faziam fascinavam a quantos en- 
contravam; para verificação desta verdade sirva a historia 
que relata o doutor Mestre André de Resende no seu livro 
manuscripto, como grandissimo indagador das antiguidades 
de Portugal; o qual diz que um certo fidalgo portuguez, im- 
portando-lhe um despacho d 'el-rei, e lh'o não dava logo, 
por querer ir á caça aquelle dia, determinou o fidalgo estor- 
var-lhe a dieta jornada, e o fez assi : vestiu-se em differen- 
tes trajes, e se poz detrás de ua porta do paço, por onde 
el-rei havia de sair, e saindo os fidalgos pouco e pouco, com 
os falcões, açores, e neblis nas mãos, com grande alegria e 
regosijo, o dito fidalgo escondido lhe ia fitando os olhos a 
todos os pássaros, e lh'os ia matando nas mãos ; e olhando 
uns para os outros, vendo as aves de rapina todas mortas, 
disseram: Recolhamo-nos, e não consintamos que el-rei saia 
a caçar, porque lhes ha de acontecer algum grande desastre, 
como nos está prognosticando este suecesso. Assi se reco- 
lheram ; el-rei não foi a caçar, e não indo despachou aquelle 
fidalgo que tinha o requerimento; e depois se averiguon 



l80 REVISTA DE SC1ENC1AS 



que tinha nos olhos virtude para matar todo o animal que 
com olhos fitasse» (*]. 

Ouçamos o famoso Fonseca Henriques. 

« He pois a fascinação: Communicação de huma occulta 
qualidade nocente, que peita pista, contacto, e cooperação da 
pessoa fascinante se introdu^ na pessoa fascinada, cujos hu- 
mores altera, dissipando os espíritos, e causando huma uni- 
versal extenuação do corpo. Não falíamos da fascinação Dia- 
bólica, que he hum género de encanto, ou feitiço com que 
por virtude de certas palavras ficão muitas pessoas ligadas, 
sem liberdade, nem juizo, secando-se extremosamente^ como 
diz Calepino (v. Fascinum) ; falíamos somente da fascinação 
natural, cuja natureza melhor constará das suas causas. 

«A causa do quebranto he hua occulta qualidade vene- 
fica, que da pessoa que dá o olhado se transfunde no mi- 
nino, ou em outra qualquer pessoa que o recebe ; a qual 
qualidade sem embargo de se comunicar pello hálito, .ou 
respiração, por contacto, e pellos occultos effluvios, que ha 
de corpo a corpo, como aquelles com que os caens conhe- 
cem os vestigios das feras, tem de mais a particularidade 
de se communicar commumente pella vista ; porque parece 
que pella força com que se olha, sahe com mais vehemencia 
aquelle venefko effluvio pellos olhos, e que com maior Ím- 
peto se introduz na pessoa fascinada; e por esta rasão se en- 
tende vulgarmente que dão olhado os invejosos, pondo os 
olhos com grande raiva, ira, e inveja naquella pessoa a que 
chegaõ a invejar a fortuna, ou alguma cousa que trazem para 
ornato do corpo. Por isto as pessoas que não tem filhos, 
quando vem hú minino de agradável presença, lhe daõ mui- 
tas vezes olhado, ainda que o louvem, e gostem de velo; 



(*) Doutor Fr. Manoel de Azevedo, Correçam de abusos introdu- 
zidos contra o verdadeiro methodo da medicina. Primeira parte. Em três 
tractados, etc. Lisboa, 4. 1690. II Parte. Lisboa, 1705. Tractado I, Da 
Fascinaçam, Olhado, ou Quebranto, etc, pag. 9 e seg. 



NATUAES E S0C1AES l8l 



porque sempre o envejão, posto que na5 ponhao nelle os 
olhos com a vista carrancuda. 

aE esta qualidade que de corpo a corpo se communica, 
regularmente se acha em naturezas de depravada, e nervosa 
constituição; porque da corrupção dos humores espira huma 
aura nocentissima, que commovida das paixoens do animo, 
ou por inveja, ou por ira, pondo os olhos em algum objecto, 
o inquinam, e offendem, como succede nas mulheres, que 
no tempo da menstruação manchão, e contaminão os espe- 
lhos, em que põem os olhos, segundo escreve Aristóteles, e 
a experiência confirma. Por isto he mais certo darem que- 
branto as velhas, nas quaes ha ordinariamente humores cor- 
ruptos, e como invejão qualquer alhea formosura, pondo os 
olhos nella, lhe dão olhado. O mesmo succede nas pessoas 
de horrível aspecto, e de má inclinação, que sempre olham 
com paixão, e com enfado, mostrando huma viciosa consti- 
tuição do corpo, da qual emana esta nocentissima qualidade, 
que he causa do quebranto. E qual seja esta viciosa consti- 
tuição, confessa Sennerto, ingenuamente, que o não sabe, 
porque nem a todos he concedido chegar a Corintho». 

«Logo que entendermos que os mininos, ou qualquer pes- 
soa adulta,, tem quebranto, os faremos perfumar com a erva 
hypericão, que vulgarmente se diz erva de S. 4 João, ou com 
a sua semente, porque tem esta erva singular virtude para li- 
vrar do quebranto, ainda que seja diabólico, e por isto lhe 
chamão os Latinos fuga Daemonum, segundo escreve Hiero- 
nymo Mengo. A mesma virtude disse S. Agostinho que ha- 
via no azeviche, cujos fumos se usarão logo, repetindo-os 
varias vezes. E quando não haja hypericão, nem azeviche, 
perfumem-se com salva, mangerona, alecrin, rais de junca, 
a que alguns chamão albafór ; pao de aguila, canella e en- 
censo. Porque tem estes fumos virtude de modificar a qua- 
lidade fascinante. Depois destes fumos se deitarão em cama 
branda, bem cheirosa, cuja roupa se perfumará com as di- 



l82 REVISTA DE SCIENC1AS 



tas cousas.*, e na casa ficará huma caçoula com brasas, em 
que se lance o hypericão, ou qualquer outra erva das que 
temos dito, para que haja na casa em que estiver o doente 
sempre o fumo d'ellas». 

Fonseca aconselha, como Manuel de Azevedo, a que se 
recorra ás pessoas que se sabem curar de quebranto, prin- 
cipalmente sendo os doentes meninos, aos quaes sempre se 
offende com medicamentos, e tracta depois largamente dos 
que se devem applicar para o caso. 

Do que diz dos meios prophylaticos notarei só o se- 
guinte que se refere á tradição popular portuguesa; 

«Para preservar do quebranto he vulgar costume anti- 
go quando se louva algum minino, acudir logo a dizer que 
Deos o guarde, e outras cousas com que cuidão que o de- 
fendem ; sendo que as palavras, só por rasão de palavras, 
nenhuma virtude tem para fascinar; nem para preservar 
da fascinação, como diz Sennerto. Alguns cuidão que em 
dar uma figa se livrão do olhado, e porque não podem fa- 
zelo para todas as pessoas que virem, trazem comsigo fi- 
gas de azeviche, e de outras cousas com que carregão os 
mininos (^w. 

Bernardo Pereira distingue também a fascinação natu- 
ral e a diabólica : 

((Digo natural (fascinação), que he a que chamão que- 
branto ou mal de olho, (em differença da demoníaca, que são 
os feitiços, de que tratamos), que não he outra cousa mais, 
que a communicação de hua qualidade occulta, perniciosa, e 
maligna introduzida pella vista, vaporação, ou contacto em 
qualquer pessoa, cujos humores e spiritos altera de tal sorte, 
e com tal excesso, que faz suscitar grandes febres, dores 
agudas, extenuações do corpo, etç.., a qual já hoje não negão 
os Escrittores, entre os quaes houve nervozissimas contro- 

(*) Francisco da Fonseca Henriques, Medicina Lusitana, 3. a im- 
pressão. Porto, 1750, foi. liv II, cap. i ; pag. 123-127. 



\ 



NATURAES E SOCIAES 183 



versias, que decidio, e fes cessar a quotidiana experiên- 
cia t 1 )». 

Outras vozes poderiam juntar-se a esse coro, como a 
de Braz Luiz de Ubreu, ( 2 ) todas d'accordo nos pontos fun- 
damentaes. 

Não se pense que só os nossos médicos dos séculos xvn 
e xvni estavam inquinados de semelhantes crendices. Na 
Allemanha, por exemplo, defendia-se no século xvn uma 
dissertação sobre a mesma matéria e na mesma corrente de 
conceitos do tractado, que extractarrios, de Manuel d' Aze- 
vedo, em a qual lemos, entre outras coisas : 

«Sunt nonnulli, hanc. sententiam foventes, non solum in- 
fantes, qui optime valent, sed et alios in tabem et pestem 
statum conjici, immò et res alias posse laesioni esse exposi- 
tas et quidem tribus modis. Primo, visu ; deinde você. Ter- 
tio, contactu et contetractione». 

«Non raro pueris et adultis accidit, ut adeo emacrescant 
et maciè corripiantur universi corporis, cum febre, vigiliis, 
inappetentia, et aliquando sine febre, quod Mediei quando 
que sententiam ferant, fascinatione esse affectos ( 3 ).» 

E que pensam os espiritos fortes do nosso tempo rela- 
tivamente ao quebranto? 

Quando vemos asseverados os phenomenos chamados 
de telepathia, a suggestão a distancia no espaço e no tempo ; 
quando voltam as praticas divinatorias, apenas modificadas 
no apparato e nos meios ; quando a assistência de espiritos 
dos mortos, vagueando entre nós e manifestando-se graças 
ao emprego de certos processos muito mais com modos qua 

(*) Bernardo Pereira, Anacephaleosis, medico-theologica, jurídi- 
ca e politica sobre a cura das doenças dos feitiços e seu conhecimen- 
to, pag. 23. — Coimbra, 1734. 

( 2 ) Portugal medico. Parte I, pag. 624, e ss. Coimbra, 1726. 

( 3 ) Disputado medica inauguralis de Fascinatione puerorum e* 
adultoriim quam. ■ . erudilorum disquisitoni submittit Johannes Sebas- 
tianus Otto Ulmeus. Ad diem Merts. Mart. 1664. Argentorati. 



184 REVISTA DE SCIENC1AS 



os da nekuia cTUlysses, se pretende demonstrar inductiva- 
mente, ha toda a razão de perguntar se não é justo que as 
revistas scientificas e as sociedades psychologicas discutam 
a realidade do quebranto. 

Onde começa o natural ? onde acaba ? 

Depois de se negar o supernatural, tende-se a acceitar- 
lhe a existência, baptisando-o simplesmente com o nome de 
natural. A superstição assim chama-se sciencia. Os incultos, 
os primitivos ficam pois a uma distancia muito menor dos 
cultos, dos que estão ou suppõem estar no ponto culminante 
do progresso intellectual ; reduzem-se as differenças a uma 
questão de terminologia. 

Ha alguns annos publicaram-se, na Revue des Deux- 
Mondes, uns artigos sobre os Contos populares na Itália, reu- 
nidos depois em volume (*), cujo auctor, como Plutarcho, 
defende, pelo menos na apparencia, a crença no quebranto, 
acerca do qual reúne dados curiosos. Elle cita entre os que 
creram na fascinação natural nem mais nem menos do que 
o grande demolidor Diderot. O nosso auctor cpnclue : 

«A physiologia, a anatomia, a chimica, a physica, que 
fizeram tão grandes progressos, deveriam também dirigir as 
suas investigações para o mao olhado, que é na essência 
uma doença como muitas outras, aquella de que fallára can- 
didamente ígnez a seu tutor. 

Mes yeux ont ils du mal pour en donner au monde ? 

«Conviria submetter esses phenomenos a um inquérito 
serio, torna-los de certo modo naturaes, porque elles só re- 
pugnam a certos espíritos fortes por terem a apparencia de 
serem sobrenaturaes ou contra a natureza. . . . 

«O século ultimo minava pela base todas as crenças 

(*) Marc Monnier, Les Contes ftopulaires en Italie. Paris, 1880. 



NATURAES E SOCIAES 1 85 



que tractava orgulhosamente como superstições, o nosso aco- 
lhe-as todas indifferentemente e busca explica-las todas.... 

«A crença verdadeira é a do maior numero. Sob'esse 
aspecto, é a jettatura que deveria estar á frente de todas as 
religiões. Contae seus sectários (a estatística faria bem em 
pensar nelles): os que temem a sexta-feira, o numero treze, 
o sal entornado, os espelhos quebrados, etc, etc, etc. ; elles 
são ainda mais numerosos que os budhistas». 

Felizmente ha ainda no mundo um resto daquella iro- 
nia que nelle introduziu Sócrates. 



Lisboa, 24 de março de 1894. 



F. Adolpho Coelho. 



15 



MATERIAES PARA A ARCHEOLOGIA 



DA 



COMARCA DE BARCELLOS 



O «alto da ponte», fronteiro ao Castello do Neiva e 
contíguo á margem esquerda do rio, o monte de S. Lourenço 
e o monte de Saia são as únicas ruinas antigas que eu te- 
nho examinado na comarca de Barceilos. 

Conheço outras por informações, e estou certo de que a 
maior parte é ainda desconhecida dos investigadores. 

O nome de «alto da ponte» fará crer que se trata d'um 
outeiro fortificado, ao qual caberia bem o nome de Castro; 
mas aquella denominação é pouco apropriada, porque o ter- 
reno, onde apparecem as antigualhas que nos occupam, pôde 
dizer-se plano e nada defensável. 

É bem possível que fosse esta a segunda estação dos 
habitantes do Castello do Neiva, que, esse sim, reúne todas 
as condições d'um verdadeiro Castro, e a sua exploração se- 
ria certamente interessante, se lançasse alguma luz sobre a 
transição das povoações dos altos para as planícies — facto 
extremamente obscuro, pelo menos para mim. 

Alguns escriptores nossos, levados sem duvida pelo 
nome latino de Cas.tros, cividades, castellos, etc, affirmam 
que estas fortificações são da epocha romana. Esta opinião 
não é sustentável. Mesmo que o aspecto bárbaro das suas 



NATURAES E SOGIAES 187 



construcçòes não demonstrasse o contrario, bastava reflectir 
se o conquistador permittiria aos vencidos a edificação de 
cidades muradas, que a natureza, ajudada pela arte, tornava 
de difficil expugnação. Mas é positivo nos textos dos antigos 
que os romanos se temiam d'estes ninhos d'aguias e faziam 
todo o possível por aniquilal-os. Ora lhes desmantellavam 
as muralhas, ora os arrazavam inteiramente, obrigando os 
seus habitantes a virem morar em logares abertos e nas 
planícies. E' o que fez Cezar na Lusitânia, Augusto, na 
Cantábria, fidutiam montium timens, diz um historiador. 

Assim pôde afíirmar-se, com certeza, que todas estas 
velhas construcções nos topes dos montes são monumentos 
de primeira ordem, onde podemos estudar a civilisação dos 
nossos antepassados, e muito anteriores á dominação do 
povo-rei. Gomo, porém, na maior parte d'ellas se encon- 
tram vestígios d'influencia romana, é evidente que muitas 
d^quellas povoações, provavelmente sem muralhas (*), con- 
tinuaram a subsistir depois da conquista. 

O que motivou em seguida o seu abandono? Eis a 
questão. A invasão germânica parece extranha a este facto, 
e muito provavelmente começou elle a realisar-se antes do 
apparecimento dos bárbaros. Idacio falla-nos por vezes de 
castellos, em que diflerentes povos gallegos se conservavam 
em rebeldia aberta contra os suevos, e taes castellos são 
certamente idênticos aos Castros; mas nem pôde inferir-se 
d'aqui que n'essa epocha todas as povoações fossem ainda 
nas alturas, mas apenas algumas — o que ainda hoje acon- 
tece — nem que aos bárbaros seja devida a sua destruição. 

Em muitas partes segue-se, a bem dizer, o rasto que a 
povoação foi deixando desde a coroa do monte até á planície 
contigua em que se fixou, e esta observação, se podesse 

(*) Em quasi todas as ruínas que tenho visto, a demolição das 
muralhas parece ter sido intencional e mirando mais ao desarmamento, 
que á destruição da povoação. 



I 88 REVISTA DE SCIENC1AS 



ganhar foros de regra geral, mostraria então que o abandono 
dos altos é um movimento espontâneo dos seus moradores, 
occasionado por hábitos novos e novas necessidades. 

Comprehende-se bem que a escolha dos píncaros agres- 
tes d'um monte para residência habitual obedeceu á ideia 
imperiosa de pôr a vida e a propriedade a salvo de agressões 
continuas e traiçoeiras. N'este caso a tranquillidade, que a 
aspereza de posição assegurou, nem deixava pensar nas in- 
commodidades que lhe eram inherentes. 

Ás avessas, desde que a anarchia cessa e as occupações 
pacificas podem desenvolver-se francamente, aquellas incom- 
modidades tornam-se insupportaveis e, em compensação se 
a tendência a libertar-se d'elias deve triumphar, tarde ou ce- 
do, na razão directa do progresso da cultura. 

A chamada pacificação da Hispanha depois d'Augusto 
parece ser a chave do enygma que procuramos. 

A definitiva conquista da Hispanha no tempo d'este 
imperador pôz cobro á hostilidade em que os mil povos da, 
peninsula viveram, uns em face dos outros, e de que as ci- 
dades muradas seriam prova irrefragavel, mesmo que a his- 
toria o não declarasse expressamente. 

Estas rivalidades e ódios serviram valiosamente o con- 
quistador. O romano, em regra, ou espontaneamente, ou a 
pedido, favorecia uma das parcialidades e acabava sempre: 
por as escravisar a ambas. A dominação completa dos pe- 
quenos povos hispânicos offereceu ainda assim uma resis- 
tência que se tornou celebre, não tanto, segundo pensamos, 
pela repugnância á tutella dos romanas, como pela brutali- 
dade e cubica torpe dos seus generaes, que sonhavam me- 
nos com uma propaganda civilisadora, que com o saque das 
cidades, que os enriquecia a elles e á soldadesca, enfure- 
cendo as suas victimas. 

Com relação á Lusitânia e Gallascia pôde dizer-se que 
só Augusto tratou a serio da sua pacificação. Depois da 
violenta guerra da Cantábria, começa eífectivamente uma 



NATURAES E SOCIAES 189 



era de paz duradoura, que, se foi cortada por algumas re- 
belliões parciaes, não alterou, no essencial, o novo estado 
de cousas. 

Foi n'estas condições que se verificou o abandono da 
grande parte das povoações primitivas, entre ellas a do Cas- 
tello do Neiva, que escolheu uma posição mais commoda 
no logar, onde hoje vemos o «alto da ponte»? 

Tudo isto são meras hypotheses que mostram a pro- 
fundidade da nossa ignorância e o muito que temos a fazer 
para tomar posse da nossa historia passada, de que esta- 
mos vergonhosamente desherdados. 

De resto, pouco tenho a dizer do «alto da ponte». Na 
área da velha povoação vegeta hoje um espesso pinhal. A 
pedra das construcções foi toda saqueada, e, se alguns ali- 
cerces existem, cobre-os a terra. 

O observador desprevenido pôde percorrer aquelle ter- 
reno, sem suspeitar que calca o assento d^ma povoação, 
talvez bem importante. Um antiquário da localidade far- 
lhe-ha, porém, ver que se não arranca por alli um pinheiro, 
sem pôr a descoberto uma quantidade innumeravel de telha 
romana, fragmentos de louça de differentes qualidades, e, 
conforme as informações do meu guia, vários objectos de 
metal. 



O monte de S. Lourenço, em Villa Chã, é um peque- 
no Castro. 

Ergue-se no serro do systema orographico, que corre 
parallelo ao mar, e no qual não poucos Castros se encon- 
tram, desde Villa Chã até Vigo. 

Fallo propositadamente de Vigo, porque o Castillo d'el 
Castro, sobranceiro á cidade, occupa a coroa d'um outeiro, 
onde sem duvida alguma esteve assente o Vicus Spacorum 
dos antigos. E' fácil seguir ainda a linha de fortificações, 



IÇO REVISTA DE SCIENC1AS 



em que esteve encerrada esta povoação, mencionada entre 
outros, no Itinerário de Antonino; os fragmentos de cerâ- 
mica affloram por toda a parte no solo ou em qualquer corte 
n^lle feito, e tudo isto é tão parecido com o que se vê na 
Citania e em outras ruínas nossas, que a comparação de to- 
das estas estações tiraria as duvidas, se algumas existissem 
ainda, sobre a sua contemporaneidade e sobre o parentesco 
dos povos que nol-as deixaram. 

A actual povoação de Vigo é também, se não erramos, 
um exemplo frisante do abandono espontâneo d'um domici- 
lio, imposto primeiro pela necessidade de determinadas 
circumstancias, e desprezado em seguida por outro, mil ve- 
zes mais favorável ás commodidades da vida. 

Entre as ruinas de Villa Chã e as de Vigo ha só a dif- 
ferença de dimensões. O Vicus Spacorum era uma povoa- 
ção de primeira ordem, emquanto que a de S. Lourenço só 
por favor pôde ser considerada de segunda. (*) 

De resto, pouco ha que dizer acerca d'esta espécie de 
monumentos, que não revelam os seus segredos ao primeiro 
visitante, mas apenas os guardam para os exploradores pa- 
cientes. Os exploradores em Villa Chã teem-se limitado a 
procurar ouro encantado. 

O que se pôde affirmar é que em S. Lourenço estão 
bem á vista vestigios d^nfluencia romana; pedaços de telha 
com rebordo e fragmentos d^amphoras encontram- se alli sem 
muito trabalho. 

O meu guia fallava-me d'umas lettras antigas, abertas 
n'uma fraga, que não foi possível descortinar, e que elle me 
disse não serem as d'uma data muito moderna, que primeiro 
me mostrou. Para elle a cousa mais notável do sitio era 
uma pia, refundada n^im penedo, a pouca distancia das 



(*) Ruinas de segunda ordem ha-as também nas proximidades de 
Vigo, por exemplo o monte da Senhora da Guia, quasi na margem 
da bahia. 



NATURAES E S0C1AES 1 O, I 



ruinas, e que está sempre cheia d'agua, que sobe ou desce 
com a maré. 



O monte da Saia, na freguezia das Carvalhas, apre- 
senta vestigios d'uma povoação importante. 

Quando as excavações da Citania fizeram alguma bu- 
lha e andava em averiguações se o nome de Citania era 
próprio ou appellativo, as ruinas da Saia vieram fazer con- 
corrência a varias outras, que se julgavam com direito 
áquella denominação. 

Eu fiquei um pouco desconfiado da legitimidade d'esta 
pretensão, quando, ao visitar o monte, perguntando pelo 
caminho mais direito para a Citania aos visinhos dos logare- 
jos próximos d'ella, os via olharem-se, como se se lhes per- 
guntasse por Mycenas ou por Tróia; mas mais tarde uma 
senhora, da casa das Carvalhas, já a entrar pelos oitenta 
annos, confirmou que sempre ouvira tratar as ruinas da 
Saia pelo nome de Citania. 

Ha mais razões a favor do que contra, para acreditar 
que este nome é um appellativo; mas o que significa elle? 
O snr. Adolpho Coelho, com applauso do redactor da Re- 
vue Celiique, escorraçou facilmente os amadores, que es- 
quadrinhavam, com mais enthusiasmo que sciencia, a ety- 
mologia da palavra mysteriosa. A critica, porém, conten- 
tou-se com o seu fácil triumpho, e não deu a decifração do 
enygma, certamente por lhe faltarem dados seguros para 
uma interpretação scientiflca. 

No entanto, na opinião do snr. Virchow, a cousa é fá- 
cil. «Citania e Civitas — diz elle — tem todos os visos de 
ser uma e a mesma palavra, mas os philologos não estão 
por isso». 

Próximo da Guardiã (Galliza) ha um logar chamado 
Cividanes, e a povoação actual teve, sem duvida, o seu pri- 



I92 REVISTA DE SC1ENC1AS 



meiro assento n'um Castro, que lhe fica sobranceiro. E' 
cPahi que ella trouxe também o nome que hoje conserva? 
Se Gividanes não é um adjectivo, e parece que não, po- 
dendo affirmar-se que o d é um abrandamento d'um t mais 
antigo, Gividanes está por Givitanes, e vae-se approximan- 
do de Gitania. A approximação mais estreita seria, se em 
Civitanes se desse a contracção que se deu em Ciudad (de 
Cividade), porque então teríamos Ciutanes. 

Seja como for, não ha razão alguma para assegurar, 
como faz o snr. Geuleneer, fiado em falsas informações por- 
tuguezas, que todas as nossas ruinas são chamadas Citanias. 
Em Portugal eu não conheço senão quatro citanias, mais ou 
menos duvidosas; na Galliza, uma. Pôde ser que novas des- 
cobertas augmentem a lista. Por emquanto contentemo-nos 
com estas. 

Mais vulgar é o nome de Cividade, tão vulgar que elle 
ás vezes está refugiado em qualquer bouça de matto, onde 
provavelmente acabaram as ultimas casas da povoação, que 
teve seus dias de gloria n'uma cabeça pouco distante. 

Eu já disse que as nossas povoações pre-romanas teem 
pouco que descrever. 

Na grande maioria d'ellas a pedra das construcções e 
das muralhas está hoje nas tapadas e nas casas dos arre- 
dores. Apenas escaparam os alicerces, que o tempo se en- 
carregou de cobrir com uma grossa camada de detritos ve- 
getaes, de sorte que os observadores, pouco affeitos a estas 
vistorias archeologicas, recusam-se muitas vezes a acreditar 
que andam a passear na área d'uma antiga «cidade», que 
valeu talvez tanto, como a Braga d'ha vinte séculos. 

Só a alvião e a enxada podem desenganar estes incré- 
dulos, e pôr a descoberto essas relíquias d'uma civilisação, 
que nos faz rir a nós, e meditar os estrangeiros que a con- 
templam. 

Por emquanto ao monte da Saia apenas chegou o al- 
vião dos sonhadores de thesouros e, segundo me juraram, o 



NATURAES E SOCIAES 193 



dos empreiteiros do caminho de ferro do Minho. Estes ti- 
veram olhos para descobrir os alicerces da muralha, mal 
encobertos no talude da explanada, e ainda poderam atirar 
para os aterros da linha uma boa porção de metros de pa- 
rede, que regulava por uns sete palmos d'altura. Quasi toda 
a parte do poente foi saqueada. 

Na encosta do monte ha ainda dous monumentos de 
que vou occupar-me. 

Um d'elles é uma grande lage carregada d'esculpturas, 
onde predominam os círculos concêntricos e as covinhas 
(fossetes dos francezes), muito vulgares entre nós, mas onde 
apparece a maior o swastika — o que é muito mais raro. 

O swastika é, como se sabe, uma cruz de braços eguaes 
cujas extremidades terminam em angulo recto, sempre na 
mesma direcção. 

Segundo os competentes, elle representa a peça princi- 
pal do arani, em cujo centro, o cruzamento das duas hastes, 
se produzia por fricção o fogo, o famoso Agni, tão cantado 
no Rig Veda. 

Como esta cruz dos velhos povos arianos, ainda hoje em 
uso na índia, veio parar ao monte da Saia, séculos antes do 
Ghristianismo, é um enygma que se explica, pouco mais ou 
menos do mesmo modo, por que se explica o facto de ter 
ido parar á índia a cruz dos christãos, levada alli, ha alguns 
séculos, pelos navegadores portuguezes. (*) A' falta de do- 
cumentos históricos, O roteiro d^quelles navegadores pode- 
ria ser restaurado pelo symbolo da cruz, que elles foram 
erguendo nas estações, em que tocaram, antes de chegar ao 
suspirado oriente. 

O swastika está no mesmo caso. Para não irmos mais 
longe, . desde Tróia, onde elle apparece dezenas de vezes, 
até ao extremo occidente, pelas estações em que elle tem 

(*) Sobre as relações da cruz e do swastika pôde ver-se o livro 
do snr. E. Burnouf, La sciencc cies religions. 



194 REVISTA DE SCIENC1AS 



sido descoberto, pôde não só asseverar-se que foi pelos Dar- 
danellos que passou da Ásia para a Europa a grande mi- 
gração árica, da mesma família de povos que o importaram 
para a índia, mas seguir com muitas probabilidades a di- 
recção 'que tomaram os emigrantes até encontrarem deante 
de si a barreira do oceano atlântico. 

A linguistica e a mythologia comparada apoiam solida- 
mente esta doutrina. Pelas crenças religiosas, pela lingua, 
pela educação, os gregos, os latinos e uma grande parte dos 
povos occidentaes são arianos tão legítimos, como os orien- 
taes que mais tarde redigiram o Rig Veda; mas o commum 
dos ethnologistas quer que os povos occidentaes sejam cel- 
tas, sem se perceber muito bem porque o não hão de ser 
também então os gregos e italiotas. 

Nós já n'outros escriptos tentamos demonstrar que os 
celtas nenhuma influencia podiam exercer na Lusitânia, e é 
opinião nossa que os povos da Lusitânia que construiram a 
Saia e outras «cidades» do mesmo typo são parentes tão 
Íntimos dos gregos e dos latinos, quão affastados dos celtas, 
que, supposto possam pretender a uma origem árica, per- 
tencem todavia, conforme as maiores presumpções, ao grupo 
germânico, cuja lingua, hábitos e educação os distingue pro- 
fundamente das primeiras colónias áricas europeias, haven- 
do mesmo entre uns e outros uma antipathia invencível. 

O segundo monumento, que eu disse deveria existir na 
Saia e merecer a attenção dos archeologos, dá-me ainda uma 
prova a favor do meu modo de ver. 

Na vertente occidental do monte vêem -se ainda hoje 
as ruínas d'uma construcção, que o vandalismo da populaça 
destruiu, ha poucos annos, dando-lhe o nome de «Forno 
dos mouros». A denominação vem d'uma espécie de cabana 
abobadada, actualmente descoroada, graças aos demolido- 
res, occupando o topo dum recinto murado, irregularmente 
quadrilongo, para o qual se descia por alguns poucos de- 
graus. 



NATURAES E SOCIAES !<)<$ 



N'este recinto, mas n'uma posição que não é possível 
determinar hoje bem, havia dous baixos relevos, n'um dos 
quaes se vê uma figura humana tendo á sua esquerda a ca- 
beça d^m animal, no outro uma segunda figura humana 
só, porém, tudo tão deteriorado pelo tempo, que mal pôde 
fazer-se ideia do que tudo aquillo pretendia representar. (*) 

Pelos modos, dentro do recinto existia também um tan- 
que de pedra, aonde vinha ter, por um aqueducto, parte do 
qual a excavação poz a descoberto, a agua de três nascen- 
tes, que brotam alguns passos mais acima, e que hoje se- 
gue um curso differente do antigo. ( 2 ) 

Uma d'estas nascentes é notável pelo nome e pela lenda 
que lhe anda ligada. Chama-se «fonte do Pégarinho» e sahe 
d'uma pequena cavidade quasi circular, refundada na rocha, 
tendo-se como certo na freguezia que ella não é outra cousa 
senão a pegada da jumenta da Senhora, quando fugia para 
o Egypto. Por isso esta agua tem virtudes quasi milagro- 
sas : cura a dor de dentes e nunca produz constipações, 
mesmo bebida em condições em que qualquer outra as 
produziria. 

A tradição da fonte da Saia, quanto ao facto que lhe 
deu origem, encontra-se n'outras partes do nosso paiz ( 3 ); 
mas, evidentemente, ella nada tem que ver com as legendas 
christãs propriamente ditas. Mesmo nos Evangelhos apo- 
cryphos nenhuma allusão se encontra a este milagre, ope- 
rado pela pata d'um quadrúpede. Na mythologia grega, 
pelo contrario, a patada do celebre Pégaso deu á Grécia 



(*) Graças á obsequiosidade do meu amigo João Torres, que pri- 
meiro chamou a attenção do publico para as ruinas da Saia, estes bai- 
xos relevos estão hoje em meu poder. 

( 2 ) Um monumento, muito parecido ao da Saia, foi demolido, ha 
annos, nas faldas de Sabroso. Em Vermui parece ter havido outro. 

( 3 ) Veja-se o importante livro do snr. José Leite de Vasconcellos, 
Tradições Populares de Portugal, pag. 72. Em Castro Laboreiro existe 
a mesma lenda. 



I96 REVISTA DE SCIENC1AS 



umas poucas de fontes, entre ellas a famosa Hippocrene, 
denominada por isso Pégasea. 

Ora eu suspeito muito que o nome de Pégarinho, que 
tem a fonte da Saia, derive d'um mesmo thema que Pe- 
gaseus ( 1 ). 

Não querendo metter fouce em seara alheia, limito-me 
a colligir alguns materiaes, chamando para este assumpto a 
attenção dos competentes. 

Pégarinho presuppõe, com certeza, a forma mais an- 
tiga de pêgarinus ; mas ha boas razões para acreditar na 
existência d'uma forma ainda mais antiga e mais primitiva 
— pêgasinus (o s entre vogaes torna-se r). O thema seria 
então pegas. 

A fonte aonde Hyllas ia encher a sua urna, quando 
foi raptado por uma nympha, namorada da sua belleza, cha- 
mava-se Pegas. Pegas é o nome que o povo dos arredo- 
res do monte Cristello dá a umas minas eguaes ás da Saia; 
mas acrescenta Argote: «e dizem que para memoria disto 
se conserva ainda alli uma preza d'agua, a que chamam Pe- 
gas». Eu concluo sem hesitação que este nome era o da 
nascente, embora a povoação, que d'ella se utilisava, tirasse 
cPalli o seu. 

O culto das aguas entre os Lusitanos deixou vestígios 
numerosos na archeologia e nas tradições. Seria, porém, im- 
portante tirar a limpo se as lendas das fontes que reben- 
tam da patada do Pégaso tiveram curso entre elles. O que 
fica dito, se não é uma prova terminante, favorece todavia 
esta supposição. 

Mas, se a fonte do Pégarinho, pelo nome e pela lenda, 
é francamente grega, como explicar o facto? 

Os pensadores antigos tirar-se-hiam bem da difficul- 
dade. Antiquíssimas colónias gregas na Lusitânia e na Gal- 
liza era cousa que não repugnava a ninguém e que o pro- 

(*) E' bom observar que fonte em latim é do género masculino. 



NATURAES E SOC1AES K)J 



prio A. Herculano admitte. Isto perecia incontestável, at- 
tenta a segurança com que os primeiros viajantes gregos 
apontavam analogias frisantes entre alguns usos e costumes 
dos Lusitanos e dos gregos, bem que misturados com ou- 
tros que elles qualificavam de bárbaros na gemma. 

Estas observações tinham dado logar a uma doutrina 
que foi passando de mão em mão, e continuará o seu ca- 
minho, quem sabe até quando ! 

Tinha-se por certo que, depois da guerra de Tróia, os 
heroes gregos haviam sido obrigados pela ira dos deuses a 
errar por esses mares fora e a arribar, pouco mais ou me- 
nos, a toda a parte, a que o mar Egeu e o Mediterrâneo 
davam accésso. A Hispanha tinha recebido alguns d'estes 
illustres hospedes. Assim Ulysses tinha fundado uma ci- 
dade na costa sul da península e mais tarde attribuiu-se-lhe 
a edificação da antiga Lisboa. O filho de Tydeu tinha fun- 
dado Tyde, a Tuy d'hoje. Amphiloco, os companheiros 
d'Antenor, também tinham colonisado a Galliza, etc. 

Como, porém, os gregos eram em pequeno numero, a 
sua cultura foi abafada pela barbárie dos naturaes. O que 
havia de bom n'estes bárbaros era grego; tudo o mais vinha 
do barro ruim dos indígenas. 

Ora, olhando com mediana attenção para a historia 
grega e para a historia das suas colónias, vê-se que ante- 
riormente ao século vn antes da nossa éra, nenhuma colo- 
nisação grega é possivèl na Hispanha. 

Todas as colónias gregas, trazidas á Lusitânia e á Gal- 
liza pelos heroes da guerra de Tróia, são puras fabulas, 
construídas sobre a identidade de nomes e identidade de 
costumes. 

Ora esta identidade de nomes e de costumes explica-se, 
naturalmente, desde que se attenda á origem commum de 
todos os povos arianos da Europa e ás grandes probabili- 
dades de que as tribus arianas do occidente da Hispanha 
pertencem a uma mesma emigração que os latinos e gregos. 



I98 REVISTA DE SCIENClAS 



Emquanto que as civilisações, com que estes últimos esti- 
veram em contacto, alteraram profundamente a sua phy- 
siognomia primitiva, os povos occidentaes, entregues a si 
próprios, necessariamente haviam de offerecer aos observa- 
dores gregos de tempos relativamente modernos uma mis- 
tura de costumes hellenicos e bárbaros. 

Esta barbárie é, a nosso ver, o archaismo, e nada nos 
admira que esta feição se encontre na mythologia. Os no- 
mes de deuses luzitanos, de que nos dão conta as inscri- 
pções, parecem muitas vezes extranhos ao mundo greco-ro- 

mano, Bormanico, por exemplo; mas, se se escava um pouco 
no assumpto, conclue-se que este deus, que passa por cél- 
tico, tem, forma e fundo, o seu correspondente na mytho- 
logia grega, e que é mesmo por ella que nós podemos formar 
uma ideia approximada das attribuições e da importância 
que entre nós lhe foram dadas. 

Não nos despedimos d'entrar um dia n'esta demons- 
tração. 



i883. 



F. Martins Sarmento. 



VARIA 



OS TRABALHOS RECENTES ACERCA DE PISCICULTURA 



EJVt PORTUGAL 



Circumstancias alheias á vontade do auctor adiaram o appareci- 
mento da memoria referente ao Laboratório maritimo d'Aveiro, de modo 
que a analyse, n'esta revista, dos escriptos acerca de piscicultura, pu- 
blicados nos çAnnaes de Sciencias Naturaes, na zA. gr i cultura Nacio- 
nal e em Pela Pátria, homenagem do Centro Commercial do Porto ao 
Infante D. Henrique, viria tanto de molde, pela demora, como um juí- 
zo critico acerca da Eneida ou do Ramayanna. 

Aquelles trabalhos porém não modificam, de modo algum, o que 
se disse acerca das vantagens do Laboratório maritimo de Aveiro, como 
se poderá ver pela apreciação que d'elles se segue. 

O primeiro artigo a examinar tem a data de 22 de julho de 1893 
e é firmado pelo snr. Baldaque da Silva, membro da Commissão central 
permanente de Piscicultura e inspector dos serviços de exploração das 
aguas interiores do paiz. Veio publicado em o numero 4 da oAgricul- 
tura Nacional. 

Depois de esboçar a curta existência da piscicultura official no paiz, 
o snr. Baldaque da Silva, expõe os intuitos da commissão central per- 
manente de piscicultura, resumindo-os nos termos seguintes: «Uma re- 
gulamentação geral adequada aos usos e costumes do paiz, moldada nos 
methodos technicos experimentados em outras nações; um laboratório 
de preparação de óvulos das melhores espécies de agua doce, apto para 
fornecer aos particulares a creação dos viveiros e aos rios o repovoa- 
mento de que estão exhaustos; uma piscina industrial modelo, na ri- 



200 REVISTA DE SC1ENCIAS 



quissima ria dAveiro, centro de piscicultura maritima interior, habili-- 
tando os proprietários dos terrenos emergentes d'essa grande bacia sal- 
gada a estabelecer a industria da creação e engorda que pôde, só por si, 
abastecer de peixe vivo todos os mercados do paiz; uma estação zooló- 
gica maritima em Cascaes ou Setúbal, com aquários para campo expe- 
rimental dos nossos primeiros institutos scientificos e dos ichthyologis- 
tas em gerai, nomeação de commissões regionaes e proceder a um in- 
quérito nas aguas interiores». (*j 

Nada haveria que objectar a este programma se não encerrasse a 
noticia do projecto de uma piscina industrial para Aveiro ao lado dé 
uma estação zoológica em Cascaes ou Setúbal. Parece portanto que o 
estabelecimento d' Aveiro não terá em consideração os estudos theoricos . 
de ichthyologia, que são imprescindiveis em qualquer tentativa de pis- 
cicultura, conforme o demonstrou o notável professor snr. H. de La- 
caze-Duthiers por meio das seguintes palavras: «Bastas vezes, se fazem 
experiências em piscicultura e ostreicultura sem previas informações 
sufficientes acerca das condições biológicas necessárias no desenvolvi- 
mento dos animaes que se semeiam e por isso se fica exposto d'est'arte 
a grandes erros •>. N'um laboratório como o de Roscoff. escreve prece- 
dentemente, consagrado aos estudos de sciencia pura, não se pode tra- 
tar d'uma considerável creação e de uma espécie de industria; mas. 
podem e devem mostrar-se ali factos comprovativos, destinados a ser- 
vir de exemplo e permittindo á industria apoiar-se n'elles para tentar 
experiências em maior escala, que devem dar produetos remunerado- 
res, por isso que não será preciso fazer ensaios; bastará imitar ». (2) 

Na hypothese porém de que a piscina industrial modelo, a que 
allude o snr. Baldaque da Silva, não ponha de parte os estudos theori- 
cos de zoologia e ainda os de meteorologia, physica, chimica, bathime- 
tria, botânica, hydrographia, geologia e mineralogia, de cujas acções, 
combinadas depende a existência, multiplicação e desenvolvimento do 
peixe, nada haveria que dizer do estabelecimento destinado para Aveiro, 
pela Commissão central permanente de piscicultura, por isso que, ape- 
nas pelo nome, diíferiria de uma estação aquicola e daria resultados 
idênticos aos industriaes dos laboratórios maritimos dEndoume, Cette, 
Boulogne-sur-mer e do velho viveiro de Concarneau, fundado por Coste. 
N'este caso a piscina, que o snr. Baldaque da Silva destina para Aveiro, 
estaria no mesmo caso que o viveiro modelo lembrado pelo snr. Fon- 
seca Regalia, que serviu d'argumento ao auetor d'este trabalho para 

(i) Vid. Agricultura Nacional, n.° 4, pag. 56. A piscicultura em> 
Portugal. 

(2; Vid. Laboratório marítimo d' Aveiro, pag. 38 e 28 e Archives de 
zoologié expérimentale et générale, 2. e série, t. IX (1891), pag. 293 e 295. 



NATUKAKS K SOCIAIíS 201 



propor a creação de um laboratório marítimo em Aveiro (*) onde pode- 
riam obter-se dados theoricos interessantes para a zoologia pura sem 
os inconvenientes da concorrência da população ociosa e doente que 
encommoda os que trabalham e que costuma concorrer ás praias de 
banhos de maior nomeada, como referiram os snrs. professores Giard e 
H. de Lacaze Duthiers e já por duas vezes o indicou o auetor d'este 
trabalho. ( 2 ) 

Gomo meio educativo e d'alcance puramente philosophico, embora 
lhe peze este ultimo qualificativo, o dr. Fauvelle recommenda aos fre- 
quentadores de praias de banhos e aos tourístes que visitem as estações 
de zoologia marítima, para assim observarem a variedade infinita de 
formas que o mundo do mar apresente nas differentes regiões ( 3 ); mas 
como os touristes e banhistas mais pensam em divertir-se do que em 
philosophar, nenhum inconveniente haveria para o laboratório marítimo 
d'Aveiro em se afastar das praias frequentadas, mesmo porque, para 
aquelles banhistas da Granja e Espinho, que quizerem fazer philoso- 
plúa, não lhes faltariam meios de a elle se transportarem, como n'outra 
parte ficou demonstrado, evidenciando-se ali as vantagens da posição 
d'elle relativamente aos cursos de zoologia da Universidade e Polyte- 
chnica do Porto ( 4 ), vantagens que não offerecem senão á Escola Poly- 
technica de Lisboa qualquer das estações de Casca"es e Setúbal, em ex- 
cellente posição, de resto, para uma estação aquicola que em nada pre- 
judicaria o Laboratório, marítimo d'Aveiro. 

Em janeiro de 1894, o snr. Baldaque da Silva publicou nos c4rc- 
naes de Sciencias Naturaes uma communicação subordinada ao mesmo 
titulo que o artigo acabado de examinar, em que faz uma breve resenha 
dos trabalhos da commissão central permanente de piscicultura e lem- 
bra que em 20 d'abril de 1893 foi decretada a approvação do regula- 
mento dos serviços aquicolas, « regulamento de grande alcance para a 
pesca interior e para a piscicultura e que se coadunava tão bem com os 
usos e costumes dos povos que não levantou contra si nenhuma repre- 
sentação ou protesto, facto digno de registar-se na epocha presente em 
que quasi todas as medidas do poder central encontram resistência na 
sua execução, a maior parte das vezes por uma simples questão de forma 
e outras por excederem os justos limites da concentração administra- 
tiva». ( 5 ) 

(í) Vid. Engenheria e Archilectura, 1.° anno, pag. 27. 

(2) Vid. Revue Scientifique, torno XIV, pag. 218 e n.° 7 de 18 de 
agosto de 1888, pag. 202; Engenheria e Architeclura, 1.° anno, pag. 27 e 
Laboratório Marítimo d' Aveiro, pag. 31. 

( 3 ) Vid. La PhysicoChimie, pag. 56. 

(') Vid. Engenheria e Archilectura cit., pag. 27. 
{*) Vid. Annaes cit., pag. 46. 



2 02 REVISTA DE SC1ENC1AS 



É certo porém que, além da carência de meios profícuos de fisca- 
lisação, a que allude o snr. Baldaque da Silva, para execução d'aquelle 
regulamento, veio tolher-lhe toda a efficacia o decreto de 25 de maio 
de 1893, que trata das zonas de jurisdicção das aguas do continente, de- 
pendentes do ministério da marinha e ultramar e do ministério das obras 
publicas, commercio e industria. 

Pelo artigo 3.° do referido decreto de 25 de maio, uma commissão 
especial devia determinar as áreas da acção da commissão de pescarias 
e central permanente de piscicultura e, como, até hoje, ainda não te- 
nham sido approvados nem publicados os trabalhos de demarcação de- 
terminados por aquelle decreto, não podem as commissões regionae s 
de piscicultura do Porto, Aveiro, Coimbra, Vianna do Castello, Villa 
do Conde e Povoa de Varzim, nomeadas por portaria de 6 de novembro 
de 1893, exercer as suas attribuições de propaganda nem formular pro- 
grammas de serviços, por não saberem sobre que aguas hão de elles 
applicar-se. 

Uma solução poderia dar-se a esta questão de jurisdicções ; mas 
talvez que, por simples que pareça, tenha ella attrictos e grandes. Seria 
a reunião n'uma só das commissões que, nos ministérios da marinha e 
obras publicas, tratam de negócios de pesca, o meio mais adequado de 
pôr em execução um regulamento que é lettra morta, por causa do de- 
creto de 25 de maio já referido e contra o qual, portanto, ninguém 
reclama. 

Em seguida o snr. Baldaque da Silva annuncia na sua communi- 
cação que se creou uma estação aquicola no rio Ave para a producção 
dos óvulos das espécies de agua doce. 

Não expõe o snr. Baldaqne da Silva os motivos que levaram a 
Commissão a escolher o rio Ave ; mas segundo a noticia que dá o mesmo 
snr. no seu livro Estado actual das -bescas em Portugal, « é este rio 
muito obstruido pelas azenhas que começam logo acima da ponte do 
caminho de ferro da Povoa de Varzim, deixando sob as influencias da 
maré unicamente o porto de Villa do Conde, accessivel ás espécies de 
peixes emigrantes e maritimos. No curso innavegavel dão-se muitas es- 
pécies de agua doce ». 

Apesar de toda a consideração que deve tributar-se a uma corpo- 
ração composta de « homens da mais alta esphera scientifica e compe- 
tência » (*), como são os membros da referida commissão, justificado se 
torna que, para evitar complicações internacionaes, se pozesse de parte 
o rio Minho para sede da estação de reproducção d'ovulos, mas lamen- 
ta-se que se não tivesse em vista o rio Lima, que o snr. Baldaque da 

(*) Vid. Baldaque da Silva — Agricultura Nacional, pag. 56. 



NATURAES E SOCIAES 203 



Silva descreve assim: «Este rio entra em Portugal um pouco acima 
de Lindoso e corre do N. E. para o SW. pelo espaço de 58 kilo- 
metros até entrar no oceano junto a Vianna do Castello, banhando, 
durante o seu curso, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Darque e aquella 
cidade. 

« Começa a ser navegável para barcos de fundo chato em Ponte 
da Barca, distante da foz 37 kilometros. 

« O leito d'este rio é muito pouco profundo e bastante obstruído 
por insuas e bancos de areia, tornando difficil a navegação fluvial de 
Ponte para Vianna, que tem de fazer-se aproveitando as marés. 

« A pesca n'este rio não tem a importância da do rio Minho, 
deixando até de haver algumas espécies importantes que ali entram, 
como, por exemplo, o salmão, peixe que antigamente era muito 
abundante também no Lima, mas que actualmente só apparece como 
raridade. 

«Ainda assim, presta-se o rio Lima ao exercicio da pesca das espé- 
cies que entram com a maré e das que se criam na agua doce, por isso 
que a sua diminuta profundidade e a fraca amplitude das marés, facili. 
tam muito o emprego, em grandes áreas, de apparelhos de rede de es- 
tacada, os quaes encurralam o peixe que sobe o rio e que no descenso 
das aguas fica em secco. 

«Estas mesmas condições e a qualidade arenosa do fundo, são 
muito favoráveis á pesca a pé dentro de agua, que se pôde fazer sem 
risco e que dá grande resultado com os apparelhos especiaes que ali se 
usam » ( l ). 

Passando agora á comparação da importância da pesca no rio 
Lima e no rio Ave, segundo os dados fornecidos pelo livro do snr. Bal- 
daque da Silva, ve-se que Vianna do Castello é um mercado sempre 
muito abundante de peixe, que em 1888 contava 9 lanchas de pesca do 
alto com 108 tripulantes, 90 barcos de pesca costeira com 36o tripulan- 
tes e 12 barcos de pesca fluvial com 24 tripulantes e que, em i885, ma- 
nifestou, em pesca maritima, 64:043 peixes diversos no valor de reis 
4:02711000 e 1.669:866 peixes no valor de 6:33i$592 reis, em 1886, sem 
contar ainda com a importância de i:2oo$ooo reis em que o snr. Bal- 
daque da Silva computa o valor da pesca annual do sargasso. ( 2 ) 

No porto de Darque, na margem esquerda do Lima e a montante 
da ponte do Caminho de ferro, contam-se 5o tripulantes de 22 embar- 
cações destinadas á pesca fluvial de que o snr. Baldaque da Silva dá as 
seguintes informações : « A quantidade, qualidade e valor da pesca flu- 



(1) Vid. Baldaque da Silva— Estado actual das pescas cit., pag. 7. 

(2) Vid. Baldaque da Silva— Estado actual cit., pag. 90 e 91. 



204 



REVISTA DE SCIENC1AS 



vial no rio Lima podem-se avaliar no mappa que se segue, elaborado 
pela alfandega de Vianna : 

Mappa da quantidade, qualidade e valor da pesca fluvial 
do rio Lima, durante os annos de 1885 e 1886 



DESIGNAÇÃO DAS ESPÉCIES 



Lampreias 
Sáveis . 
Salmões. 
Mugens . 
Chaliços. 
Solhas . 



QUANTIDADE 



I88S 



361 

267 

3 

9:100 

5: 122 



188© 



1:019 
252 

44:003 

6:690 

50 



VALOR 
185 IS' 



1430315 
790915 
120720 
450114 

290075 



3100469 



2845825 
1421 



1790290 

510195 

10360 

6160091 



A maior parte do peixe pescado no rio escapa ao manifesto, rasão 
porque, sendo abundantíssima no Lima, a pesca das solhas, figuram 
apenas no mappa fornecido pela alfandega cincoenta d'estes peixes em 
todo o anno de 1886, numero muito inferior ao que d'ellas apanham 
frequentes vezes em um único dia, e os chaliços, nome que ali dão aos 
robalos pequenos, pescados diariamente em grande escala, não chegam 
no mappa a 6o$ooo reis. (*) 

Com relação ao rio Ave escreve o snr. Baldaque da Silva : « A 
pesca na bacia litoral do rio Ave é insignificante, por isso que logo a 
curta distancia da foz passa a ponte do caminho de ferro, e é o leito do 
rio obstruido pelos açudes das azenhas, tornando muito limitada a área 
onde o fluxo e refluxo das marés se faz sentir, e portanto aquella tam- 
bém para a qual podem entrar as espécies de peixes domiciliadas na 
costa e as emigrantes. 

«Nos intervallos das levadas ha as pequenas variedades de agua 
doce. 

Na margem direita d'este rio fica Villa do Conde, em cujo porto, 
formado pela zona salgada do Ave, ha muitas embarcações de pesca que 
sahem a barra para exercer esta industria nas aguas maritimas. 

VILLA DO CONDE — Os pescadores d'este porto dedicam- se á 
pesca do alto e costeira, fazendo também abundante colheita de pilado. 



(i) Vid. Baldaque da Silva — Est a do actual cit., pag. 91. 



NATURAIS E SOCIAES 



20 5 



« A principal pescaria consiste em pescada, sardinha, faneca, con- 
gro e ruivo, como se deprehende do mappa do movimento da pesca 
d'este porto, que abaixo se segue. 

Mappa do movimento de pesca marítima do porto de Villa do Conde, 
comprehendendo Villa Chã, nos annos de 1885 e 1886 



Numero 


Numero 










■ 


de embar- 


de pesca- 


DESIGNAÇÃO 


QUANTIDADE 


VALOR DO 


PESCADO 


cações 


dores 


DAS 
ESPÉCIES 


^ 


^^^. 


-— - 




1885 1886 


1885 


1886 




1§S5 

300:000 


1§§6 


l§85 


1§86 






Sardinhas . . 


500:000 


6000000 


1:0000000 










Raias . . 




1:000 


2:200 


1000000 


2200000 










Fanecas . 




200:000 


360:000 


360$000 


1:0800000 










Pescadas 




6:400 


12:000 


9600000 


2:4000000 


67 


71 


302 


310 


Congros . 




1:000 


2:000 


3000000 


6000000 










Cações . 




800 


1:000 


400000 


500000 










Ruivos . 




2:000 


4:000 


2000000 


4000000 










Lagostas. 




2:000 


3:000 


2000000 


3000000 










Arólas . . 




]:000 


1:500 


400000 


600000 










Pilado (barcos). 


40 


45 


1:1830770 


2:7050580 








3:9830770 


8:8150580 



O porto de Villa do Conde, outr'ora tão notável pelos estaleiros 
navaes que possuia e pelo seu movimento commercial, está hoje redu- 
zido ás modestas proporções de pequeníssima cabotagem e de pesca. (*) 

D'estas transcripções conclue-se: 

i.° que não ha pesca fluvial no rio Ave, representando no rio 
Lima um valor manifestado de 3io0ooo reis em i885 e de 6160091 reis 
em 1886; 

2. que o valor do mexoalho pescado em média nos annos de i885 
e 18S6 foi de 1:9440675 reis e o valor annual do sargasso em Vianna 
do Castello regula por 1:200^000 reis; 

3.° que a comparação entre os peixes comestiveis manifestados em 
Vianna do Castello e Villa do Conde conduz ao mappa seguinte : 



ANNOS 



1885... 
1886... 



VIANNA DO CASTELLO ! VILLA DO CONDE 



Quantidades Importâncias í Quantidades I Importâncias 



610:043 
1.669:866 



4:0270001 
6:3310592 



514:200 

885:700 



2:8000000 
6:1 



DIFFERENÇAS A FAVOR 
DE V. DÓ CASTELLO 



Quantidades 

125:843 
784:166 



Importâncias 

1:2270001 
2210592 



(1) Vid. Baldaque da Silva — Estado actual cit., pag. 103 e 104. 



20Ò REVISTA DE SCIENC1AS 



A exclusão do rio Lima para estação aquicola d'agua doce, funda- 
mentada na sua origem em Hespanha, não deve ler importância por 
isso que o rio Lima tem 58 kilometros de percurso em Portugal e não 
sendo, como o Minho, limite territorial não daria logar a complicações 
internacionaes nem determinaria novos convénios de pesca. Demais, se 
se quizer attender á cultura do salmão, pôde affirmar-se que no Lima 
ha de ella dar bom resultado, por isso que ainda em i885 ahi se pesca- 
ram três d'aquelles peixes, como acima se viu e não consta que o mesmo 
succeda no Ave. 

Se porém a origem hespanhola do rio Lima pôde ter algum pezo, 
annular-se-ia facilmente esse inconveniente construindo próximo da raia 
um açude sem a respectiva escada ou plano inclinado para a subida do 
peixe ou, como propõe o silvicultor snr. Carlos Pimentel, no mesmo 
numero dos cAnnaes de Sciencias Naturaes já referidos, escolher-se-ia 
o rio Cavado, que todo corre em território portuguez. 

Com eífeito o snr. Pimentel escreve uma nota em que, depois de 
apontar a selvageria que se dá na nossa pesca em monoscabo dos regu- 
lamentos aquicolas, diz ; « o salmão é uma d'estas espécies e sem duvida 
a mais estimada. Apparece nos rios do norte : Lima, Cavado e sobretudo 
no Minho, os quaes, por causa da frescura e limpidez das suas aguas e 
outras condições, são muito propicios para a creação d'este peixe que, 
apesar d'isso, é raro, o que motiva o seu elevado preço. Devia aprovei- 
tar-se a aptidão daquelles rios para a creação do salmão, estabelecen- 
do-se em alguns d'elles uma piscifactura destinada a reproduzir este 
peixe, o que teria certamente grande alcance económico. 

« Um estabelecimento d'este género, de proporções modestas, 
seria sufficiente para produzir annualmente muitos milhares de sal- 
mões. 

« O Cavado seria talvez o rio a preferir, pelo menos nos primeiros 
ensaios, caso apresente as condições mais favoráveis para a propagação 
do salmão, visto que tem a origem e todo o seu curso em território 
portuguez. 

« Esta questão merece muito ser estudada, porque com um 
pequeno dispêndio poder-se-ha obter grande beneficio, acerescen- 
do consideravelmente o numero de salmões que visitam os nossos 
rios. (*) 

N'estes termos descreve o snr. Baldaque da Silva o rio Cavado : 
«O rio Cavado nasce na raia, segue de NE. para SW., banha Montale- 
gre, passa entre Barcellos e Barcellinhos á distancia de 17 kilometros 



(1) Vid. Annaes cit., pag. 35. 



NATURAES E S0C1AES 207 



da foz, e desemboca no oceano depois de um percurso de 100 Idlome- 
tros, dos quaes 12 navegáveis até ás azenhas de Fornellos, formando 
junto á embocadura o porto de Fão e Espozende. 

;< Tem por affluentes os rios Rabagão e Homem. 

« Também a bacia hydrographica do Cavado se presta aos traba- 
lhos da pesca, em virtude da fraca corrente das suas aguas e da sua pe- 
quena profundidade. O fundo é, em geral, arenoso e o curso das marés 
faz-se sentir até ás primeiras azenhas. 

«A barra do Cavado fica a secco nas grandes baixamaresde aguas 
vivas e portanto só é accessivel para navios de pequeno porte durante a 
preamar. 

« Entram n'este rio algumas espécies de peixes emigrantes e mari- 
timas, e abundam as de agua dcce. » (*) 

Seguindo para o rio Cavado uma analyse idêntica á que acima se 
faz para o Lima e Ave vê-se «no rio Cavado entram as espécies de pei- 
xes emigrantes — sável e lampreia sendo raríssimo o salmão — affluem 
com a maré as espécies menores de proveniência marítima e dão-se 
quasi todas as variedades de agua doce» ( 2 ) ; que a 8 kilometros para 
montante de Fão, no sitio da azenha de Fornellos, se encontra o pri- 
meiro açude em que «ha um engenho authomatico de pesca onde uma 
ou outra vez cae o salmão» ( 3 ); que, nos portos de Fão e Espozende, 
em 18S7, existiam i3 lanchas do alto tripuladas por 200 homens; 40 
barcos de pesca costeira com 160 tripulantes e 8 bateis de pesca fluvial 
com 16 homens, sendo, por consequência, menos importantes estes dois 
portos de pesca do que o de Vianna do Castello, considerado debaixo 
do mesmo ponto de vista, excepto para a pesca do alto. 

Quanto ao valor manifestado da pesca fluvial íoi elle em i885 e 
1886 para o rio Cavado respectivamente de 1:126 peixes na importância 
de 90^590 reis e 12:402 valendo 261^191 reis. Accrescentando porém a 
estes valores o do peixe capturado no engenho da azenha de Fornellos 
e do que é pescado em todo o curso d'agua doce do rio, computado 
pelo snr. Baldaque da Silva, em 120^000 reis annuaes, conciue-se que 
a pesca fluvial no rio Lima, em i885, excedeu em cerca de 400^000 
reis a do rio Cavado e igualaram-se em 1886. ( 4 ) 

A comparação da pesca maritima entre os portos de Vianna do 
Castello e Espozende e Fão dá o quadro seguinte : 



í 1 ) Vid. Baldaque da Silva — Estado actual cit., pag. 8. 

(*) Vid. Baldaque da Silva— Estado actual cit., pag. 95. 

(") Vid. Baldaque da Silva — Est ado actual cit., pag. 96. 

( 4 ) Todos os algarismos e dados estatísticos citados foram extrahi- 
dos do livro do snr. Baldaque da Silva — Estado actual das pescas em Por- 
tugal e encontram-se em pag. 96 e 97. 



208 



REVISTA DE SCIENC1AS 



ANNOS 



1885.. 
1886. . 



PORTO DE PORTOS DE 

VIANNA DO CASTKLLO i FÃO E ESPOSENDE 




640 013 
1.669:806 



4.O270OO1 56:764 , lx 
6:331$592 87:397 w 



3:4380530 (1| 
5:139^845 [ > 



DIFFERENÇAS A FAVOR 
DE V. DÓ CASTELLO 

Quantidades Importâncias 



583 279 1 588$ 171 
1.582:469 I 1:1910747 



Ainda portanto, sob o ponto de vista da pesca, é Vianna do Cas- 
tello superior não só a Villa do Conde como aos portos dependentes do 
posto fiscal de Espozende. 

Uma estação aquicola no rio Cavado também teria o inconveniente 
de se encontrar afastada do caminho de ferro, o que é muito attendivel 
para se poder facilitar a expedição dos óvulos, a menos que Barcellos 
não fosse escolhido para sede da referida estação. O rio Lima, pelo con- 
trario, oftereceria Vianna do Castello e Darque, estações do caminho 
de ferro do Minho, como locaes adequados para a estação destinada a 
substituir a do rio Ave, que só poderia ficar ligada com o caminho de 
ferro da Povoa de Varzim que, além de ser de via reduzida, não en- 
tronca com nenhuma das nossas linhas férreas de grande circulação. 

Pelo que acaba de ler-se se vê o quanto é complicado o problema 
da escolha da estação piscicola d'agua doce e o muito que conviria não 
tomar qualquer decisão precipitada. Se não se contassem alguns maus 
resultados, nas primeiras tentativas, reproduzindo em grande as expe- 
riências de Coste no Collége de France, talvez que maiores progressos 
tivesse realisado a piscicultura e decerto não daria logar a tantos livros 
que se parecem com o do commissario Rimbaud, n'outro logar apre- 
ciado ( 2 ). Muita gente ainda em Portugal não acredita no futuro da pis- 
cicultura portugueza e portanto é indispensável que os primeiros resul- 
tados obtidos sejam, por assim dizer, assombrosos para que os factos 
façam callar aquelles que tanto abundam entre nós, os incapazes de 
fazer o menor esforço para o bem commum, mas que duvidam do que 
os outros fazem. Não será portanto demasiada precaução rodear o pri- 
meiro laboratório piscicola do nosso paiz com todas as probabilidades 
cTexito. 

Continuando agora a examinar a communicação do snr. Pimentel 
encontra-se n'ella a indicação de espécies que conviria propagar, como 
o Acipenser sturio, e introduzir nos nossos rios como a truta arco iris, 
oriunda da America para as aguas menos frias do que as que frequenta 



C 1 ) Deduziu-se 27 barcadas de pilado na importância de 2820067 reis. 
( 2 ) Vid. Laboratório marítimo tf Aveiro, cap. II. 



NATURAES E SOCIAES 20Ç 



a truta vulgar; a Truta laciistris para as lagoas da Serra da Estrella, 
a exemplo do que se fez nas Astúrias, no lago Enol, em 1881. Em se- 
guida, passando para as lagoas do litoral, refere- se ás que se acham 
entre Mira e Quiaios, com cerca de 25o hectares, e descreve algumas 
que ficam entre o Mondego e o Liz, principalmente a da Ervedeira, 
situada a 5oo metros para o sul da matta do Urso e na qual propõe que 
se effectue algum trabalho piscicola a que se adaptariam os Cyprinus 
carpio e linca, cujas qualidades aprecia. Depois dos primeiros ensaios 
tentados nas lagoas da Ervedeira e dos Linhos, em que se não prejudi- 
cariam interesses já existentes ( ] ), applicar-se-iam os ensinamentos ali 
colhidos aos i:5oo hectares de aguas conhecidas pelos nomes de Lagoas 
de Mira, Óbidos, Veia, Albufeira, Melides, Santo-André, sendo possivel 
acclimar nas lagoas do litoral do Alemtejo e Algarve alguns peixes 
oriundos dos paizes quentes. 

Contém portanto o trabalho do snr. Pimentel um grande numero 
de dados que muito conviria ter em consideração e « que se ligam inti- 
mamente "com uma questão da máxima importância, a alimentação da 
gente pobre » ( 2 ) como diz o auctor d'aquella communicação, em que 
ha ainda que notar as seguintes palavras: «Outra medida que devia ado- 
ptar -se e fazer cumprir rigorosamente, pois que teria acção benéfica e 
reparadora muito sensivel sobre a povoação das aguas, é a do estabele- 
cimento de reservas ou viveiros nos rios, em sitios que se julgassem 
mais adequados para a creação dos peixes, prohibindo-se aqui a pesca 
em qualquer tempo». ( 3 ) 

Convém notar que o regulamento aquicola, approvado por de- 
creto de 20 d'abril de 1893 e de que acima se fallou, trata d'este assum- 
pto, por isso que o seu artigo 37. ° prohibe a navegação nas zonas <• que 
estejam destinadas para viveiros naturaes, desovadeiras artificiaes ou 
abrigos das espécies, o artigo 58.° prohibe ali a pesca e o artigo 70. do 
mesmo diploma fixa a multa para a contravenção a este ultimo artigo. 

Os motivos que teem detido a execução do regulamento dos ser- 
viços aquicolas, e que acima se apontam, sem contestação são os que 
teem impedido a regulamentação d'este assumpto. 

O snr. Augusto Nobre, director da revista que publica os trabalhos 
acima apontados dos snrs. Baldaque da Silva e Carlos Pimentel, allude 
ao projecto da estação zoológica em Cascaes, a que também se referiu 
o snr. Baldaque da Silva, como se viu anteriormente. Mostra o snr. 
Nobre, no seu trabalho, uma certa preferencia pela bahia de Setúbal, 



(1) Vid. Animes cil , pag. 40. 

(2) Vid. Annaes cit., pag. 40. 

(3) Vid. Annaes cit., pag. 36. 



2 IO REVISTA DE SCIENC1AS 



que classifica de « ponto mais apropriado para uma estação zoológica 
marinha ; mas a proximidade a que fica de Cascaes, apressa se a aceres- 
centar, e os meios rápidos e fáceis de transporte não prejudicam, de 
modo algum, a sua installação n'esta praia frequentadissima e de fácil 
visita ». (*) 

No resto do seu trabalho o snr. Pereira Nobre allude a uma me- 
moria que publicou no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa 
em 1886 e a uma proposta que, em 1890, fez ao snr. conselheiro Arouca, 
então ministro das Obras Publicas e, em poucas linhas communica que, 
em breve, será installad^, por iniciativa particular, um laboratório de 
zoologia marítima, cujo local não designa. 

Por ultimo, em maio passado appareceu no Porto uma Homena- 
gem do Centro Commercial do Porto ao Infante D. Henrique e nella 
se encontra um artigo do snr. Nobre referente a piscicultura. 

É para lamentar que n'uma occasião em que o paiz não devia 
contentar-se com festas para celebrar um nome glorioso, mas tinha 
obrigação de penitenciar-se dos peccados commettidos, representados no 
egoísmo com que todos sacrificamos a pátria ao nosso bem estar pes- 
soal, não aproveitasse o snr. Nobre o ensejo para mostrar, no seu artigo, 
o quanto a carência de dados fornecidos pela physica, pela chimica, pela 
geologia, pela meteorologia e pela bathimetria nos impede de affirmar 
que seja seguro o êxito na cultura de peixes de que se cuida nos paizes 
em que a piscicultura está mais generalisada e onde elles precisam, du- 
rante o inverno, cuidados especiaes que, diz o snr. Nobre, «nós não 
precisaríamos ter, dada a sua racionai distribuição pelas aguas interiores 
do paiz» ( 2 ). Essa distribuição racional depende porém de elementos que 
aquelias sciencias nos fornecem e que totalmente desconhecemos, por 
emquanto. Pena foi que não quizesse o snr. Nobre, com a sua compe- 
tência de zoologo e naturalista, lembrar que os maus systemas de pesca 
intensiva, de que usamos, despovoam progressivamente os nossos rios e 
de tal maneira algumas lagoas que se não encontra ali nem um só peixe ; 
que nas costas marítimas vão rareando algumas espécies, outr'ora abun- 
dantes ; que a nossa ignorância dos bons methodos ostreicolas tem dei- 
xado perder os nossos bancos naturaes de ostras, «que se extinguem por 
falta de methodo e ambição desregrada nas colheitas» ( 3 ). N'uma obra 
destinada a uma grande tiragem, como aquella publicação do Centro 
Commercial, e fallando de um assumpto a que geralmente se liga pou- 
quíssima, ou quiçá, nenhuma importância em Portugal, a pár da ennu- 



(*) Vid. Annaes cit., pag. 48. 

( 2 ) Vid. Homenagem cit., pag. 43, col. 2. a 

( 3 ) Vid. Homenagem cit., pag. 43, col. 2. a e 44, col. l. a 



NATURAKS E SOCIAES 211 



meração dos trabalhos da Commissão central permanente de Piscicul- 
tura que, conforme diz o snr. Nobre, « ainda não saiu até hoje do campo 
theorico» (') era azada a opportunidade para que se recordassem os 
trabalhos piscicolas do snr. doutor Abel da Silva Ribeiro, trabalhos in- 
cidindo sobre espécies de agua salgada, alguns dos quaes só quasi vinte 
annos depois foram reproduzidos pelo professor Kunstler, nos labora- 
tórios da Sociedade Scientifica d'Arcachon ( 3 ), trabalhos emprehendidos 
sem o auxilio de experiência alheia, sem livros que lhes servissem de 
guia e tão importantes que, ainda hoje, no local em que se effectuaram, 
em Villa Nova de Milfontes, se encontra prodigiosa quantidade de peixe, 
pois sendo de espécies estacionarias se tem conservado ali» ( ò ). Estes 
resultados obtidos por iniciativa particular em Portugal, onde ella tanto 
falta, são porém quasi desconhecidos, de maneira que não raro é ver 
fallar em trabalho:-; de piscicultores estrangeiros, que, de ha muito, a 
piscicultura portugueza poderia contar no seu activo, se mais se vulga- 
risasse a noticia d'elles nas occasiões em que os naturalistas teem que 
escrever para um publico menos restricto, do que aquelle que em geral 
os costuma ler. 

Ainda n'uma publicação da Índole do livro editado pelo Centro 
Commercial, ao ennunciar os nomes dos molluscos que habitam as nos- 
sas aguas e que «tendem a um anniquilamento completo, se não pode- 
rem ser efficazes as providencias decretadas » ( 4 ) seria da máxima con- 
veniência descrever a pesca devastadora conr draga ou engenho que, 
revolvendo o leito dos rios, d'elles rouba amêijoas e berbigões tão pe- 
quenos que só podem applicar-se ao adubo das terras, sendo tão remu- 
neradora esta pesca selvagem, que muitos barcos a ella se dedicam em 
todo o anno e, durante o inverno, no cães d'Ovar, em quasi todos os 
dias, se encontram dez e mais barcos vendendo amêijoa e berbigão para 
escasso, que o snr. tenente d'armada Fonseca Regalia define nos termos 
seguintes : « adubo composto de detrictos das pescas e das espécies im- 
próprias para a alimentação ou pelas suas qualidades ou pelas suas Ínfi- 
mas dimensões, de mistura com a folhada que as varredouras trazem do 
fundo» ( fj ). 

Não foi esta a orientação que o snr. Nobre deu ao seu trabalho e 
talvez fosse melhor assim. Ha um annexim portuguez que diz que tris- 
tezas não pagam dividas e um artigo de penitencia, no meio das festas 
do Porto, corna risco de destoar tanto como dois sons que não guardam 

l 1 , Vul Homenagem cit., pag. 41, col. 2. ;i 

(2) Vid. Laboratório Marilinto d' Aveiro, pag. 24. 

( ;{ ) Vid. A. Velloso d'Araujo — Esboços agrícolas, pag, 114. 

V 1 ) Vid. Homenagem cit., pag. 44, col. 2. a 

(s; Vid. A ria a' Aveiro e as suas industrias, pag. 4G. 



212 REVISTA DE SCIENC1AS 

relações simples entre si, o que, materialmente, representam os hespa- 
nhoes pelo rifão : « esto cuadra tanto como á un crucifijo un par de pis- 
tolas ó como um tambor á un altar mayor ». 

Aveiro, 25 de outubro de 1894. 



Mello de Mattos. 

Engenheiro. 



BIBLIOGRAPHIA 



M. Vieira Natividade — La taille du silex au xix siècle 

ii pap. e 4 est. lit. — Alcobaça, l8g3. 

Julgar se-ha, pela amplitude do titulo do opúsculo que o seu au- 
ctor trata dos differentes processos do talhe do silex entre as populações 
que, no meio da civilisação a que chegamos n'este século, se utilizam 
ainda de instrumentos de pedra, como são os Esquimaus, os Neo Cale- 
donianos, os Neo-Zelandezes, os Australianos, etc. Nada d'isso. O A. trata 
apenas d'uma curiosa experiência realisada no seu gabinete de trabalho 
da villa de Alcobaça sobre a maneira de talhar o silex. Para isso fez vir 
dum logar próximo, a Azinheira, um talhador de pederneiras para fu- 
zis, o qual imitou com a destreza própria de quem sabe do seu ofRcio, 
as differentes peças do bello mobiliário neolithico, que o A. recolheu 
nas grutas prehistoricas do Carvalhal. 

O snr. Natividade, que observou, com o interesse e attenção d'um 
paleoethnologo dedicado e enthusiasta, as differentes phases porque pas- 
sou o talhe do silex na confecção dos instrumentos imitados, trata, no seu 
opúsculo, de rebater os principios estabelecidos sobre o mesmo assum- 
pto, pelo illustre de Mortillet no livro celebre. Le Préhisiòrigue, termi- 
nando por convidar os archeologos portuguezes e extrangeiros a irem a 
Alcobaça «constatar de visu como se talha o silex no século XIX e como 
se poderia ou deveria talhal-o nos tempos prehistoricos.» 

No emtanto, quando a Paleoethnologia se salientava no movimento 
scientifico da segunda me*ade d'este século, os archeologos como Lyell, 
Evans, Lartet, Keller, etc, realisnram experiências semelhantes á que 
fez agora o snr. Natividade: por exemplo, as experiências de Evans 
com um operário hábil do condado de Suffolk que empregava o mar- 
teilo de ferro, como o talhador de pederneira do snr. Natividade. 

Além d'isso, para se restaurarem os usos e costumes das nossas 
populações prehistoricas, os paleoethnologos recorrem á Ethnographia, 
que lhes fornece os elementos comparativos para a confirmação das suas 
inducçóes. Assim, sabe-se: como o indio da Califórnia talha as suas pon- 
tas de lança de obsidiana, por meio do seu cinzel de agatha ; como o es- 
quimau confecciona por pressão uma ponta de frecha de silex, com o seu 
arrov)-flalier ; como o australiano utilisa o seu tomahazuo, polido e en- 
cabado como o nosso machado neolithico, ou lascado e seguro directa- 
mente com a mão, como o do homem chelleano. 



2 14 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Ora, assim como estas populações selvagens teem vários processos 
para o talhe das suas armas de pedra, eu creio, também, que os povos 
neolithicos variavam no modo de manufacturar os seus instrumentos li- 
thicos. 

Na celebre officina neolithica de Spiennes, os snrs. Cels e A. de 
Pauro, ( l ) demonstraram, por exemplo, que se talhavam as grandes la- 
minas de silex empregando um ponção de chifre de veado. O australiano 
produz as mesmas laminas lascando-as ao fogo; o indio do México, fa- 
zendo pressão com um pedaço de madeira rija, extrahe também uma 
afiadissima lamina de obsidiana ou, então, ainda utilisa um segundo pro- 
cesso : o da percussão. 

Parece-me, portanto, que as experiências curiosas do snr. Nativi- 
dade não invalidam as conclusões de Mortillet. O que ellas nos demons- 
tram também é que em Portugal se podem imitar perfeitamente, como já 
se faz no extrangeiro, os differentes instrumentos de pedra prehistoricos. 

E' caso para admirar a maravilhosa destreza dos nossos talhadores 
de pederneira, que representam, assim, com os seus processos de fa- 
brico, uma industria que imperou na Europa por milhares de annos, nos 
primeiros estados civilisadorcs da Humanidade. Essa admiração mani- 
festou-a Virchow, em i885, ao apresentar á Sociedade berlineza de Ethno 
logia alguns exemplares de silices modernos da officina de pederneiras 
da província de Verona. 

Estes exemplares modernos de silex, teem ainda o grande interesse 
de nos mostrarem, como disse P. Orsi, ( 2 ) os caracteres distinctivos en- 
tre esses silices e os prehistoricos pela côr e frescura de lascamento do 
silex moderno. 

Foi este o serviço que o snr. Natividade prestou á nossa Archeo- 
logia prehistorica. 

F. Cardoso. 



F. Martins Sarmento — Lusitanos, Ligures e Celtas, 

I folh. de IOI pag. — Porto, 18QI-93. 

O illustre archeologo vimaranense reuniu em folheto os artigos 
publicados na Revista de Guimarães acerca da origem ethnica do povo 
lusitano. N'estes artigos o auetor, advogando o ligurismo da nossa popu- 
lação proto-historica, replica acremente á critica do distincto professor 
Adolpho Coelho, que defende a sua celticidade. E* a eterna questão dos 
nossos archeologos eruditos ; e no emtanto o problema subsiste sempre 
com o seu enorme ponto de interrogação. 

E' tempo de empunharmos o alvião e o compasso d'espessura para 
desentranharmos das nossas estações archeologicas que ainda não foram 
destruídas, os materiaes que resolverão esse problema e para destrinçar- 
ia) Considérations sur la taille du silex, trile qu'elle étail praliquée 
a Spiennes h Vage de ia pierre polie, in Matériaux pour Vhisloire de Vhamme 
— 1887, pa£. 132. 

(2) Fabbriche veronesi di pielre da acciarino, in Bulletinn di Pale- 
thnologia italiana — Anno XII, pag. 95. 



NATURAES E S0C1AES 21 5 



mos nos restos osteologicos encontrados e no estudo anthropometrico da 
população actual os typos de raça que existiram e permanecem ainda 
arreigados ao nosso solo. Com o concurso do que a esse respeito nos 
deixaram os escriptores da antiguidade e que os estudos archeologicos e 
anthropologicos tratarão de verificar, só assim, creio, se poderá resolver 
o nosso problema ethnogenico. 

Ha uma dezena de annos que os sábios do congresso d'anthropo- 
logia e archeologia prehistoricas realisado em Lisboa levaram a pro- 
messa da instituição duma sociedade d'anthropologia portugueza, a qual, 
conglobando e animando o? esforços dos homens de sciencia dopaiz, le- 
varia por deante a resolução do nosso problema ethnico. Nada se cum- 
priu, porém ; o enthusiasmo de momento extinguira-se breve na modorra 
fatal da nossa sociedade enervada. Pouco ou nada se adeantou e em an- 
thropologia, então, nada se publicou, nada se tem feito. De modo que 
os poucos dedicados á nossa sciencia, como os snrs. Martins Sarmento e 
Adolpho Coelho, que querem fazer valer as suas theorias, não as podem 
fortalecer com materiaes novos que ainda estão escondidos no nosso 
solo ou afogados na nossa mesclada população. O problema subsiste sem- 
pre com as suas incógnitas ! 

Ao passo que lá fora se pesquizam, activamente, nervosamente, as 
origens e o desenvolvimento da Humanidade, nós vamos vagarosos, com 
o passo característico do nosso boi barrozão, no estudo da ethnologia 
nacional, produzindo, pelo muito, um trabalho -scientifico por anno ! 

F. C. 



Balthasar Osório — Appendice ao catalogo dos crustáceos 
de Portugal existentes no Museu Nacional de Lis- 
boa, 8.°, 9 pag. — Lisboa, 1892. 

N'esta noticia o illustre professor e naturalista acerescenta, á lista 
das espécies carcinologicas já conhecidas na costa portugueza, outras no- 
vas, e fornece interessantes informações acerca do habitat, profundidade 
e epocha de evolução de certos crustáceos já indicados na nossa fauna. 
A ultima espécie mencionada é nova e denominada Peroderma Capelloi. 

R. P. 



Balthasar Osório — Estudos ichthyologicos acerca da 

FAUNA DOS DOMÍNIOS PORTUGUEZES NA AFRICA. Ext. do Jornal 

da Academia — Lisboa, 1893-94. 

» 

Listas de peixes de Angola, das ilhas de S. Thomé e Principe, do 
ilheo das Rolas e de Bissau, alguns dos quaes ainda não indicados nas 
regiões referidas. Varias espécies novas : Cirrhites atlanticus, do ilheo 
das Rolas; SerranUs armatus, de S. Thomé; Hccmulon macrophthal- 
mum, vulgarmente bejigo, de Rolas e S. Thomé; Ofihichthys guineen- 
sis, vulgarmente cobra de agua, de S. Thomé. 

R. P. 



2l6 REVISTA DE SC1ENC1AS 



Salvador do Bíanco — Methodos usados na Estação Zooló- 
gica DE NaPOLES, (Trad. dos Anal s de Li Socied. es/>. ic hist. 11.it., por 13 
O.) 8 °, 37 pn-. — Lisboa, 1893. 

Excellentc, este serviço do snr. Balthasar Osório em divulgar os 
processos usados no laboratório marítimo de Nápoles para a conserva- 
ção e preparação dos animaes, principalmente dos inferiores. E sabido 
que, ate ha pouco, os methodos applicaJos não evitavam as deformações 
de certos seres e a perda das cores que exhibiam em vivos. Muitos pro- 
gressos se fizeram a tal respeito iVaquella instituição scientifica e de 
parte d'elles nos dá conta esta noticia. Abre o opúsculo pela indicação 
dos utensílios, reagentes e misturas mais empregadas, e segue- se-lhe a 
cnnumeração dos methodos de preparação e conservação dos seguintes 
animaes : protozoários, poriferos, anthozoarios, hydromedusas, acale- 
phos, siphonophoros, ctenophoros, echinodermes, enteropneustes. ver- 
mes, crustáceos, pantopodos, molluscos, oryozoarios, brachiopodos, 
tunicados e peixes. Um serviço excellente, este. 

R. P. 



Albert Girard — Notice sur les cep iialopodes des cotes de 

l'EsPAGNE, 8.°, II pag. -Madrid, 1892. 

O snr. Girard, que como malacologista se tem extremado entre os 
naturalistas portuguezes da especialidade, indica n'este opúsculo 12 es- 
pécies que recebeu dum professor hespanhol de Andaluzia. Constata a 
pobreza da fauna theuthologica, se fosse a deduzir-se d'esta lista. O que, 
porém, é certo, é que tal ramo da malacologia hespanhola está muito 
pt uco estudado. Num prefacio o auetor indica as espécies communs ás 
faunas portugueza e hespanhola e as encontradas nas costas portugue- 
zas e nã ) registradas na fauna de Hespanha. 

R. P. 



Albert Girard — Les cephalopodes dès íles açores et de 

L 1LE DE MaDÈRE, 8.°, 11 pag. — Lisboa, 1892. 

O snr. Girard menciona, n'este seu folheto, 11 espécies authenticas 
de cephalopodes dos Açores e 2 duvidosas, Sépia offietnalis, L. e Loligo 
vulgaris, Lamk , indicadas por Drouet nos seus Mollusques marins, 
mas jamais encontradas ulteriormente. Da Madeira cita 8 authenticas e 
3 duvidosas: Octopus tuberculatus, Blainv , O. Cuvier, d'Orb. e Loligo 
vulgaris, Lamk. Ás únicas referencias até agora conhecidas e relativas 
ás costas da Madeira eram de d'Orbigny e de White e Johnson. 

R. P. 



/ 



A Rkyista tem recebido as seguintes publicações, 
d'alguma; das quaes se occupará na sua secção biblio- 

graphica: 

i i i 

Ficderico Olòriz. — Dislribucion geográfica dei índice cefá- 
lico eu Espana, in-8.°, 289 pag. e 2 carts. Madrid, 1894. 
List of Lhe Linnean Society of London, .8.°, 5i pag. Lon- 
don, 1894. 



Annaes de .sciencias naturàes, Vol. I, n.° 4. Porto, 1894, 
Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, serie i3. a , 

n os 5-8. Lisboa, 1894. 
Boletim da Real Associação dos Architectos civis e Archeolo- 

gos porluguezes, serie 3/, n.° 1. Lisboa, 1894, 
Boletim da Sociedade Broteriana, tom. XI, n.° 4. Coimbra, 

1893- 

Boletim da Sociedade Martins Sarmento, vol. I, n.° 7. Porto, 

1894. 
Jornal da Sociedade Pharmaceiítica Lusitana , tom. V ", n.°* 

6-7 e. 9- 10. Lisboa, 1894. 

Instituto, vol. XLI, n/ r i5-i6. Coimbra, 189 .{. 
Portugal agrícola, vol. Vi, n.' 3 1-4. Lisboa, 1894. 
Revista contemporânea, vol. I, n. os 1 -3. Coimbra, 1894. 
Revista florestal, vol. I, n.° 1. Aveiro, 1894. 

Bulletin de la Sociêté belge de microscopie, vol. XX, n.° 10. 

Bruxelles, 1894. 
Bulletin de la Société belge de Géologie, de Palêontologie et 

d y LIjdrologie, tom: VII, fase. IV. Bruxelles, 1894. 
Feuille des jeunes naluralistes, tom. XXIV, n. os 287-8; vol. 

XXV, n. 03 289-290. Paris, 1894. 
Revue mensuelle de PEcole dWntkropologie de Paris, tom. 

IV, n.° i í . Paris, 1894. 

1 jollclino dei Real Comitato Geológico d' Itália, vol. V, n.° 3* 

Roma, 1894. 
Bollelino di Paletuologia italiana, tom. X, n. cs 4-6. Parma, 

1894. 
Verhandlungen der Berliner Gesellschaftfúr Anthropologie, 



El, tologie und Urgeschichte, n.° de abril, de 1894. Ber- 
lim, 1894. 
Abslracts o f the proceedings of the Geológica! Society of 

London, n. #s 63o- 1. Ldndon, 1894. 
Proceedings o f the Linnean Society of London, 8 fase. Lor 

don, 1882-Q4. 
The microscope, vol. II, . n ° 1. London. 1894. 
Bulletin de Plnstitut E'gyptieii, serie 3.*, fase. 4 Q Le Caire, 

1894. 
Actes de la Société scientifique du Chili, tom. II, n.° 4. ; 

tom. III, n. ôs 4-5; tom. IV-, n.' s 2-3. Santiago, 1894. 
The proceedings of lhe Linnean Society of Neip Soulh Wales, 

vol. VII, n . os i -:;-. Sydney, 181)4. 

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REVISTA 

DE . 

SGIENCIÃS NATORÃES E SOGIAES 

Pmtolicaçíio tr*i menti*»! 

----- -.--- , j 

'.Condições cte publicação 

A RÈVISTAvsahirá regularmente quatro v^zes por | 
anno, em fascículos de 48 pags., 8 ° 

PREÇOS DA ASSI G N A T U R A 

Portugal : 

Anno ou serie de 4 números . . . . . . i$2 00 reis 

Numero avulso. .......'. 300 » 

Pai-zes cqmprehf.ndidos na união postal! 

Anno . 8 Ir. 

Numero avulso. 2 » 

Para os outros paizes que não 'fazem. parte da união, aceresce o 
porte do correio. 

A correspondência deve ser dirigida a Rocha Peixoto, | 
na Academia Polytechhtca: — PORTO. 

.PORTO -Typographia O.cidentn! 



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